Como era gostoso o meu guia da Copa da Placar

As crianças da minha rua gostavam de bolinhas de gude, pipa com cerol, futebol no campinho de terra. Os meus brinquedos favoritos eram as “coisinhas de armazenar memória”. Minhas pilhas de gibis, revistas, livros, anotações em folhas de formulário contínuo.

No final dos anos 1980, meu kit de mídia iniciante ganhou o reforço de um gravador trazido do Paraguai. Com ele, me preparei para guardar comigo a Copa da Itália, em 1990.

Arranjei uma fita Basf cromada, de 90 minutos. Apoiava meu aparelho na saída de som da TV e fazia silêncio para registrar Papa Essa Brasil, talvez o maior trocadalho do carilho da história dos mundiais. Com a mesma fita, usava o National 3 em 1 da sala, sintonizado nos 1100 da Rádio Globo, para capturar trechos da narração de Oscar Ulisses.

Na escola, ficava sem entender meus colegas perdendo tempo colando retratos 3×4 com cola branca (ainda não eram cromos autocolantes) nos álbuns da Panini. Só anos mais tarde entendi que figurinha é, antes de qualquer coisa, instrumento de relacionamento. Mas enfim. Enquanto guardavam papeis grudentos e incompletos, eu ostentava algo muito melhor.

— Vocês estão por fora. A informação completa está aqui.

Então exibia e folheava com eles o sensacional Guia da Copa da Placar.

Meus pais não gastavam com figurinha. Nnem por isso o jornaleiro ficava infeliz quando eu aparecia. Desde o Mundial no México, quatro anos antes, levava para casa edições como o gibi especial do Pelezinho, um especial da Disney com informações e curiosidades, uma reedição dos antigos manuais do escoteiro mirim — chamava-se “Gol!”.

Mas estes eram só pra diversão. Nada se comparava ao Guia da Placar.

Quem detinha a tecnologia da informação e distribuição da Copa do Mundo era a Editora Abril. Não vou ficar explicando o que é linotipo, paste-up, impressão offset, entre outras traquitanas do arco da velha. Pesquise aí. Pense que apenas no final do Século 20 as redações conheceram computadores com software de editoração.

Imagine como era datilografar uma lauda, fazer o copidesque com caneta vermelha, montar páginas com estilete e recortes, fotografar a prancheta e mandar para uma rotativa. As milhares de cópias eram guilhotinadas e grampeadas.

Agora reconheça comigo que, para quem nasceu neste século, editoração eletrônica parece uma coisa velha.

A comparação entre os guias da Placar de 1986 e 1990 é impressionante. Digo isso pois algumas páginas que apresentavam o Mundial do México ainda eram em preto e branco. Ao final, ainda havia a saudosa sessão “Tabelão“, único banco de dados futebolístico disponível antes do Excel. Sem contar as longas análises, reportagens e imagens que fizeram a história da publicação.

Provavelmente entre uma Copa e outra, a redação da Abril já dispunha de Macintosh. Aquela revista de 1990, que exibia na escola para dar uma surra no álbum, era linda. Trazia ilustrações para cada um dos times, além das fotos de todos os jogadores. Também trazia números e curiosidades, mas com diagramação e cores que traziam leveza e fluidez.

A cada véspera de Copa, corria para a banca em busca de novidades. E lá estava o guia da Placar como atração principal da vitrine. A edição de 1998 aproveitou o reposicionamento da marca anos antes, com projeto gráfico marcante e aquele questionável DNA “de machão“.

No início do século 21, imagino que já era mais fácil planejar e editar uma revista. A tecnologia facilitava a produção de um guia com quase 200 páginas; a encadernação canoa, grampeada, dava lugar à lombada quadrada, colada. A riqueza editorial permitia desdobramentos especiais de outros títulos, como Veja e Superinteressante. Ou, por que não, uma edição especial com as duas marcas!

Aquela criança de 1990 ficaria enlouquecida com as revistas publicadas 20 anos mais tarde. Ela também perderia o rumo quando, em algum momento, a Internet reconfigurou nossa relação com a mídia impressa.

Qual foi a primeira Copa na qual a Web foi protagonista? Talvez 2006, como indicava a chamada da revista Super especial daquele ano. Oito anos antes, quando eu já era estagiário na Fundação Casper Líbero, a Agência Estado era sinônimo de instantaneidade informativa na rede. Lembro quando montaram um site especial para a cobertura daquele evento, o Estadão na Copa. Em 2002, eu era editor da Gazeta Esportiva quando a Web, o rádio e a TV desafiaram a mídia impressa por conta do fuso horário. Mesmo nesse contexto, o impresso ainda mantinha seu espaço.

Vamos dar um salto para 2022. Lembra como foi? Quando foi?

