Resumo histórico daquele jornal que todo blogueiro comenta

Disclaimer: É isso aí, pessoal. Trata-se de mais um texto sobre o tema praticamente dissecado nas últimas duas semanas, desde o “start”promovido pelo Gabriel Tonobohn até o eco retumbante provocado por Carlos Merigo e Inagaki, culminando em campanhas como as do Eduf e J. Noronha, entre outras dezenas de manifestações em uma porção de blogs. Caso esteja completamente saturado disso, volte amanhã. Ou continue a leitura, por sua conta e risco.

Você sabe qual é o jornal mais antigo ainda em circulação na cidade de São Paulo? Em janeiro de 1875, “A Província de S. Paulo” começou a circular. Veio a proclamação da República e, em 1890, o periódico mudou de nome, adotando o nome da recém-nomeada unidade da federação. Um de seus redatores, funcionário ainda nos tempos de Brasil Império, casou-se com a filha de um dos fundadores do jornal e, anos mais tarde, transformou-se no único dono da brincadeira. O ano era 1902, e o novo proprietário chamava-se Júlio Mesquita.

Enfim, de lá para cá não mudou quase nada. O grupo acumulou a edição de mais um diário, uma estação de rádio AM e FM, uma concessão de TV no interior paulista, uma agência de notícias… Tudo sob a batuta da conservadora e centenária família Mesquita. Fim do resumo histórico. Todas as ações do grupo são claramente pautadas por uma filosofia consolidada impregnada nos últimos 130 anos, e não faltam exemplos disso. Isso ficou mais claro a partir do momento em que os Mesquita descobriram as possibilidades da Internet.

Mais uma perguntinha histórica: você sabe qual foi o primeiro grupo jornalístico brasileiro a lançar seu braço na web? O título de “primeira publicação transposta para o online” é do Jornal do Brasil, mas meses antes era inevitável encontrar o bom e velho “agestado” nos primeiros bookmarks do Netscape. Algum tempo depois, o grupo agregou conteúdo ao seu portal Net Estado, publicando todas as edições do Estadão e Jornal da Tarde.

Quem tinha o costume de navegar em 1998 deve lembrar da cobertura extraordinária da Copa da França. Conteúdo que rendeu uma parceria milionária com o Portal Terra – que não completou dois anos. Em 2000, o antigo “Diretório Estadão” se transformou em Estadão ponto com, aquele que cunhou e popularizou a expressão “cara de conteúdo” (foi-se o tempo em que as campanhas publicitárias do veículo tinham boa receptividade).

Mesmo em ritmo de crescimento, o grupo manteve a filosofia dos tempos de Net Estado, disponibilizando os dois jornais para os seus visitantes. Mais do que isso, o novo portal publicava material exclusivo, produzido por uma equipe própria. Até 2003, os números do site cresciam – assim como o número de assinantes. Tudo caminhava para um crescimento linear e planejado.

O que a família Mesquita decidiu fazer, em outubro daquele ano? Dispensaram a equipe que cuidava do portal e trocaram o HTML das páginas revisadas por um monstrengo alimentado por arquivos PDF – os mesmos que desciam para a gráfica. Corte de custos vendido ao público através de uma premissa idiota: “com a página inteira na web, não se perde nada!”. Não mesmo, a não ser o tempo até as páginas abrirem e a paciência para navegar (navegar?) em todas as páginas sem link. Logo os gênios identificaram que “alguma coisa estava errada” e tascaram uma “versão texto”, com as matérias reproduzidas naquela fonte “Courier New”. Ah, sim: só para assinantes do jornal.

Nos últimos anos, uma porção de gente quebrava a cabeça para se adaptar a novas plataformas de publicação, enquanto o grupo Estado, ainda sob efeito da inércia, parecia dizer ao mundo que “o negócio deles é notícia no papel, e danem-se as novas tecnologias e as suas possibilidades”. O alento pareceu vir em janeiro de 2006, quando uma nova reformulação foi feita. Uma reestruturação baseada na integração da equipe deixou uma redação inteira maluca. Cada editoria contava com um “editor” do portal, que exigia flashes, textos, áudios, perfumaria em geral para o novo portal, além das matérias do dia no jornal.

Uma zona completa, que repercutiu no ar: uma home “enfeiada” e o sumiço do canal RSS. Lembro que tentei mandar um e-mail para reclamar, mas não havia indicação alguma em qualquer página do novo site. “Céus, os caras que mandam lá não sabem nada de Internet” era a minha opinião, compartilhada com alguns amigos.

Finalmente, este ano, decidiram convidar uma empresa para redesenhar o portal. A novidade entrou no ar pouco antes do Pan, após o trabalho insano da agência em conjunto com profissionais da casa, que merecem total respeito. Visualmente, ficou mais clean e com cores nas editorias (como a Folha Online), mas com mais imagens, palavras-chave, vídeos… Muito mais conteúdo.

