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Stop Reading News
Shane Parrish, autor de "Pensamento Eficaz", sem querer faz um convite para celebrarmos trinta anos de Jornalismo na Internet:
Livre-se dele. É manchete demais.
> É como tentar beber água de uma mangueira de incêndio – estamos afogados em fatos, mas famintos por conhecimento verdadeiro.
Por que? Em essência: a velocidade prejudica a qualidade e o contexto. Conteúdo superficial produzido por custos de produção nulos. Máquinas de caça-níqueis querem sua atenção. A narrativa derrota a realidade ou desviam a atenção para a história que deveria ser contada.
> Num mundo onde as notícias são gratuitas e abundantes, estar errado não custa nada, mas ser enfadonho custa tudo.
O problema, diz ele, está na economia da atenção. Por conta dela, notícias funcionam ainda como câmara de eco: atenção fragmentada, compreensão superficial e da erosão gradual da nossa capacidade de enxergar o que realmente importa. "Quando foi a última vez que você leu algo e pensou: opa, eu estava errado?".
Isso tem a ver com que o Ces Michelin postou esses dias no LINQUEDISNEY:
> O mundo está cheio de gente "bem-informada". Eles sabem recitar as buzzwords da semana. São enciclopédias ambulantes de trivialidades. Mas estamos famintos por algo mais raro: criadores de sentido. Não precisamos de mais um repassador de links. O mundo precisa da sua visão sobre eles.
Evidentemente, nem Shane nem Ces estão falando do modelo opinativo dos canais de notícia. É outra coisa. -
Viva Roberto Silva: os 100 anos do 'Príncipe do Samba' | Discografia Brasileira
Fui IMPAQUITADO com essa música: Jornal da Morte.
Vejam só este jornal / É o maior hospital / Porta-voz do bangue-bangue / E da polícia central
A gravação, de 1961, é de Roberto Silva, que mereceu texto impecável de Pedro Paulo Malta, em celebração ao seu centenário.
O Jornal da Morte, por sua vez, poderia ser regravado agora mesmo, de tão atual.
Curiosidades que o Perplexity me trouxe:
"Jornal da Morte" foi censurada na época por seu tom provocativo, incluindo referências a escândalos como suicídios e maconha.
Roberto Silva, falecido em 2023 aos 92 anos após luta contra o câncer, reviveu a faixa em colaborações como com o grupo Casuarina. -
30 anos de Jornalismo Digital: onde estamos e para onde vamos? - Portal Nosso Meio
Trinta anos?! O tempo passa, né? -
30 anos não são 30 dias - Revista Casper
Sem querer, achei o site da Revista Casper. E esse texto de Enzo Cipriano e Luca Uras.
Eu nunca escrevi nada pro Esquinas. Não sei se era por conta do perfil de Marcos Faerman, citado e venerado (com razão) no texto.
> “Jornais e navios são belos porque podem mudar o curso de suas rotas.” Essa frase foi dita por Marcos Faerman, em 1996, à época editor da Esquinas de S.P. A publicação nasceu, um ano antes, como um jornal que tratava dos temas cotidianos.
Era bem mais do que isso. Nos tempos de Marcos Faerman, havia um estímulo profundo em imersões antropológicas. Ouvir histórias. Sentir a realidade. Traduzi-la em palavras. Editá-la até chegar ao melhor resultado possível.
Lembro dele perto do escadão, aproximando-se dos alunos, interessado em saber quais eram suas próximas histórias.
Falei alguma coisa sobre "o impacto da Internet".
Pois é, em 1996.
Faerman odiava qualquer coisa envolvendo computador. Não deixou eu terminar de falar. Não era pessoal (ou, se era, jamais vou saber). Reagiu seguindo seus princípios.
Provavelmente não ligou o nome ao aluno. Dias se passaram e, durante a aula de Jornalismo Interpretativo (era esse o nome da disciplina), desceu o sarrafo naquilo que chamava de "vida estéril, artificial, pasteurizada, xoxa, capenga, anêmica, frágil, inconsistente", enfim.
O aluno de jornalismo de 30 anos atrás pensava que o real e aquilo que aparecia como "virtual" poderiam coexistir. Não consigo imaginar como Marcos Faerman sobreviveria ao que virou o Jornalismo, a Internet, a realidade.
