Ultimamente, me sinto medíocre.
Gosto de escrever e articular pensamentos de forma encadeada e organizada. Talvez por hábito, não costumo fazer isso na mesma velocidade na qual costumava ter quando vivia em uma redação. Escolho uma palavra, depois outra. Releio. Apago. Começo de novo.
Chamam isso de "intenção". É o que a IA, por mais que tente emular, não consegue entregar.
Essas linhas funcionam como justificativa. Já cometi, por pura pressão, a atrocidade de terceirizar redação para um modelo de linguagem.
Fiz algum esforço para guiar o modelo estruturando a ideia de cada parágrafo.
Atendi ao prazo enquanto girava outros pratinhos da vida. Mas recebi, como feedback, um chute forte nos princípios.
Doeu muito. A pancada que vem da sensação de ter sido suficientemente criterioso. Mas, na prática, estar bem longe disso. É a intencionalidade da ação como peso gravitacional ao invés de força motriz.
A dor aumenta quando leio o Marcelo Soares. Ele se posiciona como todo profissional deveria: manter o "controle alto".
> O que descrevi como "controle alto" é o padrão profissional básico para quem trabalha com dados públicos, jornalismo e pesquisa. Verificar fontes, recusar termos imprecisos, parar processos que não convergem, não delegar definição de problema.
Em síntese, o texto compara um chat baseado em LLM como uma BET qualquer. O "uso responsável" sugere um "deslocamento de responsabilidade": se existe um problema, ele se apoia exclusivamente "no usuário que não sabe usar". Ao mesmo tempo, segue a lógica de mercado dos produtos digitais: ele "é desenhado para funcionar bem", sem atrito, e "é com esse perfil que ele cresce".
Na BET qualquer, perde-se dinheiro. Aqui, perdemos capacidade cognitiva.
Recentemente, ao falar de IA, lancei mão de uma metáfora gastronômica. Fricção cognitiva é como preparar a própria comida; IA é delivery.
Carlos Scolari dando chutes nos ovos nesse texto aqui.
Começa com a inovação no discurso. : "mientras más se habla de cambiar un ámbito de la vida humana, menos se transforma" e "cada vez que la palabra innovación aparece junto a universidad muere un gorrión en Cambridge".
Termina com o impacto da IA na coisa toda:"Los trabajadores con menos experiencia son los más afectados por la difusión de las IA".
Pra ler com muita, mas muita calma.
Paulo Nassar está falando com a imprescindível Petria Chaves, na CBN, a respeito do volume de informação, do cansaço que isso produz e da relação com Beethoven.
> Quando os dias se abrem sob o som imaginário das trombetas da guerra, quando o noticiário e as conversas cotidianas parecem disputar quem produz mais ruído e menos sentido, o desânimo não é fraqueza: é sinal de lucidez. Há épocas em que estar cansado é apenas reconhecer que algo essencial está sendo ameaçado.
No bate-papo, Nassar traz de volta McLuhan ("como é possível ficar melancólico e catatônico ao mesmo tempo") e traz o presentismo ("como posso sair do ruído").
> Para quem hoje se sente desanimado, talvez reste esse consolo firme e exigente: a história já foi mais escura do que o presente, e ainda assim produziu obras capazes de convocar a humanidade ao que ela tem de melhor. Se, no silêncio forçado da surdez, um homem do século 19 pode proclamar a alegria comum, então o ruído do nosso tempo não é absoluto.
Carlos Scolari sugere três livros para explorar como as IAs podem auxiliar no pensamento histórico, teórico e metafórico sobre comunicação e tecnologia.
Em busca por comentários relacionados ao princípio "Felca, Jornalismo e os algoritmos", cheguei no conceito de "neurônio-espelho".
Uma boa hipótese em relação ao fato do vídeo ter sido mais impactante em relação a qualquer reportagem recente sobre o tema: o espectador reage junto. Quem se apresenta não tenta ser isento, imparcial. Não disfarça sua espontaneidade.
Encontrei um podcast do Luli Radfahrer, professor da ECA, explicando esse conceito em 2020.
> É aquele momento que você vê uma pessoa caindo e você meio que se arrepia e se retrai porque você sente na sua pele isso. Ou quando você vê uma cena num filme de terror e se esconde, você se encolhe. O que está acontecendo ali? Você está projetando esse tipo de informação dentro de você, vivendo essa informação.
Segundo Luli, a lógica também é usada no cinema e nos games. Também na educação. "Não adianta pedir para uma criança comer verdura sem que o adulto o faça. Crianças repetem ações e falas de adultos. Imitam para aprender. Ao aprender uma língua, repetimos frases para assimilá-las".
Segunda lista compilada pelo Bruno Cardoso - muito útil!