Minha experiência no basquete de areia

Eu nunca disse isso a ninguém, mas eu passei toda minha infância praticando basquete de areia. Era difícil, afinal todos os meus amigos jogavam futebol. Apesar dessa monocultura estúpida, eu realmente acreditava que as minhas habilidades, somado ao meu jeito mais lento de ser e viver, era perfeito para o basquete de areia. Assim que cheguei à adolescência, encontrei um grupo de aficcionados e passamos a treinar juntos.

Uma troca constante de figurinhas com outros praticantes no país e em nações vizinhas foram suficientes para avaliarmos nosso potencial competitivo, participando de campeonatos. No auge da nossa forma física, chegamos a disputar um torneio sul-americano, representando o Brasil! Obviamente, levamos pauladas sucessivas de países como o Suriname, campeão mundial da modalidade. Lá o basquete de areia faz parte do cultura local.

De repente, fomos surpreendidos por uma notícia muito bacana. Em 2002, a Odepa, Organização Desportiva Pan-americana, escolheu o Rio de Janeiro como sede dos Jogos Pan-americanos de 2007. Como o basquete de areia faz parte do programa olímpico, o país poderia montar sua seleção brasileira e participar dessa grande festa. Não é o máximo? Bom, quase.

Veio a CBBA! – Para que qualquer país tenha algum representante no Pan em qualquer modalidade, esta precisa existir, aos olhos do Comitê Olímpico Brasileiro, sob a forma de uma confederação. Para que esta possa existir, é preciso ao menos duas federações estaduais filiadas a ela. No caso do basquete de areia, não havia sequer uma associação instituída: eram apenas alguns amigos praticantes. Como resolver isso?

Depois de alguns contatos, convenceram um rapaz de Goiás, o Mangaba, para reunir alguns praticantes do basquete de areia para constituir uma federação. O Mangaba sempre foi um jogador medíocre e desinteressado, por isso estranhei quando ele aceitou prontamente a empreitada. Só depois um colega me contou as razões que o convenceram: “disseram a ele que, quando o presidente da futura confederação for eleito, ele será responsável pela administração da verba proveniente da Lei Agnelo-Piva, de incentivo ao esporte, que virá com certeza”. Espertinho, hein?

Ingenuamente, nem dei bola para o olho grande do Mangaba. Tinha certeza de que o Rochinha, nosso líder nas mais loucas e arriscadas aventuras pelas américas e um verdadeiro batalhador em prol da nossa modalidade, seria facilmente escolhido por todos os atletas federados. Provavelmente não haveria candidato capaz de superá-lo em uma eleição. Como fui tolo. Tempos depois criação da FEBEAPA (Federação de Basquete Especial de Areia Paulista), da FEGOBAP (Federação Goiana de Basquete de Praia) e, consequentemente, da CBBA (Confederação Brasileira de Basquete de Areia), algo impressionante aconteceu: o pai do Mangaba foi eleito presidente!

O fim de um sonho – No primeiro encontro que tive com o Rochinha depois da inexplicável eleição, ele desabafou. “Lembra do nosso plano de criar centros de desenvolvimento, categorias de base, planificações das seleções, garantir material de qualidade… Agora eu não sei como vai ser, o Mangaba é um aventureiro, e o pai dele não consegue nem bater uma bola na quadra”, resignou-se. Desconfiado do trabalho da nova confederação, decidi me afastar de todos.

As notícias chegavam por e-mail. Mangaba assumiu a função de coordenador, diretor de seleções e técnico das seleções masculina e feminina. Gastou uma fortuna num centro de treinamento em Catalão. Montou seleções permanentes, mas no começo do ano alguns jogadores abandonaram a equipe, insatisfeitos com os desmandos e as limitações do Mangaba. Seu pai contratou novos técnicos, mas botou Mangaba para recrutar atletas para a seleção pela Internet. Nossa equipe de basquete de areia no Pan, constituída de qualquer jeito, seria um fiasco garantido no Pan. E o futuro da modalidade, que tinha tudo para crescer nas mãos de gente apaixonada e competente, vai levar longos anos para se tornar minimamente competitivo – levando em conta algo ainda mais improvável: uma nova mentalidade de seus dirigentes.