> Para o futuro, Esquinas planeja avançar na produção audiovisual. A ideia é multiplicar cada vez mais as produções contando com mais edições do Papo de Esquina, videocast produzido pelos editores, e produções vindas dos próprios alunos, como documentários. Além disso, uma presença significativa nas redes socais também é desejada.
Pensando aqui. Provavelmente ele diria que tudo isso só funciona se mostrar uma história arrancada da terra com suas próprias mãos, sentindo a aspereza do solo e traduzindo em palavras embedadas com sangue e suor. -
A internet perdeu o atrito (e nós perdemos com isso) | Nucleo Jornalismo
Esse texto do Sergio Spagnuolo me fez voltar a pensar sobre a Teoria da Carga Cognitiva, de John Sweller, relativamente conhecido por quem milita no design instrucional.
Quando você quer aprender alguma coisa, seu cérebro aciona a memória de trabalho. Não se sinta ofendido, mas a verdade é que essa ferramenta é naturalmente limitada. Não tem como manusear, conscientemente, mais do que sete unidades de informação.
Já a memória de longo prazo tem capacidade ampla. Aqui mora o nosso problema: como estimular um aluno, seu tio militante, sua esposa cansada ou o filho disperso a pegar uma informação relevante, refletir e transformá-la de acordo com a sua realidade para, finalmente, transferi-la para estruturas duradouras de conhecimento - aquilo que Paulo Freire, entre outros, define como "aprendizagem"?
John Sweller sugere que você precisa lidar com três cargas cognitivas.
Uma é a carga intrínseca. Essa é inerente ao tema que você quer entender. Claramente, alguns assuntos são mais difíceis que outros. Professores, profissionais de comunicação e divulgadores costumam dividi-la e organiza-la em umka sequência sugerida.
Algumas sequências são menos complexas do que outras. O dilema comum, aqui, é: seja qual for o assunto, não tem atalho. O conteúdo fundamental precisa existir.
Onde dá para mexer? Na carga "estranha", por exemplo. Troque a expressão por "apresentação". É tudo aquilo que não precisa existir. Ruído. Fricção. Tudo que os colegas de UX adoram estudar para compreender onde eliminar atrito, informação confusa. Na visão de Sweller, "carga estranha é eliminável sem perda".
Chegamos à carga relevante. É o "como lidar com essa informação". Como funciona o modelo mental para abstrair, fazer associações, interpretar, digerir. É o quanto você investe de tempo e recursos para construir a síntese. Esse processo fica por sua conta e não há regra única. Alguns gostam de fazer como Feynman: tente explicar o que você entendeu para outra pessoa, como se fosse uma criança.
As três cargas competem pelo seu cérebro. Isso nos leva ao que Sweller sugere: minimize carga estranha, gerencie carga intrínseca, maximize carga relevante. Faz sentido?
Vamos voltar ao texto do Sérgio? O que acontece quando o sistema não é pensando para aprendizagem, mas sim para tomar seu tempo de assalto? E se o designer não quer que você construa nenhum esquema relevante (vou marcar estes posts e perfis como lidos para vê-los mais tarde) -- pelo contrário, te deixe cada vez mais perdido, rolando, clicando e passando adiante uma sequência efêmera de reações?
"A internet hoje em dia é desenhada para tirar esse tipo de agência de nós, removendo fricção onde for possível a fim de facilitar comunicação, gratificação e, claro, venda de produtos e serviços de anunciantes. Algumas das mentes mais brilhantes da engenharia moderna estão, neste exato momento, trabalhando para você passar 10 minutos a mais no Instagram."
John Sweller diria: esses sistemas maximizam carga estranha (disfarçada de engajamento emocional) e reduzem carga relevante (que permitiria a você construir esquemas). E a carga intrínseca? Tanto faz ela existir ou não. Não faz diferença, o movimento não acontece por conta dela.
"Alguma fricção ajuda a tornar nossas vidas mais dignas, a fazer valer a pena conquistar e pensar certas coisas".
Opa. -
Open Source Mapping for News: Reuters
Projeto de mapeamento open-source desenvolvido por Scott Reinhard para a Reuters. Sensacional! Inclui camadas vetoriais personalizáveis para dados automatizados. -
A era da pós-vergonha | objETHOS
Marcelo Soares tem uma hipótese muito interessante: a de que não há mais constrangimento público em bancar a mentira nas redes sociais. Isso representa um desafio para jornalistas e sociedade interessada em reconstruir sua credibilidade -
Pensar ou acreditar? A fragilidade crítica e a desordem informacional
Artigo interessante de Ramsés Albertoni sobre os limites da informação.
