Tudo o que você nunca quis saber sobre horário de verão

Duas situações inusitadas na sequência, num dia qualquer desta semana. Olho para o relógio do computador e, preocupado com o adiantado da hora, pergunto: “mas não está na hora do jogo?”. “Não, André, é só daqui a uma hora”, responde a turma toda, sem disfarçar o riso. Horas depois, um telefonema: “Escuta, o jogo começou mais tarde hoje? Estou preocupado, o pessoal ainda não veio”. Perguntei instantaneamente, já vacinado: “vem cá, por acaso você viu as horas pelo seu computador?”. Mais risos.

Tenho certeza de que essas pequenas falhas de horário se repetem no país inteiro nessa época do ano. E a culpa, em princípio, é dessa opção boba do Windows:

Antes de colocar a culpa no Bill Gates, vamos meter o pau no Governo outra vez. O horário de verão, adotado no país desde 1931 (e religiosamente todo ano a partir de 1985) nunca acontece em datas fixas, como acontece no mundo todo. Nem o mês é o mesmo. Em 2006, graças às eleições, o 36º ajuste de relógio do país foi marcado para o dia 5 de novembro. O problema foi com as urnas eletrônicas, programadas para funcionar apenas entre as 8 e 17h, sem ajuste. Se o ajuste fosse marcado para outubro, o segundo turno ocorreria entre 9 e 18h (uma hora adiantado), ou com cédulas de papel…

Mas enfim, no resto do mundo o horário de verão é chamado DST. Nada a ver com doença: é a sigla de Daylight Saving Time. O nome já revela o objetivo principal: aproveitar ao máximo a luz durante o verão, quando os dias são mais longos – especialmente em latitudes mais altas, já que em relação à linha do Equador dias e noites duram o mesmo tempo tanto no inverno quanto no verão.

Apesar da prática constante ser recente, a idéia foi de Benjamim Franklin, em 1784. Na época, a comunidade científica achou graça e não levou a idéia a sério. O mundo teve que passar por duas grandes guerras para as vantagens do tal Daylight Saving Time aparecerem.

Isso implica ainda em uma redução no consumo de energia elétrica – o Governo Federal prevê uma economia entre 4 e 5% nos horários de pico. Em números absolutos, o alívio no consumo gira em uns dois ou três décimos. Ou seja, passou da hora do Ministério das Minas e Energia atribuir aos raios de sol a razão número um do horário de verão. Ou ir atrás de outras estatísticas, como fizeram na Inglaterra, onde os acidentes de trânsito diminuiram consideravelmente durante o verão.

Como já adiantei, o questionamento que o povo faz não é só esse. Nos EUA, onde o DST ocorre desde 1966, o esquema funciona sempre assim: relógios adiantados às duas da manhã do primeiro sábado de abril, e relógios atrasados no último domingo de outubro – convem lembrar que, no Hemisfério Norte, o verão ocorre durante o nosso inverno. Na União Européia, a referência é o horário GMT (hora no meridiano de Greenwich: começa à uma da manhã do último domingo de março, termina no último domingo de outubro. O padrão do Windows, tirado não sei de onde e que provocou tanta confusão nos últimos dias, é: início no terceiro domingo de outubro, término no segundo dia de fevereiro.

E porque não à meia-noite, como no Brasil? Simples: além de reduzir os prováveis disturbios de sono, é o horário com menos saídas de trens, aviões e outros meios de transporte, sem falar na menor quantidade de pessoas na rua. Puxa vida, se podemos facilitar as coisas, por que diabos a gente complica tanto?

Há quem pense de maneira ainda mais descomplicada: horário de verão é um porre. Em 2003, este espaço convidou seus visitantes a opinarem sobre a mexida no ponteiro, e a turma se mostrou dividida. Nem todo mundo consegue mudar seus hábitos com facilidade e se livrar dos tais problemas na hora de dormir. Sem falar nas situações envolvendo o maldito relógio do computador.

Mas enfim, se você mora nas regiões Sul, Sudeste ou Centro-oeste, vá lá adiantar o seu relógio na noite de sábado para domingo, goste ou não. Seu dia 14 de outubro será mais – e certamente, se você mantém contato com alguém de outro estado, vai perder uma hora por dia, todos os dias. Mas enfim, não esqueça de marcar uma baladinha simpática no dia 16 de fevereiro do ano que vem e aproveitar sessenta minutos extras de maneira decente.

(Postado em 5/11/2006)

André Marmota acredita em um futuro com blogs atualizados, livros impressos, videolocadoras, amores sinceros, entre outros anacronismos. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (7)

  1. O único inconveniente é perder uma hora no final do ano (época em que, ao menos em tese, tem-se mais correria), para receber de volta lá no meio das férias de verão no ano seguinte. É como se o governo nos impusesse uma hora a mais de lazer e uma hora a menos de trabalho por ano :P
    Fora isso, o DST é até útil para a humanidade :)

  2. “É como se o governo nos impusesse uma hora a mais de lazer e uma hora a menos de trabalho por ano”.

    Genial. Depois dessa, prometo reclamar um pouco menos do governo. Ah, sim, petistas de plantão: isso NÃO foi uma invenção do Lula!.

  3. Não sabia que nos States e nas Europa as doenças venéreas começavam de madrugada. É bem melhor do que ficar naquelas de “meia-noite de hoje”/”zero hora de amanhã” ou “meia-noite de sábado para domingo”.

    Falando nisso, meus outros quinhentos: já reparou que, para a TV aberta, o dia vai até as 2h/3h? É só reparar em como eles anunciam filmes pós-meia-noite: “Hoje, à 1h” (num intervalo qualquer do Jornal Nacional).

  4. Eu gosto do horário de verão, dá para aproveitar muito mais o dia. E esse papo de fuso horário não me afeta. O que é uma hora a mais ou a menos para quem dorme 5 h por dia, nos mais variados horários?

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