Pausa para um momento triste

Pelotas (RS) – Desculpem, mas preciso usar esse espaço novamente para um momento-família. A foto a seguir você já viu aqui esses dias.

Ali, entre a minha mãe e eu, está a Greta Guilhermina Augusta Peter da Rosa (carinhosamente chamada de “Vó Margarida”), em uma foto da comemoração de seus 90 anos, há quatro meses. Semanas antes dessa imagem, ela passou por uma complicada cirurgia, que a deixou bastante debilitada. As pequenas conquistas desse período de recuperação se perderam no primeiro dia do ano: ela não abriu seus olhinhos na manhã de segunda, e muito fraquinha, foi levada para o Hospital de Clinicas, onde todos confiavam em uma melhora rápida. Eram duas da manhã desta terça quando descobri que 2006 ainda não tinha terminado definitivamente.

Estou como se meu primeiro de janeiro não tivesse acabado. Não peguei no sono na última madrugada, pois já ia levar minha mãe no aeroporto – ciente da situação, ela embarcaria sozinha às cinco da manhã. A notícia chegou umas três e quinze, quando os olhos marejados da minha mãe pareciam pedir “vem alguém comigo”. Em mais quinze minutos, já tinha comprado a minha passagem e ajeitado uma mochilinha de roupas. Uma viagem para o Rio Grande em ritmo de final de ano, mas ao contrário dos tempos áureos, foi de um jeito que eu jamais gostaria. São mais de onze horas da noite, e tudo que eu dormi desde a manhã pós-reveilão foi no Embaixador leito das oito e meia, entre Porto Alegre e Pelotas.

Mas ainda é possível enxergar algumas coisas, hmmm, boas, vai. Fiquei com a impressão de que a crise aérea foi uma intervenção divina . Nunca foi tão rápido e fácil comprar uma passagem, fazer o check-in, embarcar (e não atrasar) e chegar a Porto Alegre – evidentemente, o “fácil” aqui diz respeito ao processo.

Ao pisar no Salgado Filho, não tive como esquecer uma vez quando voltava ao lado da vó, em maio de 2001. Ela havia passado alguns dias em casa, incluindo a semana santa, e eu fui o responsável por leva-la de volta. O desembarque ainda era no terminal antigo, e a esteirinha de bagagem era ridícula diante de tantos passageiros. Enquanto a vó aguardava confortavelmente num banco, fui atrás das nossas malas. A besta aqui segurou apenas uma alça da bolsa dela… O zíper abriu, e metade das roupas da vó fugiram pela esteira. Enquanto subia, pulava e tentava resgatar as coisas, a gauchada medonha se perguntava: “mas bah, de onde saiu esse bagual?”.

Em pouco mais de quatro horas, já estávamos na Comunidade Luterana Bom Pastor, a simpática igrejinha do alto de uma colina, em algum lugar entre Capão do Leão e Morro Redondo, que pode ser vista a partir do quilometro 30 da BR-293, em direção a Bagé. Onde meus pais se casaram e fui batizado. Onde havia pisado pela última vez no sepultamento do meu avó, em julho de 92. Acredito que nunca esse recanto viu tanto calor quanto nesta terça-feira. Clima que deixou a tarde mais triste – e até mesmo cruel com os sete filhos, quatro irmãos, boa parte dos 16 netos e 18 bisnetos, além de outros parentes e amigos que estiveram ali, dando o último adeus a Vó Margarida.

Claro que eu preferia ter me despedido, mas também voltado, beijado, abraçado e papeado muitas outras vezes, mas esses 1500km tornaram nossa relação diferente dos padrões avós/netos, mas eu posso dizer que tive o privilégio de viver ao lado dos quatro pais dos meus pais. Uma benção ainda maior com a vó Margarida, a última em partir, que chegou aos noventa anos e vinha sendo, nos últimos quinze anos, nossa maior razão em atravessar o sul do pais.

Mas enfim, Deus sabe o que faz, e agora ela está descansando num lugar maravilhoso, enquanto nós continuamos aqui, carregados de saudade e com mais uma lição para seguirmos em frente e aproveitarmos nosso curto período no mundo dos vivos.

E antes que eu volte a pisar em solo paulistano nesta quarta-feira, eu pergunto: quando será que 2006 vai acabar?

Comentários em blogs: ainda existem? (11)

  1. Andre,
    Entendo bem como deve estar se sentindo.
    Ja perdi e de meus avos, por parte de mae, e foi mto sofrido isso!

    Mas, eh a lei da vida. Um dia, mais cedo ou mais tarde…sera eu, sera vc…
    Nao temos, nao podemos, nao conseguimos controlar isso.

    O que fazer?
    Olhar pra cima, agradecer a Deus pelos momentos bons, e ruins tambem.
    E tocar a vida, trabalhar, estudar, namorar, escrever, dirigir, e dirigir, e redigir.

    Fica na paz, mano…
    Se precisar ai de alguma coisa…da um berro.

    Abracos!

  2. Ah, André. Feliz finzinho de 2006, então. Ele vai acabar já já. Espero que antes do Carnaval.

    O meu já acabou. Meu ano sempre acaba no dia de Natal!

  3. Ei, André. Talvez você já deva ter ouvido isso… Existe umas palavrinhas do Guimarães Rosa que conseguem nos aconchegar nesses momentos: “As pessoas não morrem, ficam encantadas”. Acredite nisso!
    Beijos

  4. avós são bençãos divinas, grandes alegrias que ficam observando a gente desde pequenos, dando-nos um conforto inexplicavelmente aconchegante. Quando a gente perde isso, nada substitui. Então, querido André, seu 2006 pode acabar no calendário, mas nunca vai acabar na memória. E essa memória vai sempre te trazer uma saudade imensa, que, com o tempo — esse mesmo, que nunca acaba –, vai ficando uma saudade boa, tão aconchegante quanto colo de avó. Fique bem, promete? A gente nem se conhece pessoalmente, mas eu já me preocupo com você! Independentemente de qualquer coisa, seu 2007 vai ser bom. Confie. Bjos

  5. André querido, fique bem! Acabei de ficar sabendo, deixei um recadinho pra vc no celula. Me liga quando puder? Muita força, viu? beijo!

  6. Eu entendo essa dor, ou acho que entendo… Mas meu entendimento ou não simplesmente não importa. Só quero que saiba que eu sinto mto, e que estamos aí para o que for preciso!

  7. Sinto muito, André, sinto muito. Como você – e muitos que já comentaram aqui – também já perdi minhas avós e foi muito doloroso mesmo. Mas a certeza que elas estão, como você disse, descansando num lugar melhor me conforta também.

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