Todos os meus 27 30 finais de ano

Fazia tempo que eu não andava tão “mala” quanto agora, nesse mês de dezembro. Pessoalmente, acredito que esse estado de ansiedade seja comum todo ano. Desta vez, a coisa tomou proporções maiores, já que normalmente, absorvo a ranzinzice na minha tradicional viagem ao sul do Brasil. Uma espécie de “conto de fadas” particular: quando estou em Porto Alegre ou Pelotas, simplesmente esqueço da vida. E pela primeira vez em muito tempo, não estarei lá na virada do ano.

De repente, surgiu a questão: muito tempo quanto? Mais: quais foram os outros reveillons da minha vida em que não estive no Rio Grande do Sul? Decidi eliminar essa dúvida, elaborando um histórico completo: seguem, resumidamente, as minhas 27 temporadas de verão. Descobri que, com este, serão quatro os finais de ano longe dos parentes. O último foi há 16 anos.

Talvez inútil para você, mas de valor inestimável para um sujeito que adora contemplar memórias.

77/78 – Podíamos começar a saga um ano antes, com o pequeno Marmota ainda em fase de gestação. Mas fica valendo este como o primeiro, aos sete meses de idade. Nasci em Bauru, interior paulista, num “acidente de percurso”: era onde meu pai trabalhava na época. Estive ainda em São José do Rio Preto e Jaú, antes de ser batizado, em dezembro, em uma igrejinha evangélica luterana, na zona rural de Pelotas. Casados desde 1975, meus pais se habituaram a passar o Natal com meus avós maternos, no Canto Grande (zona rural, atual sub-distrito de Capão do leão), e o ano novo com os avós paternos – que deixaram o sítio há tempos e, naquela altura, moravam na Vila Brod, perto da avenida Fernando Osório.

78/79 – Permanecia nômade: em março, deixamos Pelotas e voltamos para Jaú. Em seguida, Barretos. Meus pais, ao contrário dos meus outros tios, tinham coragem de se aventurar – isso talvez tenha sensibilizado os meus avós, que frequentemente viajavam para São Paulo. No final do ano, lá estávamos todos no Rio Grande outra vez – a bordo do primeiro carro zero do meu pai, uma impecável Brasília amarela.

79/80 – O ano em que o Inter conquistou o tricampeonato invicto representou uma série de andanças: na mudança de Barretos para Campinas, meus pais decidiram vender boa parte dos móveis e morar num apartamento pouco mobiliado. Minha mãe sofreu um bocado nesse meio tempo: na maioria das vezes, antes dessas mudanças, permanecíamos sozinhos, eu e ela, na cidade anterior. Em agosto, meu pai recebeu uma grande notícia: trabalharia em Porto Alegre. Pôs todas as coisas na Brasília e se mandou para o sul. Em novembro, no entanto, voltaram atrás, mandando meu pai de volta para São Paulo. Fomos morar pela primeira vez na capital paulista, onde passamos o Natal. Era uma kitnet cafona alugada, na Rua Aurora. Panetone e champanhe servidos em uma mesinha de centro na sala de, com paredes amarelas, poltronas verdes e carpete roxo. O reveillon, acho, foi divertido: em Angra dos Reis, onde morava a tia Dair. Minha mãe lembra que Iemanjá (ou alguém da mesma hierarquia) mandou chuva naquela noite: todos saíram da praia antes da virada.

80/81 – Olha os ciganos saindo de São Paulo e indo parar em Caraguatatuba, litoral norte. O clima me deixava mal, e minha mãe, sozinha, tinha muito trabalho com o fedelho. No final daquele ano, meus pais alugam um apartamento no bairro paulistano da Aclimação. Mesma época em que o vô Ibraim (pai do meu pai) passou mal. Fiz minha primeira viagem de avião na vida. Aproveitamos, claro, para ficar o final de ano pelo sul mesmo.

