Presenteando Anadiômena

Então um dia eu estive em uma praia deserta, vestindo meu calção do Internacional. Parecia mesmo Cassandoca, em Ubatuba. Ali eu tive uma visão que mudou minha vida. Era Vênus Anadiômena, eterna amante saindo das águas em busca do amor verdadeiro. Aquele diálogo, reproduzido em prosa, tornou-se oferenda capaz de aflorar das águas outras lembranças doces, verdadeiras, fundamentais. Uma alegria semelhante aos ventos inesperados na tarde quente soprou enquanto permanecia sentado em uma pedra, tentando guardar aquela sensação para mim.

De repente, fechava meus olhos e, mesmo sem querer, lá estava eu naquela praia. Mas não era como da primeira vez: a notícia daquela aparição efêmera invadiu o inconsciente coletivo. Todos queriam saber quem era o barrigudo, carregado de frustrações, despertou uma deusa. Muitos torciam por um encontro para a eternidade. Vários alertavam: deuses são efêmeros e inconstantes…

Mais uma vez, a gota que o orvalho escorreu da noite nos lábios da aurora atingiu os seis azuis daquela criatura multípede, alada… Linda. Ah se eu pudesse tirá-la desse mundo de sonhos e levá-la para minha casa… Não precisei pedir: ela segurou na minha mão e, como se trocássemos alianças, selamos nossa união.

Passei a dedicar horas da minha vida ali, naquela pedra, admirando o horizonte e sorrindo, bobo, feliz. Descobri que Anadiômena, verdadeira pérola, vivia em uma concha, onde colecionava outras de várias partes do mundo. Passei a atirar conchas na água, imaginando ser uma forma singela de representar o quanto me sentia bem em ficar ali. A retribuição era sempre maravilhosa: aparecia, sempre brilhando mais que o sol, e chegava bem pertinho. Lembrava que, entre sonho e realidade, não havia distância intangível.

Até que um dia fechei os olhos, adormeci, atirei uma conchinha, mas o tempo fechou. Nuvens pesadas, chuva forte. E uma onda surpreendente me jogou para fora da pedra.

Corri para qualquer lado. De repente, me vi perdido no meio da mata. Fiz o que pude para demonstrar força, mas o frio e a chuva eram mais fortes. Não consegui segurar minha fraqueza. Ajoelhei, ergui os braços e pedi auxílio à primeira entidade que pudesse aparecer.

Surgiu uma figura alta, barbuda, com um belo traje. Chamou a atenção o fato de não ter uma perna. Ofereceu algumas folhas.

– Mastigue isso. Vai tranquilizar sua mente.

– Cê é loco? Botar isso na boca? E quem é você? Um saci maconhista?

Aquela figura sorriu, pacientemente.

– Sou Ossanha, meu caro. O Orixá das plantas e das matas. Tenho o reino e poder das plantas, além de tranquilidade e equilíbrio emocional que podem ajudá-lo. Agora mastigue e mantenha a calma. Vai ficar tudo bem.

– Não parece nada bem. Está vendo essa tempestade? Frente fria! Como eu posso ser feliz com Anadiômena e um calção do Inter? Aliás… Espere aí! Você é o cara daquela música infame! Coitado do homem que cai / No canto de Ossanha traidor / Atrás de mandinga de amor / O amor só é bom se doer / Vai vai vai… Sofrer! Ora, seu…

– Não me culpe. Nada tenho a ver com essa letra. Vá reclamar com Vinícius e Baden. E outra: você não está raciocinando. Afinal, o homem que diz “sou” não é, porque quem é mesmo é “não sou”. E o homem que diz “dou” não dá, porque quem dá mesmo não diz. Não concordas?

– Tá, tá. Com tanta água na cabeça, não sei mais se sou ou se dou. Só me diz uma coisa: essa tempestade vai passar ou vou ter que sair daqui? Posso gritar do alto daquela pedra alguma palavra mágica, capaz de quebrar o encanto e nos deixar felizes de novo?

– Encanto? Não parou pra pensar que estas interpéries são obras da natureza? Você devia aproveitar esta oportunidade pra pensar em você. Agora me diga: que coisas surgem em sua mente quando pensa em Anadiômena?

– Ah, as mais doces, amorosas, intensas… Não consigo mais imaginar minha vida sem esse lugar aqui.

– Ótimo. E como você demonstra isso a ela?

– Mmmhhh… Eu fico admirando o horizonte… Atiro conchinhas para ela…

– Conchinhas? CONCHINHAS???

– Ué… O que tem? Ela coleciona conchinhas, gosta delas.

– Sim… Mas… Só conchinhas??? Eu… Pensei que você a amasse!!!

