Sobre como conheci, brevemente, a paquerinha do Caio

Um dia de nossas vidas passa tão depressa que, quando a gente se dá conta, sobram metade das tarefas que deveriam ser feitas e já é madrugada. Repasso as notícias e me dou conta que há algo ainda mais estranho lá fora: morre quem você jamais imaginava, chamam um dispositivo plástico com pontos pretos numa tela de livro, e o Japão recém-recuperado de tremores, tsunami e Fukushima está diante de uma nova hecatombe, protagonizada por vinte mil insanos. As trombetas do apocalipse estão por toda parte, e não me refiro apenas aos temporais paulistanos inimagináveis, que surpreendem os incautos após longos períodos de sol.

Elas soam também em vagões do metrô.

– Caio…. Caio!!! Fale comigo!!!

Não era comigo. Na verdade, o Caio não estava ali. A mocinha, com uma bolsa a tiracolo e o celular no ouvido, encontrou seu cantinho, na minha frente, apertando-se junto à multidão que invadiu o trem da linha verde na estação Consolação.

– Você… O quê?! Está dizendo que não pode ir dormir na minha casa nesse fim de semana?

Dezenas de pessoas a bordo, cada qual em sua ilha. Eu também estava na minha. Conversava com gente que não estava ali, enviando e-mails via smartphone. Vez ou outra questiono se a impessoalidade nesses não-lugares é boa ou ruim… Aquela mocinha me fez lembrar que aquele momento de solitude coletiva faz tão bem quanto um desabafo em voz alta, como se ninguém estivesse ali.

– Então eu sacrifico as minhas coisas, passo dias ao seu lado… E você vem me dizer que não pode ficar comigo?

Tá, chega de escrever mensagens e filosofar sobre a vida, o universo e tudo mais. Fale mais, gracinha. Quer dizer que o Caio não quer ficar com você? Ah, vai ver ele está enrolado, fim de ano é assim mesmo. Ele deve pensar em fazer as coisas da melhor maneira possível, ao invés dos animais a nossa volta que, sem saber que calendário é uma mera convenção humana, corre com a mesma pressa dos idiotas que trafegam no acostamento quando está tudo parado. Dê um desconto pro Caio, ele não faz por mal. Além disso, é importante manter distância do outro de vez em quando. A saudade aumenta e o reencontro fica mais animado, não acha?

– Já chega. Não quero mais saber. Se você quiser ficar comigo, vai ter que me conquistar.

Opa. Agora a coisa ficou feia. Como assim, vai terminar com o Caio por causa de um fim de semana que ele decidiu cuidar da vida dele? Assim não dá, menina carente. Você deve ser muito interessante, inteligente… Certamente é uma namorada carinhosa e afetuosa. Mas quebrar a dinâmica de vocês assim? Você quer que ele te conquiste ou… Será que você não gosta do Caio tanto assim? Ah, quer saber, mocinha? Você nem é tão bonita assim. Tomara que o Caio encontre alguém menos emotiva e escandalosa.

– Sabe de uma coisa, Caio? A culpa é da sua mãe. Ela faz a sua cabeça, não quer que você saia do colo dela.

Caceta, mulher! Vai querer mesmo bater de frente com a mãe do Caio? Cheirou acetona? Talvez você nunca tenha se dado conta, mas todo homem, lá no fundo, quer ficar ao lado de sua mãe para sempre. Aqueles que declaram independência, vão morar sozinhos ou decidem dividir as coisas com alguém quer, no fundo, replicar aquilo que tinha em casa quando criança. Se você disser que não vai ter nada disso contigo, nem adianta brigar com o Caio. A não ser que ele seja um idiota completo, ele mesmo vai se dar conta e te despachar. E quer saber? Estou torcendo por ele. Só falta você me dizer agora que o seu perfil no Facebook é em connjunto com o Caio. “Meu Nominho Fofo e Caio Juntos Para Sempre”. Apamerda. Continua falando aí, vai.

– Não, Caio. Não estou reclamando da sua mãe. Eu gosto dela. Mas você é um fraco. Você não quer se indispor com a sua mãe, com ninguém… Com todos, menos comigo, Caio!!!

Mas que droga, Caio. Você é um herói, ouvindo essa histérica pacientemente. Nesse ponto ela pode até argumentar com um ou outro episódio… Mas não dê bola, cara. Com o tempo, você vai aprender, a duras penas, que essa coisa louca de querer conciliar os interesses dos seus amigos, dos seus pais, dessa mocinha, das outras mocinhas… Não só vai falhar miseravelmente, como também vai minar qualquer vontade genuína que você ainda carregue dentro de si. Enquanto esse dia glorioso, onde seus desejos voltarão a gritar que estão vivos, não caia na conversa dessa louca. Ela vai querer que você faça sempre aquilo que ela quer, mas ela nunca vai saber. Ou vai querer outra coisa. Se você entrar nessa de sempre agradar a maluca… Ferrou, Caio.

– E eu, Caio?!? E eu!!! Quantas vezes eu te ajudei, te defendi, te dei força quando precisava… E você faz isso comigo, Caio???

Puxa, estação Paraíso. Vou ter que descer, mocinha. Com licença, pode sentar no meu lugar.

Coisas estranhas acontecem. Clima louco. Notícias bizarras. Gente compartilhando sua existência em voz alta diante da multidão. Rapaz que nada tem a ver com o Caio acompanhando, elucubrando e vibrando como se estivesse num circo… Já fomos mais inteligentes, Nascimento. E se o mundo acabar daqui uns dias, não vai ser por causa de asteróide.

André Marmota tem uma incrível habilidade: transforma-se de “homem de todas as vidas” a “uma lembrancinha aí” em poucas semanas. Quer saber mais?

Leia outros posts em E eu, uma pedra. Permalink

Comentários em blogs: ainda existem? (4)

  1. E enquanto isso, um pessoal ontem no show de 20 anos da banda Karnak, olhava para o André Abujamra e lembrava de outro André, que estava em outro não-lugar. :)

    Caio e mocinha não tão com nada! O negócio é se conectar wireless como a gente.

    Abração!

  2. “cheirou acetona?” huahuahauahua… adoro acompanhar as discussões desse povo que fala ao telefone em público como se estivesse numa cabine à prova de som, hahahaha…

Vai comentar ou ficar apenas olhando?

Campos com * são obrigatórios. Relaxe: não vou montar um mailing com seus dados para vender na Praça da República.


*