81/82 – Ainda morávamos na Aclimação. Tinha quatro anos quando comecei minha longa carreira letiva, no jardim da infância. Era o fim a fase nômade da minha vida. Mas as viagens em dezembro, ainda a bordo da Brasília, permaneciam as mesmas. Nessa época, a tia Dair se mudou definitivamente para Cachoeirinha, Grande Porto Alegre, local que se tornou até hoje em nossa escala primordial – antes e depois de cada final de ano no sul.

82/83 – Foi o ano da Copa da Espanha, do Paolo Rossi… E do nascimento do Dani, meu irmão, em outubro. Fiz minha segunda viagem de avião, ainda em setembro: passei o aniversário do vô Ibraim, dia 24, ao lado dele, na vila Brod. Ficamos em Pelotas, eu, minha mãe e o Dani, até janeiro – meu pai voltou para São Paulo e viajou sozinho na Brasília para passar o Natal conosco e participar do casamento da tia Cleusa. No retorno, pequenos excessos: paramos em Praia Grande, um pequeno município ao sul de Santa Catarina, para visitar a tia Florência. E o pequeno Dani ficou com insolação. Só descobrimos quilômetros mais tarde, em Joinville…

83/84 – Foi o ano da conquista da casa própria, numa região bastante promissora da cidade de São Paulo: o bairro do Itaim Paulista. Mudamos para o lugar onde vivo até hoje em fevereiro. Quando completei um ano sem estudar, em julho, entrei no pré-primário, que durou apenas seis meses. O início do financiamento da casa fez com que ficássemos por aqui naquele final de ano.

84/85 – Já estabelecidos no novo bairro, e com a minha primeira série concluída, recomeçava uma nova série de viagens ininterruptas ao sul do Brasil. Nessa e em outras viagens de ida, éramos acompanhados por outro carro: o do Pedro, meu padrinho de batismo e amigo do meu pai desde os anos 70. Ele, sua esposa Célia e seus três filhos, Danilo, Fabíola e Fernanda, mantinham um ritual parecido com o nosso: viajar entre São Paulo, onde moravam, e Pelotas, para visitar a trabanda. Foi nessa temporada ainda que conheci a nova casa do Vô Roque e da Vó Margarida (pais da minha mãe), que deixaram o Canto Grande para morar numa casinha tranquila na Cohab Fragata. Tal êxodo reduziu os passeios aos tios que permaneceram na zona rural (ou “lá fora”, como dissemos) em no máximo uma semana. Daí surgiu a expressão “viasaca”, contração de “via sacra”: consistia em um “pinga-pinga” nos sítios, normalmente na semana entre o Natal e o ano novo.

85/86 – A viagem de ida, antes do Natal, foi meio atípica. Normalmente deixamos São Paulo bem cedo, até chegarmos em Cachoeirinha à noite. Dessa vez, saímos de casa à tarde. Deu tempo de chegar em Joinville antes de escurecer. Nessa época, o vô Ibraim e a vó Leonísia (pais do meu pai) moravam em uma casinha simples, no bairro Santos Dumont, zona norte de Pelotas. Eram casas tão parecidas que foi fácil do pequeno Dani, com apenas três anos, escapar e se perder da gente. Deu um susto em todo mundo…

86/87 – Ainda tínhamos o costume de passar o Natal com um par de avós e o ano novo com o outro. Mas naquele final de ano tivemos um desses acontecimentos que reúnem todos os parentes: o casamento de um deles. Era o do Roberto, filho da tia Geni. Tanto a cerimônia quanto a festa foi em Canguçu, cidadezinha localizada a uns 50km ao norte de Pelotas.

87/88 – Esse encerra o ciclo de temporadas cujos detalhes minha mente não é capaz de lembrar com absoluta clareza e precisão sem apoio de fotografias ou coisas do gênero. Com exceção da festa de aniversário do meu pai, em 19 de janeiro. Foi no quintal da vó, na Cohab Fragata. E boa parte da família estava lá – inclusive o vô Ibraim, que infelizmente, viria a nos deixar em agosto do ano seguinte.

