O Quimêiquer

Existem muitos mistérios por trás de uma chave. O mesmo objeto que pode nos libertar, abrir mundos novos e conhecimentos a serem explorados, também é capaz de trancar segredos, sufocar desejos e sensações. Instituições seculares ligadas ao saber usam chaves em seus símbolos para representar esta dialética. E o que São Pedro carrega, segundo consta? É ele quem tem o poder de abrir ou fechar o cadeado do Paraíso. Responsabilidade similar a de quem carrega um molho no bolso: o ato de caminhar rumo a uma porta indica determinação e firmeza: “vou entrar nessa”.

Tão importante quanto quem guarda a chave é quem lida com elas. Em Matrix, um velho coreano fazia o papel de um responsável por liberar ou ocultar caminhos, informações, universos. Foi das mãos deste chaveiro, capaz de moldar labirintos e traçar atalhos, que o escolhido Neo alimentou as esperanças de chegar ao mainframe daquela maluquice toda, comandar o batatal e proteger Trinity. Não fosse pela habilidade do oriental, as portas para aventuras eletrizantes jamais seriam escancaradas.

As possibilidades abertas (ou esquecidas) a partir de uma chave deveriam pesar sobre o ofício de chaveiro. Trata-se de um sujeito capaz de, veja você, trocar segredos. Preciosamente poético. E quando a única cópia da chave do carro, coincidentemente na mesma argola onde estão as do portão da garagem e da porta da frente, vai parar misteriosamente no porta-malas que se fecha no meio das sacolas do mercado? Ou ainda, num momento humanamente compreensível, a porcaria do trinco enrosca antes de completar uma volta e, por conta da força, a coisa toda se quebra lá dentro? Quem você vai chamar?

Um bom chaveiro é como um super-herói. Resolve seu problema a qualquer hora, é ágil, metódico e confiável na mesma medida. Espera-se, diante disso, que este profissional se especialize constantemente. Entenda de chips, códigos eletrônicos, fechaduras complexas. Não é o que parece: dependendo da oficina, é comum encontrar gente que “aprendeu a copiar uma chave” prestando atenção como se faz. Assim, escolher um chaveiro deveria ser como indicar um pedreiro ou um mecânico.

Como aprendi tudo isso? Simples.

Oportunidades incríveis apareceram para mim, ao lado da minha Garotinha Ruiva. Mas para usufruí-las, precisava que a chave dessas novas portas pudessem ser compartilhadas. Tinha pressa: durante uma semana, os primeiros passos na direção nova exigiam um certo malabarismo ao entrar e sair. A necessidade me levou a um shopping, desses que frequento pouco, mas ocasionalmente apareceu em minha rota em uma tarde vazia. “Certamente vou encontrar um chaveiro aqui”, pensei.

Encontrei um centro de serviços, desses que têm desde cópias xerox até canecas com fotografias para lembrancinhas. Dois jovens aprendizes riam de alguma coisa no monitor do computador. Outro rapaz terminava uma encadernação espiral antes de me atender. Estava claro: tinha até quem mexesse com chaves ali.

– Boa tarde, precisava fazer três cópias de cada, por favor – pedi, mostrando uma novíssima chave Yale comum e outra Tetra, de uma tranca antiga, já gasta pelo tempo.

– Ih, meu rapaz, você poderia esperar? Nosso chaveiro teve que sair às pressas, disse que foi num estacionamento fazer um… Como é? “Loque pílim”? – respondeu o balconista. Em casa, mais tarde, fui ao Google saber o que significava. “Você quis dizer lock-picking”.

– Ah é? Mas ele demora?

– Uns quarenta minutos.

Não! O que faria em um shopping durante esse tempo todo? Comer? Gastar?

Eis que surge, atrás de uma fórmica divisória, o Quimêiquer.

– Não se vá. Deixe comigo. Eu faço essas chavinhas aí pra você.

