Três historinhas que ouvi no reveilão da minha rua

Cansou de ouvir falar sobre chuva, corpos, Boris Casoy, BBB e outras ladainhas desse princípio de ano? Pois puxe a cadeira e sente um pouquinho. Vou aproveitar meu pique de janeiro pra lhe contar alguns causos que ouvi nos últimos minutos de 2009, enquanto os fogos espocavam no extremo leste da capital paulista.

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No início dos anos 90, um menino brincava com outras crianças aqui dos arredores. Devia ter uns seis, sete anos. Era um garoto querido por todos, mas não tanto quanto pelos seus tios, que cuidavam dele após os pais largá-lo pelo mundo e sumirem. Nem mesmo esse histórico parecia terminar com o sorriso dele.

Apesar de faceiro, o moleque também aprontava um bocado. Numa manhã qualquer daquela época, inventou de sair de casa sem avisar, pular um muro e subir em cima de telhados alheios. Foi uma luta para “resgatá-lo” da rua… Enfim, era uma época divertida, onde a garotada não tinha preocupações ou responsabilidades mais duras do que “não salte mais por aí”…

De um dia para outro, o baixinho sumiu. Dias depois, soubemos que sua avó apareceu em São Paulo, “reivindicando” sua guarda – convém lembrar que as duas famílias são humildes o suficiente para que esse tipo de “acordo” seja feito olho no olho, sem qualquer intervenção judicial. Assim, aquela criança sorridente foi saltar muros e subir em telhados no interior, longe do carinho dos tios e vizinhos.

Nunca mais tive notícias, até a meia-noite da virada. Soube que a história de vida daquele garoto passou por reviravoltas tremendas. A avó, ao contrário do que se supunha, deu de ombros e largou a criação dele à própria sorte. Circulou entre unidades de detenção para menores e, como infelizmente ocorre nas “febens” do mundo, aprendeu o bastante para se envolver em novas roubadas e ser preso, após completar dezoito anos.

Muitos que não tiveram indulto celebraram a chegada de 2010 numa cela. Certamente nem todos conseguem associar esta imagem a um rosto, qualquer que seja. Pensar que um desses era um menino feliz, que morava ao seu lado e poderia ser um sujeito trabalhador como as outras crianças da época, nos dá uma sensação de impotência muito forte.

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Outro garoto, da mesma época, é uma espécie de referência: seu nome é usado frequentemente quando se vê um moleque fazendo malcriações. “Vê se toma jeito, olha o exemplo do menino lá, mire-se nele”. Era como a gente, brincando de pega-pega, esconde-esconde, pula-corda e queimdada. Também adorava brincar aqui em casa, ao ponto de chamar minha mãe de mãe também. Só tinha uma diferença: descobriu um câncer na bexiga, aos cinco anos.

Foi o pai dele que, enquanto tinha o filho no colo se queixando de dores, descobriu o tumor ao acaso, passando a mão em sua barriga e descobrindo um carocinho. Dali para a mesa de cirurgia, o processo foi rápido, porém tenso. O processo de recuperação, que incluia agressivas sessões de quimioterapia, só fizeram com que ele tornasse ainda mais querido pelos moradores.

O menino cresceu, sempre alegre e – o mais importante – saudável. Brincava, comemorava, estudava, passeava, trabalhava… Formou-se técnico em enfermagem e se meteu em altas aventuras nos mais loucos ambulatórios, hospitais, pronto-socorros e afins.

Então o abracei novamente ao lhe desejar feliz ano novo – mas rapidamente, afinal o rapaz precisava dormir rapidamente, seu plantão comecaria horas depois. Estava todo empolgado, pois tratava-se de um emprego recém conquistado, num desses hospitais famosos da capital. Ah, quando a vizinhança tomar conhecimento… Aí sim esse papo de “siga o exemplo do menino lá” vai ficar insuportável.

Mas o mais curioso ele deixou para contar antes de sair. “Vou trabalhar com pacientes da oncologia!”, disse, entusiasmado, emendando que a vaga surgiu completamente ao acaso. Mesmo sem querer, ninguém melhor do que ele para conversar e cuidar com quem passa por situações semelhantes a dele. É quando a medicina se encontra com aquilo que não podemos compreender sem uma crença: “foi Deus quem quis assim”.