Historinha fictícia – Acredito que tenha ficado claro, desde a primeira linha: os parágrafos acima não passam de uma tremenda invenção. Nunca tive porte atlético, e não conheço ninguém capaz de controlar uma bola de basquete na areia, ainda mais em uma praia de Goiás. De qualquer forma, eu não me surpreenderia se ouvisse falar em alguma história parecida em nosso país que, apesar de sonhar em se tornar potência olímpica, está repleto de cartolas pouco preocupados com isso.

Sem querer fazer nenhum julgamento, nem mesmo comparar qualquer situação irreal com algo mais palpável, a seleção feminina de hóquei na grama entrou em greve no começo do ano, alegando problemas de relacionamento com o treinador, que era filho do presidente. Jogadoras chegaram a ser convocadas pelo Orkut antes do Pan. O resultado não poderia ser outro: logo na estréia, uma acachapante derrota por 21 a 0 para a Argentina, em jogo marcado por dezenas de chacotas nas arquibancadas. Favortitas, “las leonas” argentinas terminaram com o ouro. As brasileiras, com 53 gols sofridos. Nenhum marcado.

O poder da TV – Pode parecer a coisa mais improvável do planeta, mas uma busca vagabunda por “basquete de areia” no Google rende pouco mais de mil resultados, sinal que a modalidade não é tão improvável assim. De qualquer forma, quando ouvi pela primeira vez, era um esporte fictício, embutido em uma frase genial de Mauro Beting. “Se a Globo inventasse o basquete de areia e vendesse como faz todo domingo, faria sucesso”.

Sobre o tema, qualquer hora dessas eu termino de ler “A Virada Olímpica”, relato do executivo de marketing Michael Payne. O britânico diz como conseguiu transformar as Olimpíadas, um evento marcado por dois poderosos boicotes no início dos anos 80, em uma marca forte e lucrativa – basicamente, direitos televisivos seduzindo patrocinadores, elemento embutido na frase do Mauro Beting e uma das maiores reinvidicações de qualquer modalidade esportiva (exceto o futebol, claro).

Comentários em blogs: ainda existem? (8)

  1. Nossa, que triste. Isto é quase um daqueles testemunhos evangélicos vendidos em cds. Só faltou dizer que aceitou Jesus no final.

    Sem falar que se tivesse usado aspas no “‘nem dei bola’ para o olho grande” seria um ótimo trocadilho!
    ehehheheh

  2. Seria interessante o contato da bola com o solo. Tipo, a bola cai e… todo mundo se joga ao chão para pegá-la? Ao menos ninguém se machuca.. :P

  3. fugindo de mim mesma, dei uma paradinha no agravo para ler seu post… é hilario, se o assunto não fosse sério…
    como sempre, eu começo acreditando em tudo que vc escreve..rss , isso é continuo acreditando… ah,me perdi…ciao

  4. Seu blog está cada vez melhor!

    Adorei o sistema de criar uma placa de rua Paulistana. Muito bom! Acabei de linká-lo no meu “Justale Momentos”, onde insiro minhas poesias e fotos.

    Parabéns pelo blog!

  5. Ai! Que horror! Estava tentando imaginar como se quica uma bola de basquete na areia… aff…

    Mas essa história do hoquei na grama é mesmo uma tristeza.

  6. Historia bem triste, mas eu tenho 1 problema, estou fazendo um trabalho sobre basquete de areia e nao achei nada, alguem sabe um site dizendo regras do jogo, tamanho da quadra essas coisas??
    já procurei em tudo q é site, vou ter q ir na biblioteca amanhã…..

Vai comentar ou ficar apenas olhando?

Campos com * são obrigatórios. Relaxe: não vou montar um mailing com seus dados para vender na Praça da República.


*