O que ninguém comentou é que a família Mesquita acreditou realmente que um veículo maior poderia concorrer com grandes portais e ser alimentado pela mesma equipe que tocava o portal até agora, além do impresso. Traduzindo: aumentaram as responsabilidades, mas ninguém foi contratado.

Enfim, são as mesmas mentes responsáveis pela aprovação desta polêmica toda, em defesa de alguns cliques em seu site. Eu não gostei das propagandas (achei bobo), e certamente muitos funcionários do grupo Estado também não (se é que viram). Mas nenhum deles teve poder de veto. Nada contra dizer ao público para ter cuidado onde clica, isso presta um serviço maravilhoso para evitar a propagação de crentes. Agora, defender seu próprio nome reduzindo os outros a chimpanzés ou ruivos na puberdade reflete a imagem familiar, centenária, sisuda, tradicional, que defende interesses de seu jornal impresso desde o Império. É o mesmo discurso que vem pautando algumas das grandes decisões do grupo no mundo virtual. Simples assim.

Mais do que isso: tenho absoluta certeza de que ninguém da família Mesquita faz alguma idéia do que a maioria dos blogueiros está pensando sobre os comerciais. E se soubessem, adorariam a repercussão. Talvez por isso eu tenha ignorado todo o barulho gerado nos últimos dias, achando sinceramente que todo tipo de “contra-campanha” baseado apenas no ódio é espuma pura.

Até porque, se a discussão está na credibilidade e no valor da informação fornecida por quem quer que seja, e no alerta à população para “olhar bem onde clica”, eu pergunto: você está usando seu blog para responder à altura esta crítica, ampliando conversas e demonstrando a força da coletividade, ou prefere agir como a velha mídia, que se preocupa apenas com seus próprios interesses, em busca de exposição pura e simples, dividindo o poder de todos em pequenos ecos, que na maioria das vezes perde muito tempo falando em seus próprios feitos? É assim que os blogs querem ser reconhecidos?

Felizmente, praticamente não temos um “resumo histórico” para descobrir a origem das falhas. O tempo ainda está soprando ao nosso favor, basta ajustar o leme rumo à maturidade.

André Marmota acredita em um futuro com blogs atualizados, livros impressos, videolocadoras, amores sinceros, entre outros anacronismos. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (18)

  1. Cara, só fiquei sabendo da celeuma criada por essa campanha ontem. Ví muita gente espumando de raiva em relação a ela. Eu, particularmente, dei risada com a propaganda e com os posters da campanha. Em nada me atingiu. Uma porque é o tipo de coisa feita por quem não conhece os blogs. E outra porque não me senti atingido. E por último, não gosto do Estadão. Então estamos empatados. Não vou dar link para o portal deles. Excelente texto, parabens!

  2. Se o que eles queriam era chamar a atenção das pessoas da internet para o Estadão, conseguiram :P Pior que essa campanha tem tudo a ver com a postura conservadora do Estadão. Estranho seria se eles fizessem algo elogiando os blogs… A campanha peca pela generalização. Mas, fora isso, não tem nada demais em dizer que um portal jornalístico tende a ser mais confiável (termo elástico; vale outra discussão) que os blogs (a grande massa de blogs, no caso).

  3. O melhor comentário que li até momento sobre essa conversa.
    Muito bom mesmo!
    Abraço!!

  4. Lúcido.
    Sem mais.

    PS – Escrevi esse comentário vestida com minha roupa de batgirl, seguindo a dica de moda para blogueiros do Estadão!

  5. Quero comentar mais uma vez: você acha mesmo que tô me importando muito com o que o Estadão pensa dos blogueiros? Eu não me importaria nem se o jornal da cidade que eu moro se manifestasse, que dirá com um jornal de SP que nem sabe que existo… que deve tá rindo muito disso tudo… enquanto isso a galera de patins em pé na rede se descabelando demais…
    comentário meio ct, mas você entende… ;)

  6. Em meus velhíssimos dias de Libelu, implicava com o vetusto Estadão até que me explicaram que a Folha era simpática mss zig-zag de opinião enquanto o Estadão é uma rocha que representa a burguesia.

    Y así es. Aqui pra abobrinhas vale o Los Angeles Times. Pra saber das coisas –WSJ.

    Infelizmente no Brasil há tanto pré-conceito contra Internet. Vai passar, diz o Chico Buarque.