88/89 – Este era, até agora, o último fim de ano “paulistano”: um amigo do meu pai, que tinha o sugestivo apelido “Barriga”, se vestiu de Papai Noel e fez a festa da criançada no Natal. E depois de um ano novo comedido, viajamos durante todo o primeiro dia do ano. Destino: Brasília, onde o meu pai trabalhava temporariamente. Começamos com o pé esquerdo: mal encostamos a velha Brasília no hotel (ficava na Asa Norte, setor residencial-comercial, quadra 715, bloco F) e ela foi furtada. Encontramos a carcaça do saudoso carrinho na cidade satélite de Sobradinho. Ficamos três meses na cidade, sempre a bordo do “Grande Circular”, linha de ônibus que nos levava ao Eixo Monumental. Meu pai desistiu de comprar outro carro por lá mesmo: acabamos voltando para São Paulo a bordo do Real Expresso.

89/90 – Começava uma nova era de viagens a Pelotas, a bordo de uma Parati. Na minha cabecinha, aquilo merecia um tratamento especial: comprei um caderninho de capa azul e um gravador, para registrar tudo que pudesse (era praticamente um trabalho jornalístico). No dia 27 de dezembro, fui convidado para o aniversário de uma vizinha nova. Chamava-se Flávia. Paguei um grande mico: amassei um copo descartável, sem saber que era costume da casa reaproveitá-los. Levei uma bronca da dona Celoi – até hoje ela lembra dessa história. O aniversário da Flávia virou programa obrigatório nos anos seguintes.

90/91 – Divertidíssimo, por várias razões. Era a época em que o meu pai estava empolgado com acampamentos: mantinha bem cuidado uma barraca e todos os apetrechos num reboque, que cruzou o sul do Brasil naquela ocasião. Ficamos muitos dias no Canto Grande, na beira do açude, pescando lambaris – teve uma vez que minha mãe confundiu sal com açúcar na hora de fritar, ficou horrível. Teve ainda o casamento do meu primo Gílson, uma bela festaça. Outro momento inesquecível: a festa de aniversário do meu pai. A única vez que conseguimos reunir, num único lugar (o salão do Amaro) parentes tanto do lado materno quanto paterno. Também fiz dois passeios à praia: um no Cassino, quando andei nas vagonetas dos molhes da barra, e outro em São Lourenço do Sul. Pela primeira vez, tive a brilhante idéia de escrever, ainda que de maneira incipiente, um “diário de bordo” no meu caderninho azul.

91/92 – Foi um final de ano agitado. A garotada da rua, comandadas pelas amigas Flávia e Míriam, criaram um negócio chamado “Clube do Juca”, abreviação de “juventude unida com amor”. Coisa de criança. Além disso, meu pai fez algo incomum: no dia do aniversário dele, fez uma “viasaca” relâmpago, em busca dos presentes. Mas o momento mais marcante daquele final de ano foi outro: a “inauguração” do galpão novo, em 12 de janeiro, quando a família toda passou um dia inesquecível, com todos reunidos. Eu e meus primos, todos crianças, jamais imaginávamos que seria o último final de ano ao lado do vô Roque.

92/93 – No último ano, foram duas viagens: a primeira, quando o vô faleceu; e a segunda, nas minhas férias de inverno. Naquela temporada, embarcávamos para o sul num Apollo preto, talvez o carro mais confortável da nossa história de vida. E pela última vez, meus registros no caderno azul foram a lápis – chegava, portanto, à uma tardia adolescência. Era uma época em que minhas brincadeiras com papel e lápis faziam sucesso entre as crianças. A mais divertida chamava-se “o que você faria”: o primeiro escrevia a pergunta no papel; um segundo respondia; e na hora de ler, trocávamos as respostas, causando situações engraçadas. Era bem legal ser criança aos 15 anos…

93/94 – Foi a única vez que trouxemos alguém conosco na viagem de volta: minha prima Carla ocupou o banco traseiro do Apollo ao nosso lado, para passar algumas semanas passeando por São Paulo. Antes, conheci minha priminha nova, a Bruna. Também era moda passeios intermináveis de bicicleta pela Duque de Caxias – eu andava na do pai da Flávia. Ainda discutíamos o fim do “Clube do Juca” – foi a última vez que lembro ter conversado mais tempo com a Miriam. Essa brigou com a Flávia e sumiu. Foi ainda o último final de ano ao lado da Vó Leonísia.