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Nem todo mundo estava plenamente alegre. Num dos abraços que recebi, percebi que faltava algo no sorriso daquela jovem senhora. “O que foi? Teve um dia cansativo cuidando da casa e dos pentelhos que a bagunçam?”, questionei. “Ih, nem te conto… Passei o dia todo assim, pensando na vida, na morte…”. Eu, hein?!?. Mais tarde, ela me contou o estranho sonho que teve na noite anterior.

Diz ela que, durante a madrugada quente do dia 31, sentiu como se sua alma desprendesse do corpo. Foi quando se viu diante de seus pais, já falecidos. Como se estivessem ali, ao lado da cama, vigiando o sono dela. “Você acredita?”, perguntou. Preferi dizer: “continue, o que mais?”.

Então ela e os pais foram transportados para um ambiente sombrio, assustador, repleto de portas. Outras pessoas (ou almas, sei lá) circulavam por ali, como se estivessem procurando alguém. “Então eu me perdi dos meus pais, me senti ainda mais aflita e perdida nesse lugar estranho”, contou, com um brilho estranho no olhar.

“Será que é para um lugar assim que vamos depois de morrer?”, questionou, enquanto concluía o pesadelo. Antes de acordar, tensa e sentindo um estranho mal-estar, ainda enxergou um acidente aéreo. “Sonho com isso diversas vezes, e foi assim essa noite. Fiquei sem entender o que uma coisa tinha a ver com outra, mas foi horrível do mesmo jeito”, concluiu, respirando fundo.

Não sou espírita, também não tenho referência alguma para interpretar nada disso. Poderia simplesmente perguntar o que ela bebeu ou comeu naquela noite. Naquele instante, só consegui perguntar: “mas você acendeu uma vela, um incenso, qualquer coisa?”. A resposta foi “claro que sim”. É aquele velho chavão útil para assuntos do gênero: yo no creo en brujas; pero que las hay, las hay.

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Histórias boas, ruins ou sem qualquer adjetivo possível… Assim será permeado, inevitavelmente, o seu ano novo. Aproveite bem todas elas.

André Marmota dialoga muito com o passado, cria futuros inverossímeis e, atrapalhado, deixa passar algumas sutilezas do presente. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (3)

  1. Cara, que causos mais assim para se ouvir no final de um ano…
    Todos eles mexeram comigo…
    O segundo me fez pensar que nunca conseguiria ajudar alguém com AVC, me dá disispero só de ler os comentários no texto q fiz sobre…
    O Ultimo me fez pensar na minha avó, meu avô e na morte em si…
    Eu não conseguria sorrir quando fosse ano novo assim não viu…

  2. A mulher do sonho teve sim senhor um preságio, daqueles que não devem ser ignorados, pois ela disse que teve várias vezes o mesmo tipo de sonho. Ela deve procurar um centro espirita de orientação KARDECISTA(pois tem outros de orientação muito duvidosa, é preciso ter bastante cuidado! “não confundir alhos com bugalhos”). Pois lá ela tera uma orientação segura sobre esta premonição e saberá entender melhor todos os demais fatos que lhe ocorrem e não tem uma explicação simples e material(sentir fortemente a presença de uma pessoa perto de você, você olha em redor e não tem ninguem, mas a sensação continua; ver que alguem passou pela janela, você olha la fora e não tem ninguem; sentir um peso fisico pelo corpo, sem explicação e sem estar cansado ou algo assim, não não é algo psicologico, eu já tive todas estas sensações e eram todas espirituais. Enquanto não procurei un centro espirita KARDECISTA, não entendia nada e só foi almentando as situações. Não é o fim do mundo, é o começo do entendimento da verdade da luz, sim realmente como escrevel Shekspear: “existe muito mais coisas entre o céu e a terra , que possa sonhar a vã filosofia humana”.). Muita luz à todos nós brasileiros, que Deus ilumine e abençoe à todos nós, encarnados e desencarnados(pois ninguem morre, desaparece, apenas muda de corpo e de lar). Felicidades mil e feliz 2010.

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