Slavia x Sparta: que time é teu?

Praga (República Tcheca) – Um dos destinos preferidos do viajante pela Europa, Praga é uma daquelas jóias do antigo bloco comunista, que reúne o velho e o novo – razão que transformou o Leste Europeu em coqueluche. Se você procurar, vai encontrar muita coisa sobre a capital dos tchecos. Mas ninguém vai falar da rivalidade entre o Sparta e o Slavia.

Mas é claro que estou falando em futebol, oras! Toda cidade onde o esporte contagia seus habitantes merece uma rivalidade clubística, e o país que revelou o goleiro Cech, os meias Poborsky e Rosicky, e os atacantes Koller e Nedved merece a minha consideração. Só não decidi ainda qual das duas camisas eu levo para casa: a do Slavia, alvirrubra (mesmas cores do Inter), sai na frente por razões óbvias.

Uma pesquisinha vagabunda trouxe alguns detalhes que podem equilibrar as coisas. O Slavia sempre atraiu a sociedade letrada, a elite intelectual de Praga. Já o Sparta sempre teve sua imagem ligada à classe trabalhadora. Por essa razão, esta foi a equipe apoiada pelas autoridades comunistas – o que monopolizou as conquistas locais durante muitos anos. Só nos últimos anos o Slavia reagiu, tentando recuperar seu prestígio – em 2008, a equipe disputa a fase de grupos da Champions League.

Enfim, nos próximos dias eu decido com que roupa eu volto.

Fria no hoquei – Uma dica importante nao so para evitar aqueles e-mail indesejaveis, mas tambem para quem estiver a passeio em qualquer cidade do mundo: nunca acredite na primeira informacao que encontrar. Um dia antes de acompanharmos Suecia e Dinamarca num barzinho simpatico em frente ao Tivoli, em Copenhague (mais logo abaixo), Lello Lopes e eu seguimos a dica de um informativo semanal gratuito: um simpatico jogo de hoquei no gelo.

Apaixonados por esportes, decidimos acompanhar o Herlev Hornets numa partida eletrizante pela primeira divisao dinamarquesa. Tudo que sabiamos era o nome da equipe e o endereco do ginasio – Herlev fica a uns 10km do centro de Copenhague, da para chegar facilmente atraves do S-Tog. Enfim, era a “periferia” de Copenhague. Convem ressaltar que esse tipo de periferia nao lembra em nada as nossas. Parecia Alphaville – e olha que em Alphaville nao existem trens tao bons quanto o S-Tog.

Enfim. Imaginavamos que o “ginasio” ficava proximo a estacao. Nao ficava. Apos caminhadas desorientadas, optamos por um onibus simpatico – inclusive, ate agora nao sabemos se pagamos a quantia certa para usar tudo isso. Longas quadras ate uma area pacata e arborizada, lembrando aqueles campi universitarios de cinema. A movimentacao nula pelos arredores nao inspirava qualquer evento esportivo pelos arredores. Quase uma hora e meia depois, encontramos o logradouro: um ginasio humilde, como o do colegial, com capacidade para umas mil e poucas pessoas. Na quadra, uma molecadinha treinava hoquei. Dois ou tres pais corujas assistiam aquela movimentacao.

Tudo bem, vai. Ao menos descobrimos uma Copenhague inexistente em qualquer guia turistico.

Boteco-balada – Nao imaginavamos que, ao escolher um barzinho simpatico para acompanhar Suecia e Dinamarca no ultimo dia oito, pelas Eliminatorias da Euro, teriamos um desfecho tao divertido. O lugar lembrava um pub ingles, com mesas e cantos escuros e algumas TVs espalhadas. Optamos por uma area maior, bem perto da tela – se bem que nao demorou nada para trocarmos de mesa e ficarmos ao lado de quatro loirinhas muito simpaticas.

A partida, um chato 0 a 0, teve alguns lances de perigo, culminando com excelentes defesas de Sorensen – no calor do jogo, foi logo rebatizado para Jesus. Afinal, so ele salvou. No segundo tempo, Ibrahimovic abriu o placar para os suecos, provocando gritos e gestos exagerados de alguns bobos vestindo azul e amarelo. “Mas ele estava impedido”, concluimos, pouco antes do arbitro anular o gol. Gritamos todo tipo de palavrao em portugues, exigindo silencio das bestas. Foi quando uma das loirinhas (a mais simpatica) nos disse que, em dinamarques, gritar “chupa” significa, de algum jeito, algo favoravel. “Gritem booo”, sugeriu. Ah, nao tem como, vai.

