Da arte de compartilhar a vida

Por Carla Regina, do Enquanto Seu Blog não vem

Cena 1: No restaurante que eu costumo almoçar há vários cartazes pendurados com a seguinte frase: “faça amigos, compartilhe sua mesa”. Isso é motivado pelo fato de que várias pessoas almoçam sós em mesas para dois, o que reduziria pela metade o número de pessoas servidas pelo restaurante. Não que as pessoas fiquem muito sós, porque a dona do restaurante, pessoa muito simpática, acaba sempre arranjando companhia para quem está só ou para quem está em pé com o prato na mão.

(Tudo bem que ela até hoje não me colocou para almoçar com o moço bonito que vai lá todos os dias, mas eu sei que não foi por mal. Eu tento acreditar, pelo menos.)

Cena 2: Quando eu volto da faculdade passo em frente a um ponto de ônibus. Lá ficam várias pessoas, sentadas, esperando a lotação, enquanto vários carros passam só com o motorista ou, no máximo, uma carona. Dependendo de quem está no ponto e do meu humor, eu paro e ofereço carona. O curioso é que na comunidade do Orkut da faculdade já foi lançada a idéia de se organizar um “ponto de carona” ali – coisa que seria inclusive ecologicamente correta – mas parece que as pessoas vêem os próprios carros como casulos, o máximo de espaço privado que alguém poderia ter.

Cena 3: No ponto de ônibus da Linha Turismo, em Curitiba, eu fui perguntar informação para um garoto que também estava sozinho. Descobri que ele é mexicano, estudante de literatura, filho de um dos fotógrafos bam-bam-bam da Cidade do México e nós somos amigos de trocar postal, música, falar no MSN até hoje. Ah, ele me manda material fotográfico de vez em quando. (Por exemplo, filme Agfa, que há muito tempo não existe mais aqui).

Daí eu me pego pensando… O que eu mais gosto nesses momentos de compartilhamento é que você sempre tem uma surpresa. Eu já sentei com a gerente de RH de uma grande empresa que me estimulou a seguir com a faculdade numa hora que eu estava desanimada. Eu já peguei carona e ouvi a música que acabou se tornando uma das músicas que marcaram a minha vida. Eu já emprestei um livro e ganhei na volta um marcador que me abriu vários caminhos. Eu já troquei sabonetes, chás, fotografias, CDs, endereços, telefones, e-mails. O inusitado dessas situações sempre me gerou “sustos”. Alguns mais outros menos saudáveis. Mas sempre aprendi.

Aprendi principalmente que se a gente se enclausura, se fecha no nosso mundinho seguro, acaba perdendo muito do que a vida tem para trazer. É mais complicado se abrir ao desconhecido dos outros, mas pode trazer belas amizades e boas surpresas.

Enquanto Marmota tenta, a toda força, libertar-se de sua clausura, a série Colônia de Férias apresenta textos gentilmente preparados por seus amigos – que de tão bacanas, certamente conhecerão ainda mais amigos por essa vida.

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