Recados do coração

Ah, o amor. Sentimento que mais vassalos possui, como disse aquela poeta. Amar é muito difícil – tanto que Roberto Freire, em seu clássico Ame e Dê Vexame, lembra da definição autoritária imposta pela sociedade: uma relação de troca complementar, ou seja, algo que se prende a uma dependência cruel e sufocante. Para atenuar seus efeitos, criamos adjetivos que complicam ainda mais sua definição: amor de mãe, amor de amigo, amor de namorada, amor de marido, amor de militante do PT…

O mundo transformou o amor. Tentou dar-lhe uma orientação, mas acabou deixando-o perdido. Esquecemos que o amor não depende de ninguém para existir, nem mesmo dos valores culturais, geográficos ou religiosos de fulano ou beltrano. Mas sim do que há dentro de nós. Deixar o amor ditar as regras, livre para simplesmente amar cada vez mais, é um desafio gigantesco. Até porque, também transformamos o conceito de liberdade.

Mas enfim. Por essas e outras, as pessoas se convencem que o amor acaba – como naquela crônica do Paulo Mendes Campos. Não lhes parece evidente? É só escorar o amor em alguém para vê-lo cair e se desencantar. Como aconteceu com uma de nossas visitantes, que registrou aqui um triste testemunho:

O amor acaba sim! O meu acabou de acabar. O que sinto agora pelo ser que antes amava é um misto de pena e desprezo. O amor acabou assim, repentinamente. Motivo? não sei o motivo, só sei que acabou.

Poderia ter indicado a ela uma boa dose de Roberto Freire, mas preferi responder de outra forma, mais direta e despretensiosa:

Fico triste por você, afinal de contas, não é uma sensação boa descobrir que aquele sujeito que representava tanto na sua vida, de repente, não signifique nada. Mas lamento também por ele - ainda mais se ele de fato amar você.

Agora tente imaginar alguém que ama demais outra pessoa e, num primeiro momento, foi convencida de que havia reciprocidade. De repente, o amor acaba de um lado. E o outro fica sem saber o que se passa: o que era amizade, e que virou namoro, e que virou algo mágico, de repente virou algo ruim, até virar nada.

Tenho absoluta convicção de que não é mole pra ninguém passar por isso. Mas a melhor coisa a fazer é ser sincero. Sempre. Esclarecer tudo e não deixar dúvidas pode doer no início, mas essa dor passa, cicatriza e vira uma recordação positiva. Passar o resto da vida imaginando "se poderia ser diferente" é bem pior.

Grande abraço, e obrigado pela visita!

Quando recebi a resposta de nossa ex-apaixonada, me dei conta: aquelas palavras simples tiveram um resultado formidável:

Hoje ao ler seu e-mail aconteceu algo muito estranho. Fiquei refletindo mais que o nescessário sobre as coisas que escreveu. Mais do que eu supunha que ficaria. Suas palavras me impressionaram muito, tocaram meu coração.

Comecei a pensar no quão egoista tenho sido e tenho sido até mesmo uma pessoa cruel. Jamais havia pensado no sentimento daquela pessoa, que afinal de contas fez parte de minha vida por quatro anos. Vivemos momentos mágicos, de muita felicidade.

Tá certo, o amor acabou. Mas isso não me dá o direito de ser cruel com esta pessoa só porque já não a amo mais. Vou seguir seu conselho: serei, acima de tudo, sincera, mas tabém serei humana. O desprezo que vinha demonstrando por ele não é algo justo, é algo muito desumano. Dar um fim a essa relação sim, mas farei com que as coisas sejam menos doloridas.

O mundo virtual nos traz muitas surpresas, e para mim o dia de hoje me trouxe o seu e-mail. Talvez não tenhas a dimensão do quanto me ajusdastes. Sinceramente, quero que encontres a felicidade, que só pessoas maravilhosas trilhem seu caminho!

Muito Obrigada!

Eu é que agradeço. E só trouxe a história aqui porque nenhum de nós aprendeu a amar de verdade. E isso é um bom começo.

***

Obviamente, há formas e formas de ajudar aquele que passa por percalços do amor. Peço licença ao Editor do UOL Tablóide para trazer até vocês outro exemplo bem sucedido.

Tenho muitas qualidades e alguns defeitos. Entre os defeitos, uma maldita humildade da qual não consigo me livrar, mas isso é outra história. O que eu quero contar é que neste final de semana eu descobri mais uma qualidade, ou quase isso: a de Conselheiro Amoroso.

