Vou cortar seu microfone!

Bom seria se o bode que me acompanhou no final de semana permanecesse em São Caetano, depois daquele joguinho. Ledo engano. Outra surpresa estava preparada para a noite de sábado, quando resolvemos celebrar o aniversário de um colega de trabalho, o Bruno, num karaokê.

Antes o problema fosse apenas a participação de Lello, que já mostrou seus dotes vocais em Florianópolis. O local, perdido no meio da badalada Moema, era o mais vazio. No fim da noite, descobrimos um provável motivo: qualidade zero no quesito atendimento.

O karaokê fica instalado num cantinho do bar, ao lado de um palco onde os convidados fazem suas performances. Mas ali, o “show de horrores” não se limitava as coreografias, timbres, letras e ritmos maltratados. O coordenador do “brinquedo” – a partir desta linha, vamos chamá-lo de Barba – parecia ter brigado com a vida há poucas horas, tamanha sua má vontade em agradar os fregueses.

Lá vou eu cantar minha primeira música, ao lado de Lello Lopes. Era uma do Capital Inicial. Quem já foi a um show da banda, sabe perfeitamente que o vocalista Dinho dispara um sonoro “E aí moçada!” a cada estrofe, alternando com o pouco polido “Ducaráleo”. Só que a minha imitação de Dinho não agradou o Barba – até aí, natural. Ocorre que o sujeito esqueceu a os modos em casa:

– Vou cortar seu microfone! – ameaçou, com o dedo em riste.

Poderia ter dito algo como “contra a censura e a falta de educação em karaokês!”, mas preferi terminar a música, voltar pra mesa e me divertir com os amigos, evitando o palco. Em pouco tempo, percebi que o problema era geral: outro colega, o Leonardo, foi “podado” pelo Barba minutos depois. O motivo? Um copo na mão. Narazaki, que estava a seu lado, percebeu o corte e trocou de microfone, deixando o Barba enfurecido. Ao final, todos, em uníssono, gritavam: “Censura! Censura!”. “Esse Barba é muito folgado”, definiu Leonardo, com propriedade.

Passava da meia-noite e apenas os convidados do Bruno permaneciam no bar – o que demonstra a qualidade do estabelecimento. Nisso o aniversariante resolve cutucar o Barba, substituindo algumas palavras da canção “Olhar 43” por palavrões durante sua performance – e repetindo outro ao final. Minutos depois, novo trocadalho do carilho, ao som de Titãs: “homem de barba, capitalista e selvagem… Ô ô ô!”.

“Pronto, André. Agora deixe seu orgulho de lado e vá cantar”, pediu Bruno. E assim foi, com a dupla Lello e Narazaki em Sandra Rosa Madalena, e apenas ao lado do nipônico, mandando ver em Rio Negro e Solimões ao evocar a mancada gestual do “e bate o pé” seguido de três palmas…

Na hora de pagar, outra celeuma, gerada pela consumação mínima de vinte reais: Narazaki, que havia pedido para a garçonete dividir as despesas entre as comandas mas não foi atendido, pediu para a tia do caixa redistribuir os valores. “Eu avisei na entrada, a consumação é individual”, insistiu a tia do caixa, com cara de poucos amigos. “Tudo bem, não vou impicar com essa babaquice”, concluiu Narazaki, enquanto a tia lucrava dez reais a mais nessa brincadeira.

Tudo bem que a garçonete canta bem e, em suas poucas participações, arrancou muitos aplausos. Mas esse é o tipo de programa que costuma provocar, inevitavelmente, a expressão: “nunca mais ponho os pés nesta espelunca!”. E eu, uma pedra!

Importante: Para terminar este relato com o mínimo de ética e dignidade, preservando a imagem de todos os envolvidos e sem criar caso com ninguém, prefiro não dizer que a história se passou no Giffa’s, que fica na Alameda dos Arapanés, número 1.354, em Moema, São Paulo.

Comentários em blogs: ainda existem? (9)

  1. Só te digo uma coisa: o Papagaio Vintém, lá de Santana, é a mesma coisa. Grosseria atrás de outra, fui maltratada e conheço mais duas pessoas que também foram (uma delas é minha chefe, que teve problemas na última semana). Não voltarei.
    :-((

  2. Caro André,
    Sensacional o seu relato, fiquei sensibilizado que até chorei, chorei de rir. Vou mais além, digo que este post foi o mais engraçado de todos postados esse ano. Merece um prêmio, muito bom mesmo! Abraço…

  3. Bem, meu caro, detalhes à parte (Porque obviamente, o bom tratamento deveria fazer parte de qualquer estabelecimento que quer se manter) recomendo que, da próxima vez, experimentem um karaokê-box(aquele que tem salinhas fechadas para cada grupo). Conheço três, onde fui muito bem tratado: o PORQUESIM, o GIRASSOL e o TOKYO.
    Não tem barba, nem barbicha. O tiozinho larga vocês na sala e pronto. Se quiserem beber ou comer, basta a campainha.

  4. Sensacional post! Aliás, seu sábado, além de tragicômico, lhe rendeu dois de seus melhores posts. Tou de acordo com o Marcio aí embaixo.

    Essa história pode dar origem a um conceito, ou até a um provérbio: “Bar que tá vazio merece o público que tem”. (!)

    E Joanna, não se preocupe: este estabelecimento se auto-fechará em poucos meses.

  5. Olá, visto que vcs curtem bastante karaoke, gostaria de pedir: alguém pode me indicar karaokes box? preciso do tel ou endereço para poder ir.. se tiver preços ajuda tb.. valeu galerinha… e viva a liberdade de expressão seja onde for! parabéns pelo post!

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