Vôo 1249 (ou: um raio não cai duas vezes no mesmo lugar)

Rio de Janeiro (RJ) – “Ei, você prometeu que, depois daquela tragédia, jamais iria voar por Congonhas outra vez!”. Verdade. Garanti que jamais compraria uma passagem para viajar a qualquer lugar a partir dali. Não pude fazer nada desta vez: quem comprou dessa vez foi o pessoal do trabalho! E vai continuar dessa forma, enquanto a maior parte dos negócios estiverem sendo realizados ao redor dele. Isso significa que ainda vamos ouvir muitas histórias como a de uma amiga, que viajou de Porto Alegre a São Paulo semana passada.

Era o vôo 1249, da Gol. Deveria ter saído do aeroporto Salgado Filho às 16h30. Acabou decolando duas horas depois, sob um tempo muito fechado. Que, diga-se, só piorou na aproximação à São Paulo. “Na hora que o avião deveria estar chegando, estávamos sobrevoando o litoral, praticamente acompanhando a nuvem”, lembra. É lógico que, a cada minuto longe do chão, a tensão a bordo aumentava.

Nessa circunstância, qualquer mensagem da cabine de comando, ainda que alvissareira, pode ser interpretada da pior forma possível. “Senhores passageiros, aqui quem fala é o comandante. Peço para que apertem os cintos, reclinem os assentos e preparem-se para o pouso, fomos autorizados e teremos prioridade total”. Traduzindo: o mundo caía em São Paulo, mas o combustível deveria estar no fim. Então é nóis na fita, mano.

O apagar das luzes fez aumentar os cochichos entre os passageiros. O boeing da frota mais moderna do país começou a cortar a tempestade por dentro. Pela janela, só se via água e mais nada. De sopetão, a turbulência de praxe virou uma descida brusca, capaz de provocar gritos. Outra queda repentina. E mais outra. Pronto: estava instaurado o pânico. “O rapaz que estava ao meu lado reclamou, pois na ida também tinha passado um apuro. Logo pensei: esse cara é o pé frio do vôo!”, brincou.

Não era para menos: era um vôo, vindo de Porto Alegre, descendo em Congonhas, sob chuva. “Será que autorizam calculando algum risco? E a drenagem? Será que o tal groovin funciona? E as turbinas? E op freio auxiliar? E as manetes? Informação é uma merda mesmo…”, lamentou, emendando com uma piada de muito mal gosto. “Ao menos agora não tem mais aquele prédio nem o posto, mas sim uma boa área de escape…”.

Não havia mais nada a fazer, a não ser esperar São Paulo se aproximar até o toque das rodas na pista. Foi brusca, como se o piloto tentasse “mergulhar” o pneu a ponto de evitar qualquer derrapagem. Muitos rezavam. Outros contavam os tais treze segundos até o final da aterrisagem. Deu tudo certro: a coragem e destreza do piloto culminaram com aplausos que calaram totalmente a mensagem de boas vindas à Congonhas.

Foram longos minutos, além de centenas de celulares tocando e sendo usados, até o desembarque total dos passageiros, ainda sob chuva. Minha amiga só foi chegar em casa depois da meia noite – mas deu tempo de saber que, depois do vôo 1249, nenhum outro pousou em Congonhas naquele domingo.

Comentários em blogs: ainda existem? (9)

  1. Quando eu falo…
    Não tem jeito, de julho pra cá, todas as vezes em que viajei eu contei os segundos… sem contar as ave-marias, os pai-nossos e os sinais da cruz… que tem que ser três a cada decolagem, não me pergunte por quê. (acho que é um por mim, um pelo piloto e um pela turma do avião inteira, ou algo assim)… hahahahahahah!

  2. Você está no Rio, cara? Ô, inveja! =)

    Sobre Congonhas, nunca esqueço de minha chegada a São Paulo, vindo de Brasília, em meados de agosto do ano passado… De BRA, diga-se de passagem!

    Quando o avião parou, o que mais se ouvia eram suspiros de alívio, com direito a um “Graças a Deus” de um dos comissários de bordo, hehehe… Haja coração!

  3. Nunca andei de avião.
    Mas o Caos Aéreo n é algo surpreendente. Quer dizer … o q sinto, e imagino q muitos tenham essa idéia, é de um país onde tudo é uma bagunça: ninguém se responsabiliza, ninguém se lembra.

  4. Oi, Marmota! Fazia tempo que não passava por aqui, neh? Mas voltei :D
    Eu tive situações terríveis, as duas com a TAM. A primeira foi SP-POA.Em SP estava um dia lindíssimo quando saímos de lá, mas quando o tempo virou perto de POA era turbulência de segurar o que estivesso no colo, nas bandejas e se possível até a mão da pessoa ao lado. No meu caso o cara que estava do meu lado só me mostrava a quantidade absurda de suor que caía da mão dele. A aeromoça foi mandar apertar os cintos e não conseguiu terminar a frase, só se ouviu um barulhão de coisas de metal caindo onde ela estava. Eu digo que não pousamos em POA, despencamos. Foi horrível.

    A outra também foi SP-POA, pela TAM. Primeiro um atraso, depois meia hora dentro do avião na pista com uma desculpa de que uma cadeira da aeromoça tinha quebrado. Depois disseram que tinha um troço que tinha que fechar automaticamente, mas não estava fechando e que eles iriam fechar manualmente (na porrada, diga-se de passagem) porém, se o troço abrisse no ar o avião despressurizaria! Isso foi pouco depois do acidente em que o avião derrapou e caiu em cima do prédio da TAM ao lado de Congonhas. Mesmo assim as pessoas continuavam esperando no avião, dizendo que o piloto não iria arriscar a vida (e eu pensando, ou ele arrisca a vida ou perde o emprego, mas não adiantava tentar convecer todo mundo naquela hora). Eu e mais 8 pessoas resolvemos sair, ate porque estava um tempo horrível. Quando descemos do avião tinha um bando de mecânicos SOLDANDO uma turbina, debaixo de um temporal desgraçado. Sabe o que nos disseram? Quer era procedimento de praxe. Ah sim, soldar a turbina na hora do vôo é praxe, aham :P Enfim, não nos colocaram no próximo vôo, não nos pagaram comida nem hotel e eu passei a noite no saguão de guarulhos vendo várias brigas nos balcões da Gol e da Tam. Era pra ter chegado em POA às 18h de domingo. Acabei chegando as 6h de segunda-feira querendo nunca mais viajar de avião.

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