Sobre o que você anda escrevendo? Pra onde você vai passear? E as crianças, onde estão?
Miles Richardson é professor de CONEXÃO COM A NATUREZA.
Sim. Existe. Pode parecer um professor de, digamos, "bebeção de água".
Mas não é tão óbvio assim. Diz o The Guardian:
> People’s connection to nature has declined by more than 60% since 1800, almost exactly mirroring the disappearance of nature words such as river, moss and blossom from books.
Em 200 anos, deixamos de publicar mais da metade das palavras relacionadas ao mato ou morro. O que representa uma gradual "extinção contínua da experiência com a natureza" - isto é, ou mato, ou morro.
> More effective, according to the study, are measures instilling awareness and engagement with nature in young children and families, such as forest school nurseries.
Pé na grama, olhar atento e léxico forte.
> Em depoimento, o homem disse que o ambiente era de brincadeira e harmônico, e estava comemorando o nascimento da sua filha. Ele também disse que, no dia do evento, fez uma brincadeira e que aconteceu de "lamber a orelha", mas que o ambiente era "de muita descontração".
Sempre uma brincadeira.
Olha isso. Texto escrito por David Gisselsson Nord e Alberto Rinaldi, no The Conversation publicado na BBC.
> O uso de táticas e tecnologias cada vez mais sofisticadas para manipular a cognição e a emoção representa uma das ameaças mais insidiosas à autonomia humana em nosso tempo.
> A guerra cognitiva serve para obter vantagem sobre um adversário, visando atitudes e comportamentos a nível individual, de grupo ou populacional. Ela é projetada para modificar as percepções da realidade, transformando a "configuração da cognição humana" em um domínio crucial da guerra. Trata-se, portanto, de uma arma em uma batalha geopolítica que se desenrola por meio de interações entre mentes humanas, em vez de em domínios físicos.
> A capacidade de microssegmentação pode evoluir rapidamente à medida que os métodos de acoplamento entre cérebro e máquina se tornam mais eficientes na coleta de dados sobre padrões de cognição.
Joana, nove anos, vai ter que levar um jornal impresso para a escola nesta semana.
Jornal. Impresso. Talvez você não conheça.
Até recentemente, pessoas circulavam pelas calçadas e encontravam bancas, estruturas que remetem a quiosques, e edições de jornais do dia, penduradas na lateral. Gente parava pra olhar as manchetes e se informar - basicamente, é o que aquele tio do Zap faz naquele grupo reaça com os amigos do bingo.
Outras bancas do centro, ou aquela enorme, no Terminal Tiet~e, traziam jornais do país todo - dava pra comprar O Globo ou o Zero Hora.
Lembrei desse texto delicioso do Tiago Dias, publicado "na UOL", em 2021, em plena pandemia. Ali, as bancas de revistas já estavam em decadência.
> "Era uma época em que o povo chegava antes aqui para saber o resultado do jogo do bicho, do jogo do campeonato de ontem. Que o pai vinha na sexta comprar gibi para o filho e revista para a mulher. Não tinha internet. Agora ela acabou com tudo."
Joana vai visitar uma banca de jornal e, provavelmente, vai se ligar em algum objeto interessante e, provavelmente, não-impresso.
Mais uma da série "Mah váh!?".
Essa é só mais uma, entre muitas áreas, em que a invasão automatizada do imitador algoritmo vai afetar.
Palavras de Salvio Kotter à reporter Mariah Colombo, do G1:
"São muitos os indícios, que, quando se somam, aumentam a certeza. O mais óbvio é o texto impecável do ponto de vista formal, ortografia, gramática e sintaxe em texto de baixo valor literário. Se bem que o autor pode ter revisado à exaustão. Mas aí entram outras questões, cada vez mais abstratas, como o uso de palavras incomuns no português, mas bastante comuns no inglês – a IA escreve em português, mas 'pensa' em inglês".
"Outro ponto é a regularidade das passagens, o texto não cresce nem cai, se mantém em um brilho plástico... E assim seguem-se outros indícios, cada vez mais abstratos. Quando um texto apresenta vários deles, fica muito difícil acreditar que tenha sido produto humano".
"Com o tempo a fotografia foi reconhecida como arte e ambas são hoje importantes. É provável que algo semelhante ocorra com os textos gerados por IAs. Ou não".
Ou não, né?
Não quero passar raiva sozinho. Por isso dividi esse link no Órbita, ótimo lugar para debates promovido pelo Manual do Usuário. É um texto de opinião, assinado por uma empreendedora (nunca tinha ouvido falar dela) e publicado num periódico de grande circulação (não entendi a razão).
