Opiniões sobre blogs jornalísticos

Esses dias recebi um pedido especial do meu amigo Hugo, a respeito de blogs e jornalismo. Começava mais ou menos assim.

André, precisava conversar com um jornalista que mantém um blog jornalístico. Sei que seu blog não é essencialmente noticioso, pois também tem curiosidades e outras coisas, mas repercute notícias e isto muito me interessa. Se puder me ajudar respondendo a este mini-questionário, ficarei imensamente grato.

Com alguns dias de atraso, mandei as respostas – muitas delas “pinçadas” de coisas que já tinha escrito aqui. Fique a vontade para complementar ou detonar as minhas respostas.

1) O que o motiva a escrever um blog jornalístico e a comentar notícias? Quando começou?

Comecei com o blog em setembro de 2002. E foi de repente, nada planejado. Já tinha lido várias matérias sobre a onda blog, mas não tinha noção alguma do que se tratava. Visitei um ou dois blogs e pensei: “ah, isso eu também posso fazer”! Não tenho a pretensão de fazer um site de conteúdo específico e pertinente. Faço o que a maioria faz: além de comentar notícias, falo da vida, conto histórias, invento outras… Minha motivação é a mesma desde então: uso o blog como uma válvula de escape. Uma espécie de “quebra de ritmo”. Vez ou outra estou envolvido em algum assunto que consome muito tempo e paciência. Pra relaxar, abro o blog, leio alguns comentários, clico em algum link aleatório… O blog também acabou se transformando em uma função “social”: com ele, acabei encontrando pessoas que se identificam com o que escrevo, discutem as idéias, concordam, discordam… Isso se amplia constantemente, formando uma verdadeira micro-comunidade.

2) Qual a importância dos blogs para a difusão de informações e de opiniões?

Ao contrário dos grandes veículos de imprensa, um blog normalmente é feito por uma única pessoa. Ou seja: não funciona apenas como um filtro, ou um novo canal de notícias e opinião. Ele é, acima de tudo, uma página pessoal, tem identidade. E a grande sacada é a identificação do leitor com o autor, sem intermediários. Além disso, os blogs “conversam” entre si a partir dos links e de uma ferramenta chamada trackback, onde é possível identificar quem também está falando do mesmo assunto. Quanto mais gente participar desse debate, mais chances nós temos de democratizar a informação.

Mas isso ainda está muito longe de acontecer. A maioria das pessoas ainda se relacionam com a informação da mesma maneira que fazem em dezenas de anos: a partir das empresas de comunicação de sempre. Talvez no futuro, qualquer um pode abrir seu celular (ou genérico) e participar de uma incrível via de mão dupla das comunicações a partir de uma rede pública sem fio, sendo capaz de distribuir informação como qualquer um e ter sua voz garantida, podendo ganhar força e dar a tão sonhada independência à informação. Mas sinceramente, não saberia dizer qual o papel das empresas que ainda monopolizam o poder da imprensa nesse cenário.

3) Você acha que um blog pode contribuir negativamente para a difusão de informações? Por exemplo, quando dá muita importância a rumores que, posteriormente, se revelam falsos?

Acho. Graças a qualquer um que recebe por e-mail aquele apelo ou promoção fake, aquele texto que não é do Veríssimo… Enfim, todas as bobagens que vão parar na Internet e que, no meio do mais puro entretenimento, se transforma em verdade absoluta. Ao mesmo tempo, ferramentas de busca como o Google não separam o joio do trigo: qualquer resultado de busca, seja notícia ou texto de blog, aparece na mesma sequência, como se fosse uma coisa só. Atualmente, só existe uma forma de controlar isso: a partir do discernimento do próprio internauta, isoladamente. Isso infelizmente só vai se intensificar quando o conceito de “inclusão digital” for além de um simples “entregue um computador barato e uma conexão pro nosso amigo aí”.

4) Poderia estabelecer alguma diferença entre um blog jornalístico escrito por um jornalista e um blog jornalístico escrito por um profissional de outro ramo?

Blog jornalístico, independente de quem o faça, obedece alguns pré-requisitos da profissão: toda informação que vai ao ar deve ser apurada, checada, com dados devidamente levantados e organizados. Dito isso, qualquer um que tiver acesso a ferramenta e que obedeça esses critérios, pode relatar fatos em alguns cliques e se transformar em repórter, redator, editor… Salam Pax, blogueiro da guerra do Iraque, talvez tenha sido o exemplo mais emblemático de “blogueiro-jornalista”.

5) Acha válido para o público que os jornalistas não tenham mais o “monopólio” da informação?

Perfeitamente válido. Mas como disse, isso ainda parece um objetivo distante. Talvez outras duas razões expliquem a ausência de pessoas que queiram “fazer a imprensa com as próprias mãos”, como definiu certa vez o jornalista Pedro Dória. Primeiro: nem todo mundo sabe o que é um blog, ou para que ele serve. Pessoalmente, acho que só quem mantém um sabe a resposta. Há quem ainda ache que blog funciona como “querido diário adolescente”. Outros grandes portais, que já descobriram a ferramenta, simplesmente puseram seus colunistas para competir com o Ricardo Noblat. E ainda não entenderam como eles funcionam.

A segunda: quantos bons blogueiros estão realmente interessados em adotar essa postura informativa? Concordo com a afirmação de que as redes formadas pelos blogs brazucas são mesmo como “uma grande conversa de bar”, tal qual fora da web. Vou mais longe: se no dia-a-dia o povo prefere jogar conversa fora no boteco e deixar o barco correr, quem é que vai querer perder tempo bancando o jornalista?

André Marmota acredita em um futuro com blogs atualizados, livros impressos, videolocadoras, amores sinceros, entre outros anacronismos. Quer saber mais?

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