Ao fim do jogo, meio mundo deixou a casa. As garconetes (tao bonitas quanto as mocas ao nosso lado) comecaram a tirar mesas e cadeiras. Algumas saidas se fecharam, e um DJ se instalou no ambiente. Em menos de uma hora, eramos definitivamente os unicos com a camisa da Dinamarca: todos os demais estavam preparados para uma grande discoteca. “Essa nao! O boteco virou balada!”. Mesmo esmulambentos, decidimos ficar mais um pouco. Bela escolha: um desfile de gente esquisita nessa festa estranha, que valeu como pequena aula de antropologia nordica. Ah, sim, tinham as dinamarquesas.

Entao as belas mocas ao nosso lado foram embora. E a mais simpatica veio nos cumprimentar, emendando com a frase mais simpatica que ouvimos ate agora: “thank you for support us tonight”. Go, Daenmark!

DataNara esportivo – Tanto eu quanto Lello acreditamos que nosso passeio ficaria melhor ao lado de mais amigos. Entre eles Narazaki: o japones sempre e lembrado a cada refeicao, quando um de nos repete a pergunta que ja se fazia dentro do Kasato Maru, navio que transportou os primeiros imigrantes ao Brasil, ha quase cem anos: e entao, ja pagou?

Mas enfim. Seu nome tambem serviu de inspiracao para nosso servico mequetrefe de estatisticas de viagem. E na Suecia, ampliei de uma so vez dois numeros esportivos: cidades olimpicas e palcos de finais de Copa do Mundo.

O estadio olimpico dos Jogos de 1912, em estado de conservacao espetacular, serve como casa para o Djurgårdens IF Fotbollförening, o popular DIF. Com ele, sao seis sedes visitadas: Paris (jogos de 1900 e 1924), Amsterda (1928 – alias, a visita ao estadio-museu ficara pra proxima vez), Berlim (1936), Munique (1972) e Barcelona (1992). Ah, sim, com a nossa proxima escala, serao sete cidades olimpicas. Alias, sera simplesmente onde essa brincadeira surgiu.

Por fim, uma rapida, porem inesquecivel passagem pelo Räsunda (ja em Solna, um pouquinho ao noroeste de Estocolmo) colocou na minha lista o estadio do primeiro titulo mundial brasileiro. Ao lado dele, soma-se o Centenario, em Montevideu (1930), o Olympiastadion de Munique (1974), o Monumental de Nunes em Buenos Aires (1978), o Santiago Bernabeu em Madri (1982), o Saint-Denis na Franca (1998) e o Olimpico de Berlim (2006). Para essa lista chegar a oito, basta eu conseguir fazer algo extremamente molezinha: visitar o Maracana. Verdade, por enquanto eu so passei na frente…

André Marmota tem uma incrível habilidade: transforma-se de “homem de todas as vidas” a “uma lembrancinha aí” em poucas semanas. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (4)

  1. Petr acabou de me dizer para não usar o nome do grande Sparta Praha em vão! E Milos Stepanck, está nervoso por vc ter errado a cor do Slavia, não é vermelho, é grená. E eu nada tenho a ver com isso, apenas traduzi seu texto para eles. Tudo foi amenizado com uma Pivo, e um bom jogo de hóquei, em campo neutro!

    (sensacional post)

  2. cara, sem chances…
    sou sua fã ardorosa..rsss
    amei o post…imaginei a cena do “pedidos em busca do jogo de hoquei”,…dei boas gargalhada,
    eu ia armar barraco…
    que a viagem continue e que as louras permaneçam…com vcs….
    bjão!

  3. Eu ouvi dizer que, assim como em parintins a coca cola tem latinhas azuis e brancas para conquistar os caprichosos, em Praga a lata dos spartanos é exclusivissima, para que fidelidade ao clube não seja abalada tomando algo que está em lata grená e branca. Vcs fotografem essa latinha exclusiva se encontrarem! Otima viagem! (ah, e dizem que a cidade tb é dividida em bairros slavia x sparta… tomem cuidado e usem cores neutras tipo.. alvo e negro ;))

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