Marcelo Soares tem uma hipótese muito interessante: a de que não há mais constrangimento público em bancar a mentira nas redes sociais. Isso representa um desafio para jornalistas e sociedade interessada em reconstruir sua credibilidade
Estou seguindo as pessoas erradas? Por que será que, durante a semana, vejo essa discussão rolando:
> É muito comum, quando um influenciador faz um vídeo muito popular que toca em assuntos cobertos pela imprensa, que jornalistas se questionem: onde é que estamos errando? Por que nosso conteúdo, que passamos meses e gastamos milhares de reais apurando, possui tão menos visibilidade do que o vídeo de um influencer de 27 anos que nunca dedicou um minuto de sua vida ao jornalismo?
Não foi apenas o Sergio Spagnuolo que levantou essa bola.
Talvez um dos pontos mais calorosos da conversa tenha a ver com isso aqui:
> O Felca faz o rolê dele, do jeito que ele quer, com a linguagem que ele quer. Ele não tem padrões jornalísticos pra seguir, ele não tem que ouvir o contraditório, checar fatos nem discutir pautas à exaustão. Ele não tem editores que vão ler e reler o roteiro dele nem checar suas afirmações. O processo dele não é jornalístico.
Mas o processo relacionado ao vídeo sobre adultização, capaz de furar a bolha, pautar a grande imprensa e virar debate no Congresso, teve em seu processo algo bem mais próximo do Jornalismo em comparação com os perfis de celebridade, os caçadores de clique e outras pragas programáticas.
> O jornalismo precisa se preocupar em chegar ao máximo de pessoas, claro, mas a partir do momento em que começar a se preocupar mais com pageviews do que em "intencionalidade" e "processo", tudo o que vão sobrar são influenciadores.
Concordo. E aqui reside a pergunta-Tostines dessa questão: quem alimenta as plataformas digitais, que sustentam influenciadores e promovem conteúdos que, não necessariamente, geram debate - mas fazem muita espuma?
Rodrigo Ghedin descobriu esse longo ensaio de Dan Williams e explica, no indispensável Órbita:
> O autor defende que a crise de populismo/demagogia é fruto do que chama de “caridade epistêmica”, um tipo de humilhação sentida por aqueles fora do circuito de produção do conhecimento.
Para ele,
> Muitos dos nossos problemas políticos mais profundos parecem estar entrelaçados com questões epistêmicas . Pense em nossas supostas crises de "desinformação", "informação enganosa", "pós-verdade" e teorias da conspiração.
Vou ler e reler com calma. Mas o ponto que ele oferece é sensacional.
Lembrei de um livro muito interessante, “O Mundo do Avesso”, onde a antopóloga Leticia Cesarino observa de que forma a estrutura digital “esfarela” a confiança em algumas instituições e desestabiliza o diálogo. É como se houvesse, ainda, uma camada “cibernética” nesse debate – além da questão dialógica, trazida pelo texto.
Comentário do Sergio Ludke, um dos profissionais que mais se debruça sobre a questão da desinformação, no linquedisney.
> Há tempos eu guardo uma recomendação do Peter Cunliffe-Jones, fundador do Africa Check, para ser mais empático no trato com os leitores. Ele dizia, no antigo Twitter que deveríamos reconhecer o núcleo de verdade que havia numa peça de desinformação e mostrar aos leitores por que eles podem ter acreditado em algo que se provou falso ou enganoso.
Faz todo sentido, ainda que nosso estado mental tenha esfarelado qualquer esforço cognitivo do usuário mergulhado no viés comportamental.
> Desde março, estamos debatendo novas abordagens no Comprova para buscar conexão com um público mais amplo ... Entre as mudanças estão a adoção de outros dois fatores além da verificação do conteúdo (agora estamos analisando com mais profundidade as táticas utilizadas e o contexto dos criadores da desinformação), a abolição das etiquetas (falso, enganoso) e a redação de títulos que enfatizem primeiro a verdade e evitem sempre que possível a reprodução de uma mentira, mesmo como negação ... Precisamos do atrito, de uma fricção de ideias que permita confrontar as evidências da verificação com as alegações falsas ou enganosas. E tudo isso se torna letramento.
A iniciativa é sensacional.
Esse breve texto da Cristina Tardáguila deveria servir de forma geral. Não apenas para esse evento específico.
> Verifique a fonte da informação: ao receber um conteúdo sobre o atentado — ou se deparar com ele na sua timeline — busque a origem dessa informação, verificando se há identificação da pessoa, organização ou do veículo jornalístico responsável por ela.
Mesmo assim, alguém vai dizer que o site "Brasil Obtuso" é uma fonte confiável. Mas enfim.
> Não incentive a polarização: evite compartilhar informações que incentivam o discurso do “nós contra eles”. Esse discurso inviabiliza o debate saudável e o estabelecimento de pontos em comum em uma discussão.
Estamos perdendo a capacidade de dialogar. E as plataformas se beneficiam demais com esse discurso.
> Pratique o ceticismo saudável: ao se deparar com uma informação sobre o caso, não a tome como verdadeira por princípio. Desconfie e faça o processo de verificação de fontes antes de compartilhar.
Ceticismo saudável vai ser o nome da minha banda.
> Não compartilhe imagens explícitas: em situações como essa, é comum que imagens explícitas, como aquelas que contém sangue, corpos ou outras marcas gráficas de violência, tomem conta das redes sociais.
Precisa combinar com quem usa cliques como métrica.
Mais tarde incluo comentários sobre esse artigo do Robert Rose.