> No Brasil, apesar dos avanços na alfabetização básica, uma parcela significativa da população possui dificuldade em interpretar textos longos, inferir significados, relacionar informações de diferentes fontes ou identificar a necessidade de pesquisar a fundo. Para o indivíduo com baixo letramento crítico a informação que chega com apelo emocional, urgência e em linguagem simplificada (características das fake news) é aceita sem a devida checagem. Assim, onde a educação formal falha em munir o cidadão com ferramentas para ler o mundo criticamente, ele se torna refém da desinformação. Não é apenas a falta de acesso à informação correta, mas a incapacidade de processá-la e de distinguir a fonte confiável da fonte falaciosa. -
Para que serve o jornalismo? :: Observatório da Imprensa
> O papel do jornalista é fornecer às pessoas informações básicas e práticas que lhes permitam conduzir suas vidas cotidianas. O jornalismo é uma espécie de biblioteca, um “banco compartilhado de conhecimento e pensamento” a que qualquer pessoa deveria ter acesso.
Definição impecável de Gustavo Sobral nesta resenha de "What Is Journalism For?", de Jon Allsop. -
Google e o jornal invisível
Filipe Speck no Jornal Matinal. Link pinçado no Órbita.
> A pergunta que fica é se o jornalismo vai conseguir dar forma visível a esse novo espaço comum. Esse debate precisa acontecer. Do contrário, a febre por inovação pode tirar do jornalismo profissional a função – que parecia intocável nos últimos séculos – de mediar o debate público e de denunciar as sombras daquilo que orgulhosamente chamamos de civilização. -
Vídeo do Felca e o jornalismo | Nucleo
Estou seguindo as pessoas erradas? Por que será que, durante a semana, vejo essa discussão rolando:
> É muito comum, quando um influenciador faz um vídeo muito popular que toca em assuntos cobertos pela imprensa, que jornalistas se questionem: onde é que estamos errando? Por que nosso conteúdo, que passamos meses e gastamos milhares de reais apurando, possui tão menos visibilidade do que o vídeo de um influencer de 27 anos que nunca dedicou um minuto de sua vida ao jornalismo?
Não foi apenas o Sergio Spagnuolo que levantou essa bola.
Talvez um dos pontos mais calorosos da conversa tenha a ver com isso aqui:
> O Felca faz o rolê dele, do jeito que ele quer, com a linguagem que ele quer. Ele não tem padrões jornalísticos pra seguir, ele não tem que ouvir o contraditório, checar fatos nem discutir pautas à exaustão. Ele não tem editores que vão ler e reler o roteiro dele nem checar suas afirmações. O processo dele não é jornalístico.
Mas o processo relacionado ao vídeo sobre adultização, capaz de furar a bolha, pautar a grande imprensa e virar debate no Congresso, teve em seu processo algo bem mais próximo do Jornalismo em comparação com os perfis de celebridade, os caçadores de clique e outras pragas programáticas.
> O jornalismo precisa se preocupar em chegar ao máximo de pessoas, claro, mas a partir do momento em que começar a se preocupar mais com pageviews do que em "intencionalidade" e "processo", tudo o que vão sobrar são influenciadores.
Concordo. E aqui reside a pergunta-Tostines dessa questão: quem alimenta as plataformas digitais, que sustentam influenciadores e promovem conteúdos que, não necessariamente, geram debate - mas fazem muita espuma? -
'Sem futuro', jornaleiro mais antigo de SP se despede da profissão - 17/06/2021 - UOL TAB
Joana, nove anos, vai ter que levar um jornal impresso para a escola nesta semana.
Jornal. Impresso. Talvez você não conheça.
Até recentemente, pessoas circulavam pelas calçadas e encontravam bancas, estruturas que remetem a quiosques, e edições de jornais do dia, penduradas na lateral. Gente parava pra olhar as manchetes e se informar - basicamente, é o que aquele tio do Zap faz naquele grupo reaça com os amigos do bingo.
Outras bancas do centro, ou aquela enorme, no Terminal Tiet~e, traziam jornais do país todo - dava pra comprar O Globo ou o Zero Hora.
