A maior e mais bela flor do mundo é você

Em um quarto pequeno mas ajeitado, um velho de pijamas segura um copo com água, sentado à beira de uma escrivaninha. A outra mão está fechada, servindo de apoio para a cabeça pensativa. Acostumado a conversar com adultos e emendar vocábulos de compreensão hermética, jamais havia escrito uma história para crianças em sua vida. Mas a idéia estava fresca em sua mente. Terminou a água, ajustou a luminária e pôs-se a escrever.

Pensou num menino. José. Antônio. Pedro. Não, Vinícius. Rabiscou um quarto de menino. Brinquedos, livros, bagunça. Distrações que não eram capazes de aplacar o tédio do solitário rapaz. Precisava de mais cores, mais sentidos, mais vida. Mas seus pais, cautelosos e preocupados, não deixavam Vinícius sair à rua desacompanhado. Aborrecido, ficou alguns minutos escorado na janela, em busca de entusiasmo. Via o sol radiante como se fosse um convite para sair ao menos um pouquinho.

O velho de pijamas voltou a apoiar sua cabeça. Será mesmo que vou incentivar a moçada a desobedecer os pais e sair da zona de conforto? Ora, por que não? A caneta seguia leve sobre o papel, abrindo os portões de casa para Vinícius correr pelo campo. Sabia que não podia ser visto, para não correr o risco de ser pego e levar uma bronca logo de cara – sim, pois mesmo ofegante, imaginava que o sermão poderia vir na volta…

Enquanto corria, observava o mundo. Caminhos de terra batida tortuosos, vigiados por pássaros multicoloridos repousados em ramos carregados de folhas verdes das árvores mais frondosas. A trilha apontava para um monte redondo, com topo bem perto do céu. Como já estava bem longe de casa, não custava nada seguir em frente e chegar ao seu cume. Lá do alto, Vinícius pouco ligava para a visão do riacho, que cruzava a outra face do monte. Estava mesmo preocupado com uma flor.

O olhar arregalado do velho de pijamas é suficiente para descrever o estado daquela pobre flor. Devia ser muito bonita outrora, mas estava sedenta de cuidados. Naquele instante, suas pétalas estavam murchas e secas, e seu caule quase dobrado. Transferiu toda sua melancolia a Vinícius, mas por apenas uma linha de texto. Não demorou para que despertasse o desejo de qualquer criança destemida: carregar água do riacho para a plantinha.

Munido apenas por sua iniciativa, o menino desceu ao pé do monte e, com as mãos em forma de concha, apanhou um bocadinho de água. Subiu novamente o monte e, com toda delicadeza, despejou as gotas que sobraram sobre a florzinha. Desceu novamente, apanhou mais água, subiu vagarosamente e jogou mais água. E fez isso outra vez. E mais uma…

Até o velho de pijamas ficou com pena de sua criação. Decidiu pegar mais água enquanto imaginava qual seria o melhor desfecho para sua história infantil. Decidiu presentear Vinícius com uma surpresa única. A cada viagem que o menino fazia ao riacho, a flor reagia. Crescia alguns centímetros, espichava uma de suas pétalas. Aquilo o entusiasmou, a ponto de realizar dezenas de descidas e subidas. Como se fossem milhares de viagens a outro planeta. Nem mesmo a Lua ou Marte pareciam distantes diante do que estava prestes a conhecer: a maior flor do mundo.

Já não se lembrava que estava longe de casa. Mas quando se deu conta, o sol já tinha ido embora. A escuridão tirou de Vinícius a coragem que o fizera capaz de ajudar a flor. Com medo, decidiu ficar ao pé de sua nova amiga, até a noite passar. Mas a gratidão da flor era tão grande quanto suas pétalas, a ponto de deixar cair uma delas para aquecer o menino. Na ponta da pétala, o mais doce néctar saciou a fome e a sede do pequeno herói.

“Minha nossa! Os pais do garoto!” Quase o velho de pijamas caiu da cadeira quando lembrou-se deles. Vinícius devia achar que estavam furiosos, quando na verdade estavam mesmo aflitos. Pediram ajuda aos vizinhos para procurá-lo por toda a cidade. As luzes das lanternas cruzavam a mata fechada, sem encontrar nenhum vestígio do menino sumido. A agonia durou toda a noite, até que os primeiros sinais da manhã apontaram para aquela flor gigantesca, com as cores do arco-íris, em cima do monte. A busca cessou por um instante: todos ficaram maravilhados com aquela visão espetacular.