94/95 – Mais um mês inteiro no Rio Grande do Sul. Na viagem de ida, novamente com o Pedro e a família, uma novidade: foi a única vez que trocamos o litoral pela BR 116. Mais buracos a bordo do Voyage, mas por outro lado, um indescritível visual pela serra gaúcha. Crianças brincando de futebol no pátio da vó. Começava a trocar as fitas cassete por disquinhos laser, que começavam a ficar mais populares – dos poucos que tinha, era fascinado com o das sete melhores (volume 1), que virou trilha sonora daquela viagem.

95/96 – Esse foi o melhor final de ano em toda minha vida. Graças à uma dispensa do IPT, saí de casa com o Dani num dia 15 de dezembro, armado pela primeira vez com uma filmadora (já tinha dispensado o gravador em 94). Desde 89, foi o único Natal que não passamos na tia Dair, mas sim em Pelotas. A intensa troca de cartas que tive com a mocinha durante o ano renderam um feliz namoro de verão, que durou entre os dias 22 de dezembro e 5 de janeiro. O aniversário da Flávia foi, ao mesmo tempo, sua festa de noivado, no colégio Mariana Eufrásia (Duque de Caxias, esquina Pinheiro Machado, no Fragata). Inesquecível.

96/97 – Meu caderninho azul já estava enorme, remendado e pouco prático. Inevitavelmente seria dispensado em breve. E foi mesmo: todos os registros daquela viagem foram digitados em word, impressos e colados nas últimas páginas dele. Foi bem diferente: apenas eu e o Dani viajamos. A idéia era ficar um mês, mas um acidente abortou os planos: o Dani torceu feio o joelho jogando bola, o que resultou em uma virada de ano bem dolorida para ele. Pra mim, a dor foi meio diferente: a namorada do ano anterior veio me desejar um feliz 97, ao lado do noivo. Nunca mais a vi depois daquilo.

97/98 – Foi uma temporada marcante: em julho de 1997 fiz a última viagem de inverno ao lado do Dani. E aquele foi o último fim de ano que passamos todo o mês de janeiro no sul. Tenho pelo menos cinco horas de gravações em vídeo, prontas para serem editadas. Incluindo tomadas em dois dias na bela Torres, litoral norte gaúcho, antes do Natal; imagens de um bate-volta em Chuí, divisa do Brasil com o Uruguai; registros históricos de uma “viasaca” completa pelos meus tios… Sem falar em uma grandiosa festa de família, na sede do sete de setembro – na beira da BR 293, perto da divisa com Pedro Osório. Só não tem gravação do momento em que recebo uma declaração de amor de uma bela gaúcha, que infelizmente, ficou perdida no passado. Fim de ano igual esse, nunca mais.

98/99 – Por alguma razão que desconheço, não tenho anotação nenhuma dessa viagem. Apenas alguns registros em vídeo – em especial, o do casamento da minha prima Cláudia, o grande acontecimento daquele final de ano. Lembro apenas que nossa casa estava em reformas nessa época – todos os cômodos estavam concentrados em uma única peça, nos fundos. Foi nesse ambiente que fiquei sozinho nas primeiras semanas de janeiro, enquanto os meus pais seguiam de férias.

99/00 – Cometi uma falha grave nesse ano: confiei as anotações num pequeno handheld incrementado, que deu pane no meio da viagem. As únicas referências daquele final de ano estão em vídeo – inclusive a última vez em que meus tios se reuniram na casa da tia Neli, no primeiro de ano. De cabeça, sei que também foi uma viagem rápida: voltei sozinho com o Dani, pois logo na primeira semana de janeiro, precisava retornar aos trabalhos na rádio Metropolitana. Aliás, foi a última vez que tive coragem de encarar os 1100km entre Porto Alegre e São Paulo num ônibus.

