Sete dias

São José do Rio Preto (SP) – Mal conseguiu fechar o portão de casa e foi surpreendido por uma freada brusca. Era um sedã escuro, vidros filmados, de onde saiu uma mulher esbaforida.

– Entre logo no carro, não temos muito tempo.

– Eeeiii, pera lá! Que marmota é essa?! Sequestro?!

– Relaxe, eu explico tudo no caminho. Vamos de uma vez!

– Claro que não! Eu nem conheço a senhora!!! Sem falar que estou atrasado. Arrume outro gaiato aí pra dar voltinhas nesse Opala.

– Não posso, preciso levar você. Veja esta ficha. Confirme seus dados. Estão corretos, não é?

– Cacetada! Que diabos é isso?! Você é alguma espécie de espiã? Estou devendo imposto!?

– Está bem, eu respeito a sua preocupação. Vou te explicar. Dê uma lida neste folder.

– Mmmhhh… Vamos ver… “Dona Vera”? “Vejo seu passado e futuro…”? É você? “Desfaço mandingas e trago a pessoa amada em sete dias”? “Pagamento após o trabalho realizado”? Mas que…

– Pois é. Este é o meu trabalho. Preciso levar você para quem te ama e contratou o serviço.

– Naaaah! Nada disso!!! Já ouvi falar desse tipo de milagre, é um tipo de relação envolvendo seguidores da umbanda. Respeito pais-de-santo que promovem a cultura africana, ou quem acredita na força dos orixás… Mas Dona Vera, isso que a senhora faz é ridículo!

– Olha, pode me chamar de Telma Carmen. Dona Vera é um nome fantasia. Enfim. Respeito estes métodos, mas creio que os meus são mais eficientes. Não uso búzios, cartas ou velas. Ofereço resultados palpáveis. E vem cá, você não quer mesmo encontrar o amor da sua vida?

– É… Eu… Calma. Um minutinho. Ainda estou processando o Telma Carmen aqui. Cara, isso não faz sentido. Se o amor da minha vida existe e me conhece, basta mandar um SMS, um e-mail… Que tipo de gente precisa ligar para esse tipo de “caça-fantasmas de oxóssi”?

– Bom… Nesse caso, a moça tem um pouco mais de trinta anos, mora no interior e conheceu você em uma palestra. Disse que sua voz é divina, ficou encantada com sua articulação de pensamentos mas teme que, se lhe disser de sopetão que é o homem da vida dela, você poderia fugir.

– Cuma? A mulher nunca me viu e acha realmente que eu sou o homem de sua vida? Pode parar. Essa a senhora já perdeu.

– Espere. Eu só preciso colocar você no caminho dela. O que vai acontecer depois é decisão sua. Por favor, embarque e fale com ela. Meu prazo está acabando!

– Problema seu. Já vi esse filme. Esse tipo de gente seduz o coitado com esse papo exagerado, começa um relacionamento animadinha, se segura em toda sorte de idealizações. Mas inventa, de uma hora para outra, motivos pra desvalorizar tudo quando a coisa começa a ficar boa. Mostra todo o seu orgulho ferido, evita qualquer reprovação ou frustração, se irrita por não ser valorizada como merece… A todo momento, exagera nas emoções, na sensibilidade. Resumindo, é mais uma histérica mimada, insana e exibida. Uma roubada. Lamento, Telma Carmen.

– Poxa… Não faça isso comigo. A minha reputação é a minha verdadeira propaganda. O que vai ser de mim? E daquela bela jovem??? Ela não merece esse discurso, como se fosse uma perturbada aí.

– Ei, eu não disse isso! Tá, escute. Veja aqui essa foto. Esse sorriso lindo. Estou saindo com ela. Conheci na festa de Reveillon do Bar Brahma. Esses dias ela me chamou de “amante maravilhoso”. Não é sensacional? E você quer mesmo que eu troque essa sensação deliciosa por… Ora, uma perturbada!

– Realmente… É uma bela moça…

– Pois então! A que custo eu mudaria de ideia agora? Aliás, eu sei bem qual a sua preocupação. Você só recebe algum pagamento se entregar a mercadoria, não é?

– Ah…

– Confessa, Dona Telma Carmen. Quanto a senhora vai faturar se eu entrar no carro?

– Eu… Assim, varia de acordo com o cliente. Nesse caso, como ela praticamente não tinha nenhuma informação a seu respeito, fiz por quinhentos. Mas vou ter que descontar horas de pesquisa e gasolina. Você mora longe…

– Veja, eu tive uma ideia. Vou escrever um endereço nessa ficha. É de um amigo psicólogo. Você disse que a moça me viu em uma palestra. Deve ter sido de longe. Ela nem deve perceber a diferença entre esse cara e eu.

– Será? Ah, não acredito.

– Ué. Qualquer coisa, diga que se confundiu… Sei lá, inventa aí uma história. No fim das contas, espero ao menos que essa criatura se convença a fazer análise. Pode fazer bem a ela.

– É… Pode funcionar. Vou quebrar seu galho.

– Ótimo! Mas que bela ideia, hein, vidente Dona Vera? Acho até que ela vale uns cem paus desses seus quinhentos aí. O que me diz?

– Ahaha! A gente vê, tá? Você já tem o meu número, pode me ligar. Agora preciso ir, vou atrás do seu colega. Agradeço seu tempo. Tenha um bom dia!

– Valeu, sucesso lá com a histérica! E vem cá, quando eu posso telefonar para saber se deu certo?

– Uns sete dias, pode ser?

– Fechado. Sete dias.

André Marmota dialoga muito com o passado, cria futuros inverossímeis e, atrapalhado, deixa passar algumas sutilezas do presente. Quer saber mais?

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