– Poxa, Ossanha, tem várias formas de mostrar isso, não acha? Observe outras praias por aí. Repare como tem gente atirando toda sorte de coisas na água, sem nenhum critério ou razão. Há uma banalidade tão forte nisso tudo… Eu mesmo já dei presentes por aí que me arrependo… Lembro daquelas cestas jogadas ao mar e vejo um vazio danado…

– Certo. Mas perceba: o vazio não está naquela cesta. Está em você.

– Cuma?!

– Meu amigo, esqueça o passado. Se você quer oferecer algo maior do que sua admiração e algumas conchas, mas só consegue ver o vazio de um cesto antigo, é porque ele espera que você o preencha. Seus traumas, bobagens… Tudo de ruim que você associou a esta ausência antes de subir naquela pedra pela primeira vez… Nada disso cabe entre você e sua amada Anadiômena. Você consegue entender isso?

– Cacetada… Estou me sentindo um idiota. Lógico que eu poderia ter feito mais, mas sabe… Eu julgava que eu pudesse ter deixado meus sentimentos claros, tudo esclarecido…

– Entendo perfeitamente, meu caro. Agora, pense: agir assim significa pedir para não mexer no que te trava. Como se você dissesse: “é assim que eu vejo, eu sou desse jeito”. Mas você precisa mesmo agir desse jeito? Não consegue questionar? Se você nunca ofereceu algo mais a ela por algum presente mal entregue no passado…

– Eu preciso agir, lógico! Mas… Essa chuva… Esse vento… Não sei o que posso fazer agora.

– Bom, como disse, o mais importante agora é se acalmar. O tempo é sábio, e você saberá decidir com serenidade. Sobre o presente… Já pensou em palavras dentro de uma garrafa?

– Palavras?

– Sim. A palavra tem força, meu caro. Você diz que desvalorizou presentes no passado pois não via mais sentido neles… Uma palavra entregue com certeza, com significado… Ela marca uma vida. É maior que qualquer medo. E dependendo do que escrever, você vai demonstrar que está todo ali, naquela pedra, vulnerável… Mas é a única maneira de se entregar, meu rapaz. É se deixar levar, a despeito de todos os traumas.

Acordei daquele sonho tenso, mas entusiasmado para arremessar todas as garrafas que estavam ao meu alcance, antes que o tempo pudesse virar, na praia de Cassandoca. Todas com uma conchinha dentro e um papelzinho com a frase: “imagine que cada conchinha que te dei fosse como se eu lhe dissesse eu te amo, e pense em cada garrafa dessas como se eu desejasse enchê-la com todo o amor que pudermos acumular juntos”.

Desde então, perdi meu medo das ondas, da chuva, do frio, da vida.

***

Hoje é aniversário da minha amada Anadiômena, e há dias não paro de pensar em duas coisas. Uma é o fato de não estar lá, diante dela, para dizer meus votos de felicidades, desejos, experiências e tudo o que vier à cabeça: só posso me contentar em fechar meus olhos e sentir a areia entre o dedos, a água chegando de mansinho, a brisa e o calor do sol.

A segunda é que, mesmo se pudesse, seria apenas eu, e não o Capitão Neruda.

Toda la noche he dormido contigo
junto al mar, en la isla.
Salvaje y dulce eras entre el placer y el sueño,
entre el fuego y el agua.

Tal vez muy tarde
nuestros sueños se unieron
en lo alto o en el fondo,
arriba como ramas que un mismo viento mueve,
abajo como rojas raíces que se tocan.

Tal vez tu sueño
se separó del mío
y por el mar oscuro
me buscaba
como antes
cuando aún no existías,
cuando sin divisarte
navegué por tu lado,
y tus ojos buscaban
lo que ahora
—pan, vino, amor y cólera—
te doy a manos llenas
porque tú eres la copa
que esperaba los dones de mi vida.

He dormido contigo
toda la noche mientras
la oscura tierra gira
con vivos y con muertos,
y al despertar de pronto
en medio de la sombra
mi brazo rodeaba tu cintura.
Ni la noche, ni el sueño
pudieron separarnos.

He dormido contigo
y al despertar tu boca
salida de tu sueño
me dio el sabor de tierra,
de agua marina, de algas,
del fondo de tu vida,
y recibí tu beso
mojado por la aurora
como si me llegara
del mar que nos rodea.

André Marmota tem uma incrível habilidade: transforma-se de “homem de todas as vidas” a “uma lembrancinha aí” em poucas semanas. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (3)

  1. Eis que surjo nada impactante como a Vênus, mas sim das cinzas e me deparo com um post sensacional Estou me atualizando no seu blog daqui até o post de 2007 onde tive a oportunidade de lhe conhecer. Fiz uma festa árabe recentemente e tive que montar um narguilé (desta vez com muita facilidade), impossível não lembrar de você e sua turma. Um abraço!

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