Não sabia se ficava aliviado ou desconfiado. O Quimêiquer devia ter seus cinquenta anos. Lembra aqueles simpáticos frequentadores da pracinha, na frente do boteco, durante longas tardes de domingo. Baixinho, boné branco, camisa roxa do Corinthians apertadíssima na barriga. E óculos grossos, capazes de levantar todas as suspeitas: “esse cara sabe mesmo o que está fazendo?”

– Mas olhe: essa aqui custa quinze a cópia. Só essa é de oito contos – afirmou, ao examinar cada peça. Nada que eu não soubesse: os preços estavam bem visíveis, ao lado dos outros cento e duzentos serviços oferecidos ali.

Pacientemente, olhou para a chave menor e retirou os perfis do quadro de chaves. Ligou a duplicadora e, não menos paciente, rasgou o ferro de cada uma, mimetizando os dentes. Com a ajuda de um esmeril, removeu algumas rebarbas. Fez o mesmo com cada chave Tetra, nitidamente mais complexas. Concluiu o serviço antes mesmo do titular da bancada voltar do tal “arrombamento consentido”.

E lá fui, todo pimpão rumo às portas da esperança. Anunciei a boa nova e, num momento informal porém solene, enfiei uma chave Tetra no buraco da fechadura.

Nenhuma das três girou. Para lado nenhum. Independente da posição.

Mas tudo bem, ao menos tínhamos chaves novas para a porta Yale! Oba!

Nenhuma delas sequer entrou na fenda. Pareciam mais grossas. Pior: era como se um idiota tentasse enfiar qualquer outra chave errada ali.

Maldito Quimêiquer! Graças a ele, teria que mexer na agenda do dia seguinte, rodar pela cidade num caminho pouco comum e questionar o que deu errado! Assim foi feito.

– Boa tarde! Gostaria de conversar com o responsável pelo serviço de chaveiro daqui.

Em meio à moçadinha perdida, apresentou-se um rapaz simples, rude no tratamento interpessoal, com cara de poucos amigos. “Será que o Quimêiquer aprendeu a copiar chaves com ele?”, estranhei, enquanto explicava o que tinha acontecido.

– Bom, de fato estas aqui são mais difíceis, podem dar algum problema, é preciso ser atento aos menores detalhes – justificou, segurando uma chave Tetra. – Mas estas outras aqui eu vou refazer apenas por desencargo, mas é impossível não ter funcionado – garantiu, não sem antes perguntar “quem tinha me atendido”. Fiz a breve descrição do Quimêiquer.

– Aaahhh… Sim.

Saí da loja com o total de doze chaves novas: as seis do dia anterior e outras seis que, nas palavras do especialista, não tinham razão alguma para dar errado.

Dá para acreditar que todas elas repetiram, rigorosamente, o mesmo problema? Se você fosse o “mestre do Quimêiquer”, o que diria se eu voltasse naquela verdadeira “Central do Retrabalho” e contasse, com a maior simpatia e tranquilidade, que minha demanda havia se multiplicado em uma dúzia inútil?

– Ah, não é possível. É mentira sua. Nem estas aqui entraram? Cara, eu não vou gastar mais chaves do quadro pra você. Quero examinar as fechaduras.

– Opa, claro! Pode ser agora? Eu te levo, vem comigo.

– Maravilha, só preciso pegar minha mochila, espere um instante.

No caminho, perguntei o que ele carregava ali. Basicamente, tudo o que precisava para solucionar qualquer caso misterioso: furadeira/parafusadeira portátil, formão e lixa, pó de grafite (para desengripar trincos), um jogo de michas… Até um pequeno pé-de-cabra.

– Em dois anos nesse serviço, já usei um pouco de tudo – admitiu.

– Caramba! Enfim, curiosamente, é o mesmo kit que um ladrão de carros usaria, não? – brinquei. O “mestre do Quimêiquer” nem sorriu, talvez não tenha curtido a anedota.