Lembrei desse texto delicioso do Tiago Dias, publicado "na UOL", em 2021, em plena pandemia. Ali, as bancas de revistas já estavam em decadência.
> "Era uma época em que o povo chegava antes aqui para saber o resultado do jogo do bicho, do jogo do campeonato de ontem. Que o pai vinha na sexta comprar gibi para o filho e revista para a mulher. Não tinha internet. Agora ela acabou com tudo."
Joana vai visitar uma banca de jornal e, provavelmente, vai se ligar em algum objeto interessante e, provavelmente, não-impresso. -
Projeto Comprova - Por que o Comprova aboliu as etiquetas de falso e enganoso
Comentário do Sergio Ludke, um dos profissionais que mais se debruça sobre a questão da desinformação, no linquedisney.
> Há tempos eu guardo uma recomendação do Peter Cunliffe-Jones, fundador do Africa Check, para ser mais empático no trato com os leitores. Ele dizia, no antigo Twitter que deveríamos reconhecer o núcleo de verdade que havia numa peça de desinformação e mostrar aos leitores por que eles podem ter acreditado em algo que se provou falso ou enganoso.
Faz todo sentido, ainda que nosso estado mental tenha esfarelado qualquer esforço cognitivo do usuário mergulhado no viés comportamental.
> Desde março, estamos debatendo novas abordagens no Comprova para buscar conexão com um público mais amplo ... Entre as mudanças estão a adoção de outros dois fatores além da verificação do conteúdo (agora estamos analisando com mais profundidade as táticas utilizadas e o contexto dos criadores da desinformação), a abolição das etiquetas (falso, enganoso) e a redação de títulos que enfatizem primeiro a verdade e evitem sempre que possível a reprodução de uma mentira, mesmo como negação ... Precisamos do atrito, de uma fricção de ideias que permita confrontar as evidências da verificação com as alegações falsas ou enganosas. E tudo isso se torna letramento.
A iniciativa é sensacional. -
not journal ai
Pague 20 Janjas por mês para receber notificações de notícias no WhatsApp elaboradas por uma curadoria feita por IA. Tem tudo pra dar certo - só que ao contrário. -
Semantic Search in a Box: Microsoft’s NLWeb for News Publishers
Ainda não entendi exatamente como funciona. Mas esse artigo do Nick Hagar é mais um lembrete: vá entender o que é NLWeb e como funciona "Semantic Search".
> A Three-Step Pipeline. Behind the scenes, NLWeb operates on a straightforward three-stage pipeline designed for simplicity, cost-efficiency, and publisher control.
> Ingest: Standardized Item Collections. To cut down on complexity, it standardizes this process using schema.org conventions.
> Process: Efficient, Low-Cost LLM Logic. Next, when a user sends a query, NLWeb assesses relevance, scores results, and generates explanations.
> Serve: A Flexible, Headless API. Finally, NLWeb delivers its results via a flexible API. It is a “headless” system, meaning it has no built-in, mandatory UI. -
Betting ads swamp Brazilian football as addiction spikes
Exemplo de reportagem (incluindo personagem ENDIVIDADO) que utiliza uma IA para apoiar a construção de uma base de dados - etapa elaborada pelo brilhante Rodrigo Menegat. -
Coletivos de comunicação estão mudando a forma de produzir conteúdo
"As ferramentas tecnológicas e a web propiciaram ao cidadão um contato mais próximo com a universalização do conhecimento, transformando-os em influentes atores sociais mais ativos e influentes. Isso permitiu ao leitor e telespectador entrarem em contato com vozes dissonantes, complicando o trabalho dos veículos de comunicação. " -
Tomorrow's media needs to be wired, inspired and for women | Media | The Observer
"Many national newspapers have more male readers than female. But that gap is closing fast, and the success of female-friendly websites like Mail Online are beginning to suggest a clear direction for the future". Via @rafaelsbarai. -
A Practical Guide to Designing with data. A book by Brian Suda, published by Five Simple Steps.
Mais uma do Tiago Doria: livro a ser lançado sobre visualização de dados. -
Tiago Dória Weblog » Blog Archive » Jornalismo deve se tornar sexy
"Hoje o jornalismo deve ser mais atraente, não somente no uso de novas interfaces, mas também na busca de histórias que sejam relevantes", diz Tiago Doria.