Todo mundo tem uma história (ruim) de aeroporto

Muito além das dúzias de fitinhas do Senhor do Bonfim, ou mesmo o piriri após comer os camarões semi-vivos de um acarajé, acabei trazendo de Salvador outro negocinho, situação que certamente se repete com outras pessoas. Diante de um inédito período de caos aéreo por conta de uma não-inédita sucessão de incompetências, todo mundo deveria seguir o Júlio Cesar e contar suas aventuras envolvendo o meio de transporte mais seguro, porém menos organizado.

Obviamente ficaria imensamente feliz se alguém viesse a público brevemente e declarasse, em rede nacional, que o problema acabou – ao invés de despejar bravatas ou apontar culpados, coisa que não me interessa. Bem longe dessa utopia, tudo que qualquer passageiro exige nessa situação situação é uma coisa muito simples, mas que parece tão impossível quanto uma solução definitiva: chama-se informação precisa e confiável.

Então a Gol Linhas Aéreas diz que, para vôos domésticos, é preciso comparecer ao check-in com uma hora de antecedência. Essa frase de praxe em qualquer bilhete no mundo poderia ganhar outras palavrinhas: “não esqueça que o país vive um sério problema envolvendo a aviação civil, portanto pense na hipótese de chegar ao aeroporto duas ou três horas antes, especialmente em véspera de feriado prolongado”. Isso evitaria a sensação estranha que tive no sábado, ao encontrar uma fila descomunal. Algum funcionário se dá conta do problema e conclama por “passageiros para Salvador”. Ótimo, furamos a fila na morte súbita!

Parecia fácil demais, até eu avisar a mocinha que não despacharíamos nossas mochilas.

– Desculpe, mas sua bagagem de mão não pode conter nenhum líquido. Normas internacionais.

– Sei… E esse shampoo inofensivo aqui, ou esse desodorante spray… São líquidos?

– Sim, infelizmente o senhor terá que despachar isso.

– Que gozado… Pensava que essa bobagem fosse apenas para vôos internacionais.

– É que esse vôo vem de Montevidéu, por isso seu embarque será pela ala internacional.

Como o vôo de volta seria o mesmo “circular” Salvador-Guarulhos-Porto Alegre-Montevidéu, tratamos de socar todo o material de limpeza em uma única mochila. Curiosamente, o atendente do aeroporto Dois de Julho (ou seria Luiz Eduardo Magalhães?) ignorou a “ordem internacional” e nem citou o tal pedido líquido. Um lindo exemplo de empresa nacional, mas com regras absolutamente locais. Mas tem mais: entramos no portão doméstico e, ao contrário de outra fila descomunal da ida, não passamos pelo raio-x. Um baiaba sorteava bolsas aleatoriamente em um balcão – poderia ter embarcado com granadas e canivetes tranquilamente.

A festa da informação desencontrada estava apenas começando. Sem nenhum assento disponível na sala de embarque – alguns passageiros conscientes colocavam suas malas sobre eles, como se ninguém precisasse sentar – decidimos aguardar na fila, em frente ao nosso portão. Uma linda mocinha ouviu alguns comentários nossos sobre o vôo e pediu licença para observar nossos bilhetes. Pelo sotaque, era gaúcha – o que explica o adjetivo.

“Então, aqui está marcado o embarque para este vôo aqui, da TAM”, respondeu a mocinha, que ainda sugeriu uma checada no painel da Infraero. Realmente, tanto o portão quanto o horário previsto eram outros. Não demorou para que as vozes da sala de embarque repetisse o troca-troca de portões e promovesse uma dança das cadeiras, “devido a um reposicionamento da aeronave”, em outros vôos. Uma meleca.

Já na fila do devido portão, encontramos o número do vôo no painel e a informação: confirmado. A aeronave já estava na pista, e tudo parecia correr muito bem graças a indicação “embarque imediato”. Eram quase 19 horas (a decolagem estava marcada para 18h30) e o display mudou para “atrasado”. Puxa vida, se eles não avisassem, jamais saberia.

Outras coisas bizarras aconteciam naquela sala de embarque. Dois nomes femininos foram insistentemente anunciados, seguidos de “última chamada para o vôo da TAM com destino a Ilhéus”. Ainda especulávamos o que diabos tinha acontecido ao nosso quando as mulheres apareceram desesperadas, reclamando alguma coisa com um funcionário da empresa. Só consegui ouvir a resignação do atendente: “é, minha senhora, essa é a realidade do Brasil”. A resposta do nosso amigo serviria para explicar a boataria que logo tomou conta do saguão: nosso vôo para Guarulhos não tinha qualquer previsão de embarque. A estimativa otimista, vinda de alguns passageiros mais afoitos: duas horas de espera.

Não demorou para que a informação fosse, hmmmm, confirmada no alto-falante. “Informamos aos passageiros do vôo da Gol com destino a Guarulhos, Porto Alegre e Montevidéu que, devido a um novo sequenciamento dos controladores de Salvador, a aeronave está retida”. Como assim, e o que isso significa?

O primeiro passageiros a peitar os desinformados cururus da Gol, ficando com a pecha de “líder da revolução”, foi o Marcio Moraes, daquele programinha Companhia de Viagem. Logo o barraco tomou conta do pedaço. Decidi fugir da confusão e esperar pacientemente, com o laptop aberto, até o milagre do embarque acontecer. Este veio muito antes do que esperava: eram quase oito horas e já estávamos no avião.

“Estamos aqui desde as seis e meia e estava tudo pronto para o embarque e a decolagem, essas coisas nos pegam de surpresa também”, explicavam as comissárias. “Apesar disso tudo, boa noite”, respondi, dando novas cores ao cumprimento-padrão. Antes da decolagem, foi a vez do comandante pedir desculpas. “Fomos surpreendidos pelo controle de tráfego aéreo, que nos avisou de um novo sequenciamento de vôos. Apesar de estarmos no horário, nada podíamos fazer a não ser esperar. Agradecemos a paciência de todos”.

Seria legal trocarmos a nossa paciência por informações sempre precisas e confiáveis, independente da origem. Pena que essa troca ainda esteja muito injusta.

Comentários em blogs: ainda existem? (2)

  1. Só um momentinho, deixa eu anotar… “baiaba”. Ok, está aqui na minha lsita de palavras novas, ao lado de cururu! Hehehe!

    Eu só fico imaginando o tamanho do caos inimaginável que existe por trás dos sorrisos do pessoal do aeroporto. Acho que nunca saberemos!

  2. Incrivel hein… Isso acontece em td o Brasil, e decidem enfatizar logo a Bahia! Melhor ainda foi o “camarao semi vivo” RIDICULO! E como falou de uma gaúcha,se deu o adjetivo de linda (justamente) mas se fosse uma baiana… ai ai (eh melhor nem comentar quais seriam os adjetivos).

    Baiano com mto orgulho!

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