Disque-Facu!

Aos dezenove anos, há dois sem estudar, ela decide acatar a pressão paterna e ir para a universidade. Mesmo sem trabalhar, passou tanto tempo aproveitando a mesada que perdeu os vestibulares mais importantes do ano. Restavam poucas opções, até que uma propaganda na TV salvou seus planos.

Era um comercial do Disque-Facu! Bastava ligar e resolver tudo rapidamente, como naquela velha piada:

– Ah, desculpa, foi engano.
– Que engano o quê! Sua matrícula já foi aceita, e já estamos enviando o boleto para o seu endereço!

Mas não era tão ridiculamente simples assim, como ela descobriu ao tirar o telefone do gancho.

– Disque-Facu, Armando, boa tarde!
– Oi, eu perdi os vestibulares no final do ano passado e queria muito entrar na faculdade…
– Ah, mas é muito simples. você escolhe o curso desejado, enviamos um e-mail para você com as instruções sobre o processo seletivo eletrônico e, em pouco tempo, você já estará em uma de nossas salas de aula!
– Puxa, facinho!
– Exatamente. Convém lembrar que nossa ligação está sendo gravada, além de ter um custo de cinco reais por minuto. Podemos prosseguir?
– Hmmmm… Ah, vamos, vai.

Seguiram dez minutos de interminável cadastro, até o ponto mais importante da ligação.

– Senhorita, qual curso deseja se inscrever?
– Ah… Bom, que curso você tem aí?
– Vejamos… Temos vagas em administração, marketing, comunicação social com ênfase em publicidade e propaganda, administração com ênfase em marketing e turismo, comunicação e administração com ênfase em jornalismo, publicidade e propaganda com ênfase em administração e marketing…

Mais dez minutos pensando.

– Ei, você pode falar de novo aqueles primeiros, por favor?

O atendente repetiu a relacão de cursos. Ela optou por algo envolvendo publicidade e propaganda.

– Confirmando, curso número 638. A taxa para participação no processo seletivo é de setenta e cinco reais. Você pode pagar com boleto bancário, débito em conta, cartão de crédito ou desconto na conta telefônica.
– Tá, eu vou querer esse último. É meu pai que paga mesmo…
– Perfeitamente. Você deverá receber em seu e-mail as instruções para o processo de selecão eletrônico. Obrigado por ligar ao Disque-Facu! Boa tarde!

Minutos depois, lá estava em sua caixa postal um e-mail timbrado, contendo alguns dados pessoais e o enunciado de uma redação. Dizia algo como “não sei o quê não sei o quê seja bem vindo, não sei o quê não sei o quê responda esta mensagem, não sei o quê não sei o quê linhas sobre a interrelação da economia globalizada”. Mas ela não sabia exatamente o que era uma interrelação. Escreveu cinco linhas sobre qualquer coisa e enviou o e-mail.

Sem qualquer esperança de ser aprovada nesta prova, foi surpreendida dias depois com um novo telefonema.

– Boa tarde, aqui é do Disque-Facu, informamos que a senhorita Verônica Santos foi aprovada no curso 638, publicidade e propaganda com ênfase em administração e marketing. Parabéns, hein?
– Nossa! Jura? Ai meu Deus, não acredito!!! Mãe!!! Pai!!! Entrei na faculdade!!! Êêêêêê!!!
– Isso mesmo, senhorita. Ah, sim, aproveito para informá-la de que esta ligacão está sendo paga por você, ao custo de cinco reais o minuto, além de estar sendo gravada. A matrícula para este curso é de oitocentos e setenta e nove reais e quarenta e dois centavos, e a primeira mensalidade custa mil setecentos e cinquenta e seis reais. Podemos prosseguir?
– Ah, tá. Só um pouquinho? Paiêêêê!!!!

Alguns longos minutos até o Doutor Santos atender a ligação e entender o que estava acontecendo.

– Como disse? Mas que tipo de brincadeira é essa? Mas nem por um decreto eu vou desembolsar tanto dinheiro. Minha filha não irá para faculdade alguma. Passar bem.
– Espere, senhor! Um instante! Nosso sistema acusa um acúmulo de pontos em nosso programa de fidelidade. A aluna terá direito a sessenta por cento de desconto em suas mensalidades. É uma oportunidade única para sua filha estudar amanhã mesmo!
– Mmmhhh… Sessenta por cento…

Na semana seguinte, ela já estava com o rosto pintado, num movimentado farol da capital, pedindo dinheiro para tomar cerveja ao lado dos colegas veteranos. Daqui a quatro anos ela terá um belo diploma, e estará apta a conquistar uma vaga no concorrido mercado de trabalho. Esse Disque-Facu, hein…

André Marmota acredita em um futuro com blogs atualizados, livros impressos, videolocadoras, amores sinceros, entre outros anacronismos. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (10)

  1. Pior que isso: vai estar apta para fazer uma pós e, logo, dar aulas para universitários. Já pensou?

    Mas engraçado… a reação dela ao passar na faculdade foi algo bem semelhante às minhas aprovações nos dois processos seletivos da FCL, seja Faculdade ou Fundação! hahah

  2. É o ensino particular brasileiro: Os professores fingem que ensinam e os alunos fingem que aprendem, comprando seus diplomas em várias 48 ou 60 prestações.

    Eu bem sei como é isso.

  3. Pior que o disque-facu só mesmo o pessoal que abandona a faculdade no meio do caminho pela ilusão de começar a trabalhar logo e ganhar dinheiro. Um dinheiro que vai sempre ser o mesmo se a pessoa não se aperfeiçoar. Mas enfim. Sua alma, sua palma.

  4. É, a faculdade para a qual estou indo agora não sei se chega a se enquadrar nisso, mas que o atual sucateamento do ensino tá uma lástima, isso está. Permite que surjam Unishits a cada quarteirão.

  5. Muito engraçado, Marmota. Coloquei no del.icio.us. Retrata uma realidade meio desesperada de um monte de gente que estaria melhor se o sistema brasileiro recompensasse bem aos que não têm diploma universitário mas desempenham trabalhos relevantes. Aqui nos EUA, um mestre de obras ganha mais que um rocket scientist, podes crer.

  6. Hahahaha! Isso tá parecendo a aprovação (???) do meu irmão na Unip. Fez o vestibular no sábado, fez matrícula na segunda e na terça estava dentro da sala de aula (que, por acaso, fica no prédio da Casseta)…

  7. Se eu tivesse dinheiro, bem que dá vontade de ligar pra uma dessas. “Consiga um diploma da maneira mais fácil possível”! Tô nessa! Hehehe

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