  7. Fala André!
    Deixa eu te dizer o que fiz quando ouvi a propaganda (só ouvi aquela do blog de moda feminina, não sei se tem outras):

    Rachei o bico, de verdade. Estava meio dormindo, mas fui surpreendido com a criatividade da propaganda. Quando me dei conta, estava gargalhando sonoramente. Não sei se foi privilégio ou um fardo não ter visto a cara que as pessoas no ônibus fizeram ao ver um meio maluco abrir os olhos e dar uma sonora risada, depois fazer uma cara meio constrangida.
    em fim, a propaganda foi muito bem pensada e executada. Mas, com todo o respeito, ela também foi absolutamente ridícula em todos os aspectos.
    Em primeiro lugar, porque o público que será afetado por ela não é do perfio dos leitores de blogs, anyways.
    Em segundo lugar, porque pessoas inteligentes são capazes de decidir muito bem o que ler, quando ler, de que forma ler e em quem acreditar. Não creio que qualquer pessoa afetada por essa propaganda, se é que existe alguma, seria desejada por qualquer blogueiro como seu leitor.
    Se blogueiro fosse, eu nem sequer teria tomado conhecimento dessa propaganda como algo ofensivo ou que “atacasse a classe”, porque blogs são tão fenomenais que não se pode dizer que constituem uma classe.
    Penso que você, como sempre, demonstrou nesse texto a tranquilidade de quem confia em si próprio e não deve nada a ninguém. Por isso creio que esse é o melhor dos textos que eu li sobre esse assunto até agora.
    Quanto ao jornal … deixa ele prá lá, um dia ou eles aprendem ou serão suprimidos pelo próprio mercado …
    Grande abraço!
    Marlon

    p.s. O primeiro passo para a decadência de um blog é seu dono pensar que existe “a grande massa de blogs”, e que seu blog, por qualquer razão, não faz parte dela. Existem muitos milhões de blogs por aí, mas vou dar um exemplo curto:
    eu pensava que determinados blogs eram a “elite”, mas fui conhecendo mais e mais blogs, de modo que os que eu pensava serem da “elite” foram rebaixados, já que eu achava constantemente blogs “melhores”.
    Depois de muito olhar a blogosfera por aí, descobri que se eu achar um blog bom, nada impede que amanhã, dado o imenso número de blogs disponíveis, eu ache um melhor. Conclusão? Não existe “elite”, nem “a grande massa de blogs”. Não existe sequer o termo “melhor”, já que blogs tendem a ser mais de cunho pessoal e por isso a opinião dos leitores pode ser bem mais parsial. Hoje você pode estar entre os “top 10” e “descer o kct” na grande massa de blogs, mas seu público pode mudar de idéia quando vinte blogs que os agradem mais surgirem … e você estará na tão famosa “massa de blogs”, que você tanto criticou. Acreditar nessa lenda só ajuda os internautas padrão e prejudica a qualidade de um blog, já que tendemos a relachar se conciderarmos nosso trabalho muito acima dos demais.

  8. O tempo ainda está soprando ao nosso favor, basta ajustar o leme rumo à maturidade.

    Gênero, número e grau :-D .

    Como dizem aqui no sul, essa campanha vai apenas “gastar pólvora em chimango”. Não levei a sério em nenhum momento. Por sinal minha visitação até aumentou depois disso tudo. Só o que eles vão conseguir é aumentar a audiência dos blogs e a antipatia contra portais do gênero.
    Sem contar o ponto principal disso tudo, 1% (para ser generoso) de quem navega diferencia um site de um blog.

  9. Tina

    Eu gosto do LA Times, tem bom artigos sobre assuntos internacionais e nacionais. Dos jornalões gringos é talvez um dos mais completos, e sem os vícios do NYT.

  10. Eu acho a campanha um desperdicio gigantesco de dinheiro. Eles só estão se queimando numa fatia de público com bom poder aquisitivo e formador de opinião.

  11. Nossa… Posso ser ingênuo demais, mas não vi toda essa maldade na propaganda do Estadão. Como blogueiro, não me senti nem um pouco atingido.

    Quanto à qualidade do jornal, não tenho dúvidas de que o Estadão é bem melhor que a Folha (mas bem melhor mesmo, de longe!). Independentemente da postura editorial conservadora – que está longe de atrair minha simpatia, mas me irrita bem menos do que a falsa “imparcialidade” apregoada pela Folha, por exemplo.

    Ah, e pra terminar: o Estadão Online tem ótimos blogueiros! Não acho que eles menosprezem essa mídia, não.

  12. André, é de longe o texto mais pé-no-chão que li esses últimos dias sobre o caso.

    Se a campanha foi ofensiva, se foi sem graça, se houve quem gostou, na verdade pouco importa, publicidade tem isso de pegar as pessoas pelo emocional e qualquer debate sobre fica comprometido.

    Você descreveu um cenário que se repete em boa parte das redações brasileiras em que a internet ainda não foi entendida ou, melhor, digerida como uma sapo a engolir.

    O Estadão, e sua percepção de internet em PDF, foi inspiração para muito site – te digo isso de cátedra, experiência própria – visto como vanguarda da tecnologia por aqueles que queriam um espelho do papel em bits e que agora correm atrás do tempo perdido. A campanha só reflete essa busca do que foi perdido, ou é mera incompetência.

  13. HAHHAAHAHHAHAHAHAAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHHAAHAHAHAHAHAHAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHHAAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAAHAHAHAHAHAHAHAHAHA HAHAHAHAHAAHAHAHAHAH!

    Ai ai… eu fico pasma…

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