Berlim. Ou seria Istambul?

Se um dia você tiver a oportunidade de conhecer Berlim, essa pequena porção de terra com muita história contemporânea para contar, não esqueça dos pontos fundamentais e imperdíveis. Anote-os e localize-os na indispensável rede de transportes: Reichstag, Portão de Brandemburgo, Unter den Linden, Berliner Dom, Memorial do Holocausto, Tiergarten, Coluna da Vitória, Checkpoint Charlie, Alexanderplatz, Potsdamer Platz, East Side Gallery e as lojas da Kurfurstendamm (a popular Ku’Damm).

Com um pouco mais de tempo, porém, não esqueça de fazer um passeio diferente. Escolha uma terça ou uma sexta, acorde cedo, localize a linha 2, 7 ou 15 do U-Bahn e siga para a estação Kottbusser-Tor, em Kreuzberg. Caminhe alguns metros até encontrar a Maybachufer. De longe, você já vai encontrar uma movimentação exagerada: trata-se do Turkenmarkt, o mercado turco de Berlim.

Nos anos 60, a Alemanha vivia um momento bem diferente do atual: escassez de mão-de-obra no setor operário. A partir de um programa de trabalho para imigrantes temporários – os “Gastarbeiter”, os turcos chegaram. Era para ficar pouco tempo, mas os visitantes convidados decidiram ficar. Hoje são cerca de três milhões em todo o país. É a maior comunidade estrangeira na Alemanha, e isso não é pouco.

Em qualquer canto de Berlim, dá para perceber a influência turca no dia-a-dia dos alemães. A mais óbvia está no delicioso “döner kebab”, que lembra o nosso “churrasco grego”, mas é infinitamente melhor (o mais gostoso da cidade fica na entrada de um supermercado na Dircksenstrasse, na frente do Starbucks, em Hackescher Markt). Quem conhece um tiquinho a língua local se surpreende ao encontrar um grupo de jovens descendentes turcos no metrô, por exemplo: o dialeto deles é uma mistura de alemão, turco e algumas gírias próprias do grupo. É um outro mundo, que convive ainda com atos racistas dos nativos.

Mas enfim, tive a felicidade de conhecer o mercado turco de Berlim no dia oito de novembro, ao lado de Lello Lopes e da Natalia, esposa do Danilo (que nos deu essa imperdível indicação). Ao longe, se parece com qualquer feira livre que você já conhece. Um olhar mais atento traz cores, cheiros e gente diferente de tudo que já se viu. Tem frutas e verduras (algumas incomuns), carnes, queijos, vinhos, armarinhos, artesanatos, roupas, acessórios… Tudo muito barato, se comparado com qualquer loja da cidade – a tradicional pechincha turca também é produto de exportação.

O mercado é turco, mas os alemães já se sentem bem naquela “pequena Istambul”. Mas tem mais: comprei uma bolsa exótica artesanal de um italiano – que ainda arranhava um espanhol bem compreensível. Tive a brilhante idéia de comprar duas bandejas de plástico com motivos natalinos – no impulso do momento, sequer lembrava que passaria o dia inteiro (e o resto da viagem) carregando aquela coisa. Mas tava muito barato.

Entre outubro e novembro do ano passado, foram duas passagens por Berlim. Na primeira, ao lado dos amigos da Deutsche Welle, nossa concentração era num hotel bem bacana na Meinekestrasse, travessa da Ku’Damm, mesma rua do Hard Rock Café. Tive a impressão que o centro magnético daquela cidade ficava mesmo nos arredores da estação Zoologicher Garten, a mais importante da cidade – até a inauguração da Hauptbanhof esses dias, bem perto do Reichstag.

Naquela ocasião, o passeio mais marcante da turma foi em Gesunbrunnen, em uma das instalações da associação Berliner Underwelten, responsável pelos subterrâneos da cidade (inclusive os bunkers). Isso foi antes da associação descobrir a localização exata do bunker nazista – aquele do filme A Queda. Mas o de Gesunbrunnen lembra muito o do filme, que, diga-se, teve apoio histórico dessa associação.