Chegamos. Primeira missão: a fechadura Tetra. Removeu o trinco com a velocidade da parafusadeira para poder experimentar, chave a chave, facilmente. Um pouco de força a cada tentativa, como se pudesse sentir a altura dos dentes da chave. Com a lima, acertava as arestas da peça, tentando liberar os delicados pinos, girar o cilindro e mover a tranca. Algumas idas e voltas e as chaves emperravam: era a vez do pó de grafite. Mas não muito, para não estragar o mecanismo. Outra questão importante: não se deve misturar o pó com outro produto lubrificante (tipo WD).

– Separei as três melhores chaves Tetra para você. Ainda vão te dar trabalho, mas é porque a fechadura é antiga, precisa trocar mais pra frente. Mexi nas outras também, mas elas travaram mais. Guarde para uma eventualidade.

É… Não está bom, mas está melhor.

– Agora, essa Yale… Não entendo como pode.

– Mas veja, com os seus próprios olhos: nenhuma delas sequer entra no buraco da porta! Compare com a original, olhe!

Bastaram alguns segundos para a cara do “mestre do Quimêiquer” mudar para o estado “ogro”.

– Ei, mas você não levou essa chave pra loja! Não pode ser!

– Cuma?

– Não foi essa! Foi outra!!! Essa chave nunca esteve lá!!!

!?

– Meu amigo, isso é impossível. Essa porta é nova. Só existe esta chave. Repare nos dentes de todas elas: são idênticos. Não faz nenhum sentido ter trocado por outra. Afinal, o que tem de errado nelas?

– Vê aqui. O perfil da chave original tem o friso, que encaixa na fechadura, do lado esquerdo. Esse friso aqui está do lado direito!

Ah! Quer dizer que o Quimêiquer escolheu o modelo errado enquanto comparava as dezenas de opções naquela tabuleta?

– Cara, seja racional: desde a primeira vez eu esperava por rapidez, não ganho nada te enrolando, trocando uma chave pela outra. Posso garantir que esta foi a chave levada para vocês. Nas duas vezes!

Sim! O Quimêiquer e seu “mestre” cometeram o mesmo recheio de fralda! Um por vez!

– Mas eu não me conformo. É um erro primário. Não se faz uma coisa dessas – lamentou.

Respirou fundo e, ainda cabisbaixo, fez sua promessa.

– Passe lá amanhã. Vai ser a última vez. Vou fazer a chave certa. Mas se eu não estiver lá, insista para quem te atender: o perfil certo e o do encaixe para este lado aqui, entendeu?

O “mestre do Quimêiquer” estava certo. Seria a última vez que botaria os pés naquela espelunca. Estava escrito em alguma chave do destino: o chaveiro não estava lá. Fui atendido por um jovem que ainda não tinha visto no balcão da Central do Retrabalho. Muito cortês, já sabia da história das “cópias erradas”. Onde já se viu? Tomou a iniciativa, mostrou os modelos corretos, duplicou e esmerilhou as chaves e sentenciou: “agora vai!”.

No outro dia, recebi uma mensagem da Garotinha Ruiva:

“Meu bem, as chaves engasgaram na porta. Desista da Turma do Quimêiquer. Arrumei um outro chaveiro aqui perto, já fiz as cópias e elas funcionaram lindamente. Beijos.”

André Marmota pode perder um grande amor, um amigo de longa data ou uma oportunidade de trabalho... Mas não perde a piada infame. Quer saber mais?

Leia outros posts em E eu, uma pedra. Permalink

Comentários em blogs: ainda existem? (4)

  1. Só você pra transformar uma simples ida ao chaveiro numa história tão legal de ler. “Cometeram o mesmo recheio de fralda”, hahaha!

    Se eu fosse você, despejava todas as cópias inúteis no balcão do Quimêiquer e avisava: “Nenhuma funcionou, fiz em outro chaveiro. Tchau”!

  2. Eita,saga!Nada como alguém que conhece onde procurar para resolver esses problemas.Excelente história.

Vai comentar ou ficar apenas olhando?

Campos com * são obrigatórios. Relaxe: não vou montar um mailing com seus dados para vender na Praça da República.


*