> Essa rotina maluca não é sacrifício. É entrega, paixão. É gostar tanto do que faz que… A EXAUSTÃO vira PARTE DA DANÇA e não um motivo para desistir
Tem outro nome pra isso na língua portuguesa: masoquismo.
> Porque quem ama o que faz não vive esperando o final de semana, não deseja fugir da segunda-feira e não conta os minutos para desligar o computador
Vive, sim.
> Quando o equilíbrio se torna a única meta, a gente corre o risco de trocar a exaustão pela estagnação
E quem fixa sua meta em qualquer missão que não seja, digamos, humana, fincada na realidade, preocupada consigo mesmo ou com o outro, corre o risco de priorizar o que não importa.
> Isso não é uma apologia ao burnout
É, sim.
Da série: MAH VAH!
Trechos da reportagem de Bruno Lupion, da DW, republicada pelo G1, sobre estudo do pesquisador Thorsten Otto, do Instituto de Psicologia da Educação da Universidade Técnica de Braunschweig:
> Ao consumirem esses vídeos, os usuários satisfazem necessidades por informação, entretenimento, conexão social ou regulação emocional sem a necessidade de muito esforço cognitivo. Em troca, o cérebro premia o comportamento com a liberação de dopamina. No entanto, esse jeito de se informar – ou de aprender – vai na contramão de como nosso cérebro funciona para desenvolver os raciocínios complexos que caracterizam uma aprendizagem profunda.
> Alguns estudos indicam que o uso excessivo de mídias sociais e o consumo compulsivo de conteúdo de baixa qualidade – como notícias sensacionalistas, teorias da conspiração e entretenimento vazio – podem literalmente encolher a massa cinzenta, diminuir a capacidade de atenção e enfraquecer a memória.
Nem todo mundo gosta desse livro do Jonathan Haidt. Mas ele pontua algo importante: estamos deixando de ler, trocando um tempo de concentração por dancinhas.
> Segundo Haidt, os universitários usam inclusive plataformas que transformam textos PDF em vídeos curtos para que consigam acompanhar o conteúdo com palavras e frases que piscam na tela.
"Suas ideias viram posts". Caixa alta e baixa nos botões. Nem rolei a tela e já odiei.
"Você recebe sugestões de posts a partir de conteúdos curados conforme suas preferências e objetivos" - é o bom e velho "dar aquela cozinhada".
Aí tem o plano CONCIERGE. "Aqui vai ter um CERUMANO editando".
"A katalista poupou um TEMPO CONSIDERAVEL para ampliar o volume e a qualidade das minhas publicações". Isso é um beneficio ou um atestado de incompetência cognitiva?
O que me impressiona é que realmente deve ter gente pagando por esse serviço.
Eu nunca sei o que pensar quando vejo histórias assim. Texto da BBC, de 2019, mas que vai tocar a todos a qualquer tempo.
Minha memória é transportada diretamente para a praia do Chapéu Virado e para o bloco carnavalesco do PIRIQUITÃO sempre que a canção Thanana Nanana surge a partir de uma breve viagem a Mosqueiro, um canto gostosinho do Pará.
Lendas nunca morrem, Mike.
"Homens e mulheres, desistimos da laboriosa construção de afetos nobres e duradouros para satisfazer nossa vergonhosa sede de prazeres imediatos"...
De acordo: se desejar manter seus clientes ao redor, não faça como os desenvolvedores do Twibble.
Puxa, como é que só agora eu parei pra ler isso?
"Ainda temos que concorrer com um pensamento maquiavélico da educação de mercado. O interessante nesse raciocício é que todos os resultados estão na mão do contratado, o professor. Você é visto como um reles prestador de serviço, isso quer dizer que se o cliente não ficar satisfeito a culpa é sua.". Via Sergio F. Lima
"O curioso é que aqueles brasileiros que queixam-se amargamente de limpar o próprio banheiro, elogiam incansavelmente a possibilidade de andar à noite sem medo pelas ruas, sem enxergar a relação entre as duas coisas. Violência social não é fruto de pobreza. Violência social é fruto de desigualdade social. A sociedade holandesa é relativamente pacífica não porque é rica, não porque é “primeiro mundo”, não porque os holandeses tenham alguma superioridade moral, cultural ou genética sobre os brasileiros, mas porque a sociedade deles tem pouca desigualdade". Agora leia todo o resto.
Não sei o que dizer a respeito do teor desta apresentação, reproduzida pelo Michel Lent. "Fórmula de viral"? Ah não, né?
Dica do Rafael Sbarai neste sábado, durante o Seminário Tendências Conectadas, na Cásper (onde o fim de muita coisa foi ridicularizado).