Pois então, como lembrar de um Mundial agendado para um final de ano para atender interesses econômicos? Difícil dizer o que é mais absurdo: mergulhar o torneio no petróleo do deserto para ser disputado em condições adversas ou perder para aquela Croácia tendo um gol de vantagem no segundo tempo da prorrogação.

Mas enfim. Nesse período, Placar foi tentando se encaixar. Virou revista semanal. Voltou a ser mensal. Trouxe grandes reportagens. Também se dedicava a pôsteres. Deixou de fazer parte do Grupo Abril. Virou marca editorial, com ativo forte, marcado pela afetividade com o leitor de outrora. A empresa que a sustenta passou a incluir a linguagem das plataformas, audiovisual e fragmentada.

O Guia da Copa de 2022 já não significava mais “a Copa nas mãos”. Talvez signifique algo para quem ainda preserva edições impressas. A situação de 2026 é parecida: a capa estampa a frase “edição de colecionador”. Isso porque provavelmente só quem cultiva nostalgia enxerga seu valor.

E mesmo sendo planejada, pensada e revisada para ser uma edição perene, já não se fazem mais revistas como antigamente. O guia traz uma entrevista muito interessante com um dos atacantes que fizeram parte do time de Ancelotti. Em nenhum momento do texto, no entanto, seu nome é citado. O mais irônico: Luiz Henrique não entrou em campo um segundo sequer no Mundial.

Aquela criança de 1990 gostava de gravar coisas para guardar aquela experiência. O adulto de hoje ouve podcast, passeia por cortes do TikTok, fica impressionada com o impacto da transmissão ao vivo, abre múltiplas abas do navegador. Difícil organizar e guardar esse punhado de rastros.

Só o Guia da Placar ainda sustenta o rótulo de “sua companhia por longo tempo”. A criança de hoje, no entanto, talvez pergunte: pra quê?

***

A maior Copa de todos os tempos acabou há semanas. Do que você ainda lembra?

Faça um teste. Pegue seu bloco de anotações e uma caneta. Faça sua lista.

Essa é a minha.

Primeiro, os argentinos impulsionaram o Instagram de Tim Payne, transformando-o na “maior celebridade digital” pré-Copa. Procure aí pela sensacional cumbia da torcida.

O título de “maior celebridade” mudou de mãos ainda na primeira rodada, graças ao goleiro Vozinha. Sua popularidade é das poucas coisas legais atribuídas à transmissão betânica da Cazé TV.

Vi meus filhos entusiasmados com as bandeiras dos países. Onde fica a África do Sul? E o México? E por que as duas seleções fizeram um jogo de abertura novamente após as vuvuzeladas e aquele gol do Tchabalala? (Não, essa lembrança foi minha; as crianças não seriam tão específicas). A turminha do segundo ano A parou pra ver a abertura do Mundial e se entusiasmou com o bolão dos confrontos da seleção.

Fiquei iludido com o italiano mascador de chicreta após a partida contra o Japão. “Depois dessa virada, a Noruega vai ser uma baba”, sentenciei. Meu pensamento explica o fato de não atuar com jornalismo esportivo há anos. E aquele desfecho parece ter sido pensado apenas pras redes sociais: bronquinha destemperada do camisa dez, remada da torcida, desmonte instantâneo do time, sensação de “quem se importa”. Muito triste.

Eu não esperava pela derrota da França na semifinal. Só não superou a praga das múmias que fez com que as pulgas de mil camelos infestassem o futebol do Egito. Teve um jogo de terceiro lugar com dez gols. E a narração do gol espanhol na final, na voz do Bruno Cantarelli, traduzida para o mundo todo. O futebol venceu a catimba.

***

Há 40 anos, qualquer birosca, posto de gasolina, candidato à deputado ou supermercado oferecia uma versão impressa e dobrável da tabela da Copa. Assim, era possível acompanhar os jogos preencher os resultados à lápis ou caneta.

Em 2026, encontrei uma única tabela impressa pelo comércio paulistano.

Se eu quisesse me esforçar mais, poderia ter encontrado um PDF lindamente diagramado e imprimir. O Estadão fez, por exemplo.

Se as mentes perturbadas dos donos da festa prosperarem, enfiando 64 seleções em um Mundial (um terço dos países existentes no planeta), a tabelinha da Copa vai ter que ser encadernada.

Claro, desde que haja demanda, em 2030, para tabela de papel, guia impresso, álbum de figurinha ou mesmo Copa do Mundo.

***

Poderia dizer a verdade: comecei a escrever esse texto em junho e, enquanto a vida exigia, continuei encadeando ideias. Era pra ter publicado enquanto a bola rolava. Enfim, prioridades.

Prefiro, no entanto, a versão poética.

Você sabe quantos anos a seleção brasileira ficou sem títulos mundiais entre a saga do Tri (que virou série divertida no Netflix) e o Tetra?

A resposta é a mesma para a idade deste blog, celebrado neste 4 de setembro.

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