00/01 – Saímos no dia 23 de dezembro, ao lado do Pedro, da Célia e das “crianças” (dificilmente isso vai se repetir). A esticada SP-RS contou com uma escala em Torres, por apenas uma noite. Foi o único fim de ano em que fui a uma balada nas primeiras horas do Natal: foi em Cachoeirinha, num lugar chamado Século XV (não existe mais) onde uma das performances era o enforcamento do Papai Noel. Lembro de um sábado, onde fomos jantar num CTG perdido em Capão do Leão. Também lembro do aniversário da Flávia (o penúltimo da história), quando as mocinhas da Cohab apresentavam seus filhotes… As poucas crianças que restaram ficavam fascinadas com um brinquedo novo: um tal playstation. Sem férias na Gazeta, voltei para São Paulo com o Dani, no dia dois de janeiro, num pé só: embarquei no Embaixador depois do almoço em Pelotas, fiquei algumas horas na tia Dair e, horas depois, já estava em casa, graças a um exorbitante vôo da Varig.

01/02 – Enquanto meus pais e o Dani saíram dia 23, fiquei de plantão na redação – culpa de São Caetano e Atlético/PR. Alcancei a família no dia seguinte, num vôo da Gol. Novamente, desencontros: ficamos por lá durante longas três semanas (isso dificilmente vai se repetir também), mas o Dani precisava trabalhar. Voltou sozinho para casa, logo no dia dois. Deu tempo de visitar praticamente todas as casas “lá fora” – inclusive o Canto Grande, cada vez mais largado. Teve ainda a formatura de oitava série da Cristiele, filha da tia Cleusa, no dia 28 de dezembro – colação no Teatro Guarani, jantar em família no rodízio de pizza (o mesmo de sempre, em uma travessa da Bento Gonçalves) e baile até o sol raiar, no Clube Brilhante.

02/03 – Resgate aos velhos tempos: foi a última vez que fui e voltei de carro, com a família toda. Mas não foi fácil. O ano de 2002 marcou a demissão do meu pai, após 29 anos de serviços prestados. Nosso Natal foi em casa, pela primeira vez desde 1989. Os outros detalhes do passeio, no entanto, estão bem preservados: foi a primeira vez que pude contar com o blog para registrar o final de ano – o “diário de bordo”, pela primeira vez, ganhou a Internet. Foi a última ida e volta do Voyage, após oito anos de bons serviços prestados.

03/04 – A última, que também foi contada pelo blog. Não foi das mais agradáveis: esperava por férias ao lado da namorada, mas acabei curtindo alguns dias de fossa em Pelotas. Fui e voltei sozinho, de avião – meus pais e o Dani tinham ido antes, e também voltaram antes. Passei as primeiras horas do ano em uma balada mequetrefe. Dias depois, um fim de semana “inesquecível” em Porto Alegre. Foi também o primeiro ano sem a tia Maria, e com muitos dos meus tios morando na zona urbana – a tradicional “viasaca” tinha virado história. Mas algumas lembranças positivas: passeio na praia do Cassino, em Gramado e Canela. Além de um jantar ao lado do Ricardo, do Otávio, da Raquel, da Gisele e de outros grandes blogueiros.

04/05 – Ainda uma folha de papel praticamente em branco, preenchida nas primeiras linhas com um volume intenso de trabalho, capaz de me deixar exausto. Além de cinco dias de indulto, que serão bem aproveitados em casa. Talvez um ou outro programa diferente, para marcar a chegada de um ano com muito mais trabalho. Só sei que o abraço na vó e nas “crianças”, só em dezembro (acho).

Ufa… Pena que meu scanner não funciona. Com algumas fotos, talvez não tivesse ficado tão cansativo. Quem sabe, num futuro próximo, não consiga fazer uma versão desse post em DVD – com imagens de arquivo, registros atuais de todos esses lugares, fotos antigas, alguns depoimentos da família, etc.

Atualizado – Sim, este texto é um calhau, postado originalmente em 30/12/2004. É um dos meus preferidos… Infelizmente é o resumo de um período da minha vida que, infelizmente, jamais vai ser do mesmo jeito – fica fácil entender o porquê seguindo com a atualização dos últimos finais de ano.