Na noite mais inusitada, ao lado do Patrick e da Regina, tive meu primeiro contato com Kreuzberg – mas ao contrário da movimentação turca durante o dia, o bairro traz elementos boêmios, com bares muito simpáticos. Antes de terminar a noite num bar com motivos mexicanos, tivemos um encontro inusitado com um casal – com seu alemão fluente, Regina só soube que a moça era brasileira quando disse a ela de onde éramos…

Duas semanas depois, tive a felicidade de compartilhar mais momentos bacanas ao lado do trio Lello, Danilo e Natalia. Caminhamos bastante, mas paramos um bocado também: na frente da Universidade Humboldt, um monumento curioso lembra a queima de livros de Hitler, em 1933 (retratado em Indiana Jones e A Última Cruzada). Hoje, no lugar da fogueira, uma tampa de vidro e, lá embaixo, estantes vazias. Não precisa mais nada.

A diversão que se repetiu por dois dias foi a Winterwelt, feira temática de inverno que ocupava parte da Potsdamerplatz no inverno – com direito a um tobogã de gelo inofensivo, até eu fui.

Na última noite, tinha que rolar um jantar especial. A escolha foi um restaurante indiano muito bacana na Oranienburgerstrasse (também perto do Hackescher Markt), onde aliás não faltam sugestões para comer bem.

Nosso traslado entre Berlim e Potsdam, onde mora o casal, levava pouco menos de uma hora. Tínhamos duas opções: os trens regionais, saindo de Zoologicher Garten, e as linhas 1 e 7 do S-Bahn, com mais pontos de parada e algumas baldeações. Uma delas na estação Berlin Wansee – foi perto dali, em janeiro de 1942, que Hitler decidiu pelo extermínio dos judeus em campos de concentração.

Longe de ser apenas uma cidade-dormitório, Potsdam é um dos “passeios de um dia” preferidos dos turistas que vão a Berlim. Destaque para o pacato centro histórico, o enorme parque Sansoucci e os palácios dos arredores, além do Neue Garten, onde fica o palácio Cecilienhof, onde foi feita a Conferência de Potsdam, decidindo o futuro da Alemanha após a Segunda Guerra Mundial.

Em Berlim e Potsdam é possível esbarrar em história a qualquer momento. Mas mesmo em locais onde não há história alguma, é possível vivenciar uma. No dia nove de novembro, Danilo e Natalia convidaram a dupla brazuca para uma festinha no apartamento de um amigo norte-americano, do curso de alemão. O rapaz se despediria da turma para uma temporada no Tibete.

O lugar, perto da estação Rathaus-Steglitz, era o verdadeiro apartamento de Babel. Além do norte-americano e dos quatro brasileiros, havia um turco (torcedor do Fenerbahce), uma ucraniana, duas sul-coreanas (uma delas nem inglês sabia), uma colombiana e um chileno (que, obviamente, nos entenderam mais). Cada um foi falando de suas experiências pessoais dentro e fora de seus países. O grande momento da noite foi o quarteto sem ritmo batucando “Trem das Onze”, seguido da tradução em inglês.

Inesquecível até o fim: o papo continuou do lado de fora, na despedida, em voz alta – para azar de um alemão mal-educado (pleonasmo), que foi até a janela reclamar. Engraçado que ninguém entendia exatamente o que o pobre homem dizia…

Ah, sim, eu fui ao estádio olímpico. Mas como escrevi muito aqui (Berlim merece), vamos falar dele depois – ainda dá pra falar, não dá?

Comentários em blogs: ainda existem? (4)

  1. Ich lerne Deutsch. Tô fazendo o curso on-line da Deutsch Welle, é muito bom. Espero terminar o ano com um nível razoável de conhecimentos em alemão. Estou agendando uma viagem à Europa em 2007 ou 2008, a Alemanha com certeza está em meus planos. Auf Wiedersehen!

  2. Eu vooooooooooooooou! :D Berlim Berlim! duas semanas em setembro ou outubro. :D
    Estou copaiando JÁ suas dicas todas! :d Adorei!!

    Mas antes de Berlim ainda passo por Sampa. Com sorte, rola da gente se vê ne? :D
    Beijo André!

  3. Marmota, mas deu taaaaanta saudade… Inacreditavel essa foto da estacao de Potsdam, ateh agora estou pasma como ficou diferente! E vc foi ao Zoo Garten? Pra conhecer o panda “Baerlin”, simbolo da cidade…

    Berlim eh uma cidade q preciso voltar, realmente. Muita historia naquelas esquinas…

  4. Ola! foi um prazer conhecer seu site,talves voce possa me ajudar , sou educadora social e artesa e fui convidada a desenvolver um artesanato sobre a casa gava esta foi fundada por um amigo de Itler no parana agora falecido virou sentro hitorico,ela é cheia de luzes e misterios gostaria de desenvolver algo bem bacana e talves vc possa me ajudar ja que conhece a alemanha, desde já agradeço jana.

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