Decidiram acalmar a tristeza e subir o monte, para verem de perto aquele fenômeno da natureza. E o sorriso dos pais de Vinícius só aumentou quando viram seu anjinho dormindo feliz, protegido por uma pétala. Ao acordar, o menino pôs-se a contar em detalhes sua aventura. Todos os caminhos que já não sabia mais, mas que o levaram até ali para salvar aquela flor.

“Meu velho, já é tarde, vem pra cama”… A voz da esposa atrapalhou a concentração do velho de pijamas, que ainda precisava finalizar sua história infantil. Pensou na família e nos vizinhos, exaustos após uma longa jornada, mas que após o descanso merecido enfeitou suas casas com muitas plantas e festejou a aventura de Vinícius, maior que seu próprio tamanho, bem maior que o tamanho daquela flor encantada. Enfim, decidiu guardar a caneta e apagar a luminária. “Já vou, minha véia”.

A caminho da cama, o velho de pijamas foi tomado por uma porção de lembranças ao lado de sua mulher… E de todas as vezes que ela dizia “vai logo ao médico”, “vê se emagrece”, “tome jeito nessa vida”… Toda a força e carinho regados por ela dia a dia, que o fizeram chegar até ali, felizes da vida.

“Nunca se esqueça que eu adoro acompanhar você nessa aventura da vida. Boa noite, minha véia”, disse, enquanto descalçava suas pantufas e se cobria. “Ei, meu velho de pijamas, nunca se esqueça que a maior e mais bela flor do mundo é você”.

***

A propósito, não deixe de ler “A maior flor do mundo”, de José Saramago. Não sei se ele usava pijamas, mas de fato ele jamais tinha escrito nada para o público infantil. A ponto de usar palavras que dificilmente os mais novos conhecem de cabeça. “Vão começar a aparecer algumas palavras difíceis, mas quem não souber, deve ir ao dicionário ou perguntar ao professor”.

E conclui: “quem sabe se um dia virei a ler outra vez esta história, escrita por ti que me lês, mas muito mais bonita?”. Talvez porque normalmente, quem precisa ler histórias infantis somos nós, adultos insensíveis e grotescos.

A minha ficou bem ruinzinha (mas tudo bem, serve para responder a quem me presenteou com o livro). Bacana mesmo ficou a versão adaptada e dirigida por Juan Pablo Etcheverry, narrada pelo próprio Saramago. Para nos lembrar que, na correria da vida, é importante lembrar das flores perdidas num montinho distante.

André Marmota acredita em um futuro com blogs atualizados, livros impressos, videolocadoras, amores sinceros, entre outros anacronismos. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (10)

  1. Puxa, eu sou muito sua fã, sabia?!

    Teu texto é a prova de que saber interpretar é bem mais importante que saber ler.

    O vídeo é lindo; o texto, preciso dizer?

    A maior e mais bela flor do meu mundo é você. 😉

    PS – Ah, um autêntico MMM! 😛

  2. Sim, mamãe amou a dica! Estou de olho nesse livro já há algum tempo (Aliás, meu níver tá chegando), mesmo não sendo marmota nem toupeira – estou mais pra bicho-preguiça…

    No momento estou desbravando O Homem Duplicado, mas já que está valendo, já fiquei com vontade: quero também ter a minha vez de recontar esta his…(ops!) estória.

    Agora, ouvir a voz do Saramago em espanhol e ver aquela animação deliciosa… me valeu o dia!! Obrigada.

  3. Contos infantis são o meus preferidos, ainda mais quando a interpretação deles é tão mais profunda do que sugere inicialmente. Impecável, longe de ser “ruinzinho”.

    Abraço.

  4. Sim, um belo livro de um belo escritor, comentado / citado por um belíssimo amigo.

    André, você é fantástico com as palavras… de verdade.

    Saudades!

    PS: E o HH/09?

  5. Puxa, vim dizer que estou com saudades… E, magicamente, encontrei esse post belíssimo. A ternura tomou conta e é como se fosse os velhos tempos de ICQ, eu, você e minha prima.
    Obrigada, Marmota! Vou procurar o livro para presentear o filho da Dê! Você precisa conhecê-lo, o riso dos dois juntos é como sua escrita, preenche e ilumina meu espírito.
    beijo grande e tudo de bom!

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