Fomentar as mesmas panelinhas só trará resultados nelas mesmas

Você já se viu na situação de encontrar uma ferramenta nova, começar a usá-la, descobrir tudo o que ela tem a oferecer e, ao falar dela com entusiasmo para alguns amigos, ouve de volta um “demorou, isso aí eu já conhecia há tempos!”. Foi exatamente o que aconteceu comigo ao descobrir, recentemente, o Last.fm.

Sim, eu sabia da existência deste site de relacionamentos cujo pano de fundo é a música. Deve ter uns cinco anos, aproximadamente. Minha refração diante de mais um serviço online com cadastro de perfil, gerenciamento de login e senha, conexões com outros usuários… Enxergava apenas a mesma dinâmica de outros serviços, sem perceber uma utilidade capaz de me convencer a investir meu tempo ali. Talvez você não só respeite essa explicação, como também se identifique com ela.

Enfim, só quando passei uma tarde com uma amiga pude entender a dinâmica do Last.fm: não se trata apenas de um registro de músicas ouvidas, mas sim um engenhoso sistema de recomendações baseado na simples troca de preferências com outros usuários. É de uma simplicidade maravilhosa: se eu gosto de ouvir a banda X, o algoritmo por trás do sistema apresenta para mim o artista Y. Eu nem preciso gostar ou não das mesmas músicas dos amigos. Aliás, nem preciso estabelecer conexões diretas com eles: posso “invadir” playlists de qualquer pessoa, inclusive quem nunca vi, para comparar preferências e descobrir novos sons. Por fim, em um ou dois cliques, posso deixar o sistema oferecer recomendações e me surpreender com elas.

Na mesma época, assisti à conferência do pesquisador Ethan Zuckerman no TED. Em seu discurso, sobre os “pontos obscuros do planeta” perante à mídia, ele faz uma consideração que, de tão óbvia, poucos percebem. De fato a infra-estrutura que compõe a Internet permite que, em poucos cliques, tenhamos acesso a qualquer conteúdo que desejarmos. No entanto, limitamos nossa relação a contatos que escolhemos, normalmente pessoas com preferências parecidas. Zuckerman revela outro dado: tanto no Brasil quanto em alguns países com grande representatividade da população na rede, mais de 90% dos conteúdos noticiosos que circulam representam acessos a sites domésticos.

Lembrei disso tudo durante um encontro que tive com um grande amigo, bastante fatalista diante do aquecido mercado das mídias sociais. A percepção dele, diante do barulho, é a de que “tem muita gente falando, mas poucos ouvintes – isto quando não são os mesmos”. Ele vai além: a ilusão que temos de que “se minha mensagem é repassada por pessoas que mantém uns mil contatos, isso não significa uma audiência de dois mil, afinal é uma rede e muitos destes se conhecem também”.

Realmente, se observarmos nosso próprio comportamento, são raros os usuários curiosos, capazes de “furar suas bolhas” e, num clique em algum trending topic, “invadir” conversas quaisquer e perceber o que outros grupos estão falando sobre assuntos que podem ser tão interessantes quanto aqueles dos seus contatos. Não demorou para imaginar que, em pouco tempo, algum nerd competente vai identificar essa necessidade e criar um “Last.fm em formato texto”, capaz de abrir cortinas para conexões que estão bem a frente – fechadas por conta de dificuldades culturais, do idioma, entre outras.

Até lá, talvez fosse interessante explorar novos fluxos em ambientes diferentes. Assim, poderíamos questionar com maior facilidade a idéia de que “fomentar as mesmas panelinhas só trará resultados nelas mesmas”.

(Publicado originalmente no IDGNow)

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