04/05 – Como suspeitava ao publicar este relato, realmente ficamos em casa nos extertores do ano – aquela em que o Narazaki foi surpreendido no meio do aniversário do Marcelo pela ida de Luxemburgo ao Real Madrid. Enfim, logo na primeira semana de janeiro, meus pais pegaram o carro e se mandaram para Pelotas. Eu ainda fiz uma viagem ligeirinha, no dia 15 de janeiro, para aparecer de relance num baile de formatura, em plena praia do Cassino. Talvez tenha sido a mais rápida (e louca) viagem ao sul que fiz na vida.

05/06 – Esse foi o único final de ano onde entrei e saí namorando firme, com direito a uma porção de coisas tipicamente paulistanas – como o engarrafamento na Imigrantes nos primeiros dias de janeiro… Eu já devia saber que o resto do ano seria pior. Mas enfim. Minha viagem ao Rio Grande do sul foi marcada para o Carnaval: eu e o Dani passamos os quatro dias de folia enfurnados na casinha da Cohab Fragata. Foi rápido, mas bem gostoso.

06/07 – Como o ano de 2006 não foi exatamente o melhor ano da minha vida, considero que o final dele começou lá para abril. Só em agosto, quando meu time venceu a Libertadores, pude conciliar esta boa razão para celebrar com um longo mês de férias. Foi ótimo caminhar sozinho por Porto Alegre, Buenos Aires e Montevidéu… Mas melhor ainda foi passar o aniversário de 90 anos da minha vó ao lado dela. Estava sendo um ano difícil: ela havia passado por uma cirurgia agressiva pouco antes da Copa, e estava em plena recuperação. Minha mãe ficou boa parte do semestre viajando entre São Paulo e Pelotas. No primeiro turno das eleições, fizemos uma nova viagem em família, para uma linda festa com os irmãos do meu pai. Foi a última vez que pude abraçar minha vó materna. Como nos anos anteriores, optamos por não passar o final de ano no sul… Até hoje fico pensando se foi mesmo uma boa idéia: apenas minha mãe, novamente, ficaria o mês de janeiro por lá, em regime de dedicação exclusiva. Mas na madrugada do dia dois, veio a notícia que não gostaríamos de receber. Eu fiz o que pude para tranquilizar minha mãe no caminho para a despedida da vó, mas nada me tirava da cabeça o fato de não ter passado aquele Natal e reveillon ao lado dela. Como se isso pudesse ter feito alguma diferença. Enfim, da mesma forma que o fim de 2006 começou em abril, só acabou nos primeiros dias de janeiro.

07/08 – É o primeiro final de ano sem qualquer um dos meus avós. A maioria dos amigos que encontro revelam desfechos parecidos: é como se o elo que ainda ligava as famílias fosse definitivamente rompido. Poucas lágrimas ao telefone representam a falta que faz os velhos tempos fazem. Enfim, o fato de serem poucas indica o óbvio: todos crescem, e quando isso acontece, o conto de fadas perde um pouco do seu sentido.

O que me alenta é a certeza de que, logo que puder, vou pisar novamente no Rio Grande do Sul e rever ao menos uma parte dessa gente que nunca mais vai deixar minha vida. Ainda que não seja, exatamente, no final do ano.

André Marmota dialoga muito com o passado, cria futuros inverossímeis e, atrapalhado, deixa passar algumas sutilezas do presente. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (5)

  1. “quando estou em Porto Alegre ou Pelotas, simplesmente esqueço da vida”. Não sei porque isto me lembrou a famosa canção de Kleiton e Kledir…

  2. Meu desejo sincero é que você se cuide bastante e que seus filhos e netos possam desfrutar de muitos e muitos finais de anos contigo – não os desaponte!
    Um abraço.

  3. Seria maravilhoso que o conto de fadas durasse pra sempre… mas ele só voltará a acontecer quando vierem os filhos… será um conto diferente, mas será um conto.

  4. Por coincidência, este também é o primeiro fim de ano meu sem quaisquer das avós (uma vez que os avôs morreram antes de eu nascer). Sinto também um pouco desse ligeiro rompimento, pois me sinto de certa forma até livre para ir procurar trabalho em outra cidade ou mesmo outro país…

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