Loser, um amigo meu de apelido auto-explicativo, tomou um fora da namorada. Ele podia beber, desabafar com os amigos, ir ao cinema, ligar pra psicóloga, fingir que não era com ele… Em vez disso, foi para numa mesa de sinuca comigo. (Sim, sou bom de taco. Sem piadinhas de duplo sentido, por favor.)

Loser queixou-se que sua ex terminou por telefone. Eu disse “Calma, Loser, que a catraca vai girar novamente”.

Loser queixou-se que sua ex não “discutiu a relação”, já chegou terminando e ele não teve como tentar melhorar. Eu disse “Calma, Loser, que a catraca vai girar novamente”.

Loser queixou-se que sua ex quis terminar como “amiguinha” dele. Eu disse “Calma, Loser, que a catraca vai girar novamente”.

Loser queixou-se que sua ex nunca o elogiou, só depois que a droga da relação acabou. Eu disse “Calma, Loser, que a catraca vai girar novamente”.

Enfim, Loser queixou-se que sua ex terminou com ele. Eu disse “Calma, Loser, que a catraca vai girar novamente”.

Sou ou não sou um bom conselheiro amoroso?

***

Já diria aquele velho deitado: casa de ferreiro, espeto de pau. A verdade é que mesmo eu, você ou o sábio Editor do UOL Tablóide, capazes de enxergar a solução para a vida alheia, consegue consertar a própria. Há alguns dias, outra jovem apareceu por aqui, registrando um comentário mais ousado. Disse que, se eu for o mesmo sujeito que aparece nas fotos, eu era um gatinho. Perguntou se eu tinha namorada e deixou seu e-mail para resposta. Mas antes, uma frase curiosa: “eu achei seu blog criativo, mas não legal. Fazer o quê, né?”

Como quase não chove na minha horta, caprichei na resposta.

Tudo bem, broto?

Antes de mais nada, muitíssimo obrigado pelos elogios - não é todo dia que aparece alguém e diz que eu sou um gatinho. São os seus olhos - ou talvez o impacto dessas fotos, muitas delas antigas o suficiente para retratar a realidade.

A bem da verdade é que eu fico com os dois pés atrás toda vez que aparece alguém do éter e, mesmo sem me conhecer, demonstra segundas intenções. A web é um ambiente repleto de gente estranha, muitas delas incapazes de agir da mesma forma quando desliga o computador. Seja por timidez ou por razões estéticas mesmo.

Mas enfim. Voltando ao seu comentário, franzi a testa ao constatar que você não acha o blog legal, apesar de criativo. Convém avisá-la: normalmente as pessoas que me encontram pessoalmente após passar pelo blog dizem que "sou exatamente como estou aqui". Ou mais engraçado.

Ou seja: imagino o dia que marcarmos para tomar um café e jogar conversa fora. Depois de duas ou três risadas, você vira e diz: "sabe, achei você um sujeito criativo... Mas não legal. Fazer o quê, né...".

Bom, se isso acontecer, ao menos você não vai dizer que "eu era melhor nas fotografias..." :-D

Respondendo à sua pergunta, não tenho namorada. Aliás, faz tanto tempo que não me lembro mais como é ter uma. Vou mais longe: ultimamente, todas as pessoas interessantes e inteligentes que conheço moram longe ou já estão comprometidas. As outras não querem saber do termo "namoro", acham que eu sou romântico demais para bancar o canalha e satisfazer suas necessidades físicas. De repente, o destino prova que eu estou errado.

Ah, se você responder a essa mensagem e dizer que gostaria de continuar a prosa, prepare-se: na maioria das vezes, escrevo bem mais que isso. Aproveite pra me contar o que você faz da vida (e com a vida), e o mais importante: o seu signo.

Grande beijo pra ti!

Estranho, mas ainda não tive resposta. Será que eu disse alguma besteira?

(Postado em 30/06/2005)

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Comentários em blogs: ainda existem? (5)

  1. Não sei se já te dei esse conselho, mas acho que você deveria criar a categoria Calhau aqui no seu blog. ;)

  2. Oi, já que vc é conselheiro amoroso, aí vai… nossa eu estou afim de um cara saímos todo final de semana ele parece interessado pois me liga e manda mensagens umas duas vezes por semana, mas não entendo porque ele não assume um namoro, será que estou perdendo tempo com ele… já estamos saindo tem um mês e eu já dei, aiai to com medo dele querer só sexo!!!

  3. Amar ver o sol por entre a noite escura, é sofrer na alegria e gozar na tortura…É resumir num só verso o infinito desejo:- viver por um sorriso e morrer por um beijo

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