Fragmentos de uma infância interiorana

São José do Rio Preto (SP) – Tive a oportunidade de visitar o interior paulista por algumas vezes recentemente. No final de agosto, Narazaki e eu curtimos o casamento do nosso amigo Fini em Igaraçu do Tietê, perto de Jaú e a poucos passos de Barra Bonita. Nos últimos dias, foram outras duas viagens. Em Presidente Prudente, encontrei um professor na área de publicidade e propaganda que trabalhou doze anos na capital. Cansado da rotina estressante de São Paulo, mudou-se para o Pontal do Paranapanema e ganhou em qualidade de vida. Em Rio Preto, uma turma que estuda jornalismo não vê a hora de ir trabalhar na fascinante metrópole. Mas só por algum tempo. Bem diferente dos mais velhos, que fizeram carreira em suas pacatas cidades e estão felizes da vida.

Essas declarações todas só amplificam a vontade que o trânsito e o estresse de todo dia provocam em mim: fugir dos 15 milhões de habitantes amontoados na região metropolitana e seguir uma vidinha tranquila em algum cantinho sossegado, como algum dos seiscentos e poucos municípios do estado de São Paulo. Uma possível freada chocante de ritmo em relação a uma vida toda construída nessa loucura não seria inédita, já que passei os meus primeiros três anos acompanhando a vida nômade dos meus pais pelo interior.

Pouco tempo após o casamento deles na zona rural de Pelotas, em 1975, o jovem casal acompanhou a expansão do sistema Telebrás e a instalação das centrais telefônicas AXE da Ericsson – árdua tarefa que ocupou alguns anos de trabalho do meu pai. Quando minha mãe engravidou, os dois moravam em Santa Cruz do Rio Pardo, na casa do João Gois e da Dona Dita. Aquela família era alvo de um preconceito bobo, graças ao menino que sofria de paralisia. Foi lá, em 12 de dezembro de 1976, que meu pai b carregando uma bandeira enquanto guiava a Brasília com minha mãe no banco do passageiro. Levou pedradas, cadeiradas e alguns pontos da corintianada.

A moradia seguinte foi minha cidade natal, que não conheço exatamente por ter feito parte desse “tour paterno”. O maior personagem da minha história em Bauru foi o obstetra. Minha mãe lembra com muito carinho do Doutor Tadashi, médico que tratou de apresentá-la ao seu primeiro (e gordo) filho. Ela conta que, naquele maio de 1977, já moravam longe dali: em Jaú, numa casinha amarela com quintal de barro e uma floreira pincelada por pétalas amarelas. Lógico que ela fez questão de viajar só para permanecer aos cuidados do inesquecível Doutor Tadashi.

Nos anos seguintes, passei por São José do Rio Preto (infelizmente não faço idéia de onde morava para dar uma voltinha), em Barretos (numa época em que não existia o Parque do Peão para o tradicional rodeio) e, finalmente a movimentada casa da vovó Floriza, na distante Vila Costa e Silva, bairro à beira da Estrada Velha de Campinas. Aliás, diga-se: enquanto rodamos o estado de São Paulo, nossas moradias eram bem humildes: normalmente eram pequenos imóveis ou cômodos aos fundos de outra casa maior. Mais: sempre alternando idas e vindas ao Rio Grande do Sul, todas elas de carro…

Meu aniversário de três anos foi comemorado na praia. Nossa última escala antes de encararmos a capital foi em Caraguatatuba, a poucas quadras do mar, numa casinha da Avenida Minas Gerais (hoje tem um prédio no lugar dela). Isso foi até 1979, quando trocamos a areia do mar pela aprazível Rua Aurora… Um baita presságio: se era para escolhermos um lugar para demarcar território e seguir em frente, por que São Paulo?

Ainda respirando os ares do interior, em cidades com poucos prédios, coreto e sorveteiro na praça, esboço um sorriso ao procurar por lembranças fragmentadas que praticamente nunca tive, já que a maioria ouvi dos meus pais. Quem sabe elas não sejam recuperadas com possíveis recordações futuras, num lugarzinho bacana… Até Mogi das Cruzes serviria.

Comentários em blogs: ainda existem? (4)

  1. “Seu primeiro (e gordo) filho” foi impagável! hahahahahahahaha!

    Vem cá, será que é só impressão, ou existem muitos obstetras descendentes de japoneses? Porque o da minha mãe, quando eu nasci, também era…

    Nunca morei no interior, só na selva mesmo… Manaus, depois Belém… Passei uns tempos em Ilhéus (vou de vez em quando nas férias até lá), e sempre penso em como seria minha vida em uma cidade pequena como aquela. Conta pontos também o fato de ser praiana… :)

    Um bom e velho MMM esse texto. Eu estava com saudade.

  2. Tipo, como assim “o casamento do nosso amigo Fini”?????????????? O Fini casou???????????????????????????

    SENSACIONAL!!! Pô, isso que dá ficar tanto tempo sem ver os amigos. Mande meus cumprimentos para ele, pô! Que legal, hehehe!

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