Você, seu zé ninguém

Antes de mais nada, vamos combinar uma coisa. Já nos anos 60, muito antes desse gigantesco conglomerado de redes denominado Internet atingir uma escala mundial, o propósito inicial sempre foi trocar todo tipo de dados entre os seus usuários. Em resumo: conteúdo gerado por seus usuários. Ultimamente, a expressão “user-generated content” ganhou força, definindo tudo aquilo que não é produzido pela mídia tradicional, definindo a democratização da informação.

Pois bem, qual a grande novidade do “user-generated content”, se tudo que você ou qualquer outro clicou hoje foi gerado por usuários? Mais do que isso: o que eram as antigas BBS, os chats e IRCs, as listas de e-mail, os finados newsgroups…

Questões semânticas à parte, o ano de 2006 viu uma extrema valorização desse produto feito por gente como a gente, graças ao boom da chamada Web 2.0, baseada justamente nesse princípio básico e cujos carros-chefe são Flickr, YouTube, MySpace, Blogger, Wikipedia e, agora na crista da onda, o Second Life.

Todos estão de olhos abertos nessa onda, e o impacto já foi sentido dentro e fora da rede. Nos EUA, o investimento em publicidade tende a acompanhar a tendência dos consumidores, que passam menos tempo diante da TV e cada vez mais no computador. A própria MTV brasileira fez uma aposta arriscada ao declarar a “morte do videoclipe” na sua grade de programação, pelo simples fato da rede atender perfeitamente a demanda.

Dentro da rede, os blogs ocupam cada vez mais posição de destaque: muitas empresas e agências de marketing apostam na relação direta entre autores e seus leitores para fortalecer suas marcas. Outras vão além e contratam blogueiros conhecidos para tocar projetos de relacionamento – como é o caso do blog de uma promoção da Mastercard. Mesmo os caras da lista Blogosfera passam longo tempo matutando formas de capitalizar essa onda.

Enfim. Toda essa introdução desnecessária para chegar à capa da Time no final do ano passado: o crescimento do tal “user-generated content” fez com que a revista elegesse “você” (ou eu, sei lá) como a personalidade do ano. Graças a todo esse conteúdo relevante produzido por nós, que está transformando a maneira do homem enxergar o mundo, além de criar novos e lucrativos modelos de negócio.

Mas… Será mesmo que você merece esse prêmio? Ou eu? Ano passado, o Rodrigo Ghedin fez um comentário bastante pertinente, referente aos livros “Conquiste a Rede”, iniciativa feita justamente para incentivar o “faça a imprensa com as suas próprias mãos”:

Não quero parecer pessimista, nem agourar o ideal de que todos colaborem positivamente para uma Internet melhor, mas acho que esse modelo onde todos criam e todos consomem não funciona. Posso até ser tachado de elitista, ou qualquer adjetivo semelhante, mas a verdade é que há três tipos de pessoas no mundo: as que criam, as que criam e consomem, e as que pura e simplesmente consomem. Não por acaso, o último tipo é o mais comum (e o que deveria ficar de fora da inclusão digital utópica).

Não é discriminação, é constatação. Há pessoas que definitivamente não sabem transmitir idéias via escrita. E isso não é pecado, ou motivo para vergonha; é apenas uma característica. Do outro lado da moeda, existem pessoas que transmitem idéias muito bem, mas são péssimas na cozinha, ou não entendem bolhufas de mecânica automotiva. Como diria alguém, cada macaco no seu galho.

Na mesma linha, uma crônica publicada pelo jornalista Tutty Vasques em 23 de dezembro amplifica esta reflexão. Afinal, quem é “você”, exatamente?

A revista “Time” – uma espécie de “Veja” americana – elegeu “você” a Personalidade do Ano. Isso quer dizer o seguinte: o cara de 2006 foi qualquer um, todo mundo, ou seja, ninguém. Esse papo de enaltecer nossa participação na revolução da nova web, de valorizar o explosivo crescimento do conteúdo participativo via blogs, YouTube, Wikipedia e o reino da mídia global, essa conversa fiada sobre a conversa fiada eletrônica, francamente, estão querendo te fazer de bobo, amigo internauta. Democracia digital é o escambau. A verdade é a seguinte: escolheram você para personalidade de um ano de merda.

“Você”, é bom lembrar, concorreu com o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, o da China, Hu Jintao, o da Venezuela, Hugo Chávez, e o líder da Coréia do Norte, Kim Jong-il, enfim, uma turma que falou mais do que produziu notícias. Não são “gente que faz” como Adolf Hitler, em 1938, e o aiatolá Khomeini, em 1979, para citar dois dos cretinos de marca maior que já participaram da competição. George W. Bush é bicampeão nesse troço.

Mas nem sempre, no final, o mal vence. Albert Einstein levou o título de Personalidade do Século 20. Ano passado, deu empate entre Bono Vox e Bill Gattes, mas também não se trata, necessariamente, de uma competição entre os maiores chatos do mundo. Se fosse esporte nacional aqui no Brasil era capaz de em 2006 ganhar o Lula, o Gabeira, o Rogério Ceni ou o Maluf. O troço não tem mesmo nenhuma lógica, a não ser escolher alguém em evidência no noticiário para vender revista, muita revista. Responda rápido: o que rende maior tiragem, uma capa com Hu Jintao ou essa que chegou às bancas com espelho e tudo na ilustração para refletir “você” no lugar da Personalidade do Ano?

Não vejo nada de errado na estratégia da “Time”, eu mesmo já inventei coisas piores para garantir meu emprego. O que me preocupa – e muito – é o discurso sobre o qual tal estratégia de marketing está montada. Essa história de dizer que o leitor venceu o jornalismo e assumiu o comando dos meios de comunicação modernos – “Você, e não nós, está transformando a era da informação”, afirma o editor da “Time” –, essa idéia de dar voz a quem não tem o que dizer, de entregar as ferramentas de produção a quem não sabe fazer, dá nisso: ninguém fez nada que mereça destaque em 2006. Destaca-se, então, a possibilidade de fazer. Vamos lá, qualquer estúpido é capaz.

Acho ótimo que todo mundo possa dizer o que pensa em rede planetária, danem-se as normas gramaticais e os bons costumes, mas daí a exaltar a banalização do raciocínio como sintoma benigno da inclusão digital, oxente, acho que o leitor tem razão: estou ficando velho mesmo. Mas não do gênero que vai ficar brigando com o estado de coisas a que chegamos. Parabéns pra “você”, personalidade do ano! Uhuuuuu!

De qualquer forma, tomara que você fature o bicampeonato em 2007. Se isso acontecer, provavelmente alguns tostões respingarão em mim.

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