O maldito ‘The Show Must Go On’

Estava sentado, em frente ao meu computador no trabalho, quando aparece uma mensagem interna: “Ué, você não vai escrever a coluna?”. Na hora, pensei: “Puuuuuutz, esqueci. Mas e agora o que vou escrever?”. Sem assunto, estava divagando sobre escrever novamente sobre a Noite dos Leopardos, ou então a respeito do Carnaval da Bahia ou até da polêmica greve do metrô. De repente, o tema caiu no meu colo.

Passava o jogo entre Camarões e Colômbia, válido pelas semifinais da Copa das Confederações, em uma das várias TVs da redação. Quando vi um jogador desmaiar. “Ué, ele morreu?”, “Cadê o médico?”, “Por que este alvoroço, escreve a nota!”, foram algumas das afirmações ouvidas após o incidente.

Desesperados, os atletas das duas seleções chamaram o médico. No campo, o jogador ainda foi atendido às pressas em um clima de muita preocupação. Pouco mais de 30 minutos depois, soubemos que o tal jogador, o meia camaronês Marc-Vivien Foe, de 28 anos, morreu no hospital de Lyon, vítima do “acidente de trabalho”.

Confesso que até agora não assimilei o golpe. Nunca imaginava que um dia assistiria a um jogador morrer durante uma partida de futebol. Nunca pensei que o esporte predileto do mundo encerrasse de forma tão brutal a vida de um atleta, que havia participado da Copa de 1998 e era considerado apenas um jogador regular pelos especialistas do desporto bretão. Uma morte chocante! Ele morreu jogando bola. Não dá para acreditar…

Mas o pior estava por vir. Nunca imaginei que, 15 minutos após a confirmação da morte do atleta, França e Turquia entrariam em campo para disputar a outra semifinal da Copa das Confederações, a mesma competição que o Brasil foi eliminado na segunda-feira. Como os jogadores têm condições de disputar uma partida logo após um acontecimento trágico desses? Será que o jogo não podia ser na sexta? Foi quando ouvi uma velha expressão usada nestas horas. “Infelizmente, o show tem que continuar. A nossa sociedade é assim”, lembrou-me um sábio amigo.

Por quê somos assim? Será que o esporte tem de continuar, mesmo quando os próprios praticantes não se sentem à vontade para fazê-lo – visto que os jogadores turcos e franceses choravam antes da partida? Será que é assim que produzimos nossos heróis? É preciso fazer isso acima de tudo???

Lembram da morte do Ayrton Senna, de como a prova continuou, como se fosse a coisa mais natural do mundo… É ridículo isso…

Concordo que o show tem que continuar. Mas não custa nada, às vezes, parar um evento, que foi feito para divertir as pessoas, quando existe aquele clima pesado no ar. Seria a mesma coisa que continuar o show no Paraná, após a morte dos três jovens pisoteados. Simplesmente não tem sentido…

No ano passado, uma criança morreu durante a Volta da França de Ciclismo e, logo após a prova, falei com o brasileiro Luciano Pagliarini, único brasileiro no evento, que me confidenciou: “Eu não entendo até agora os motivos da etapa ter continuado. Só sei que sou profissional. Eles me pediram para seguir e nós continuamos. Mas se eu fosse da família do garoto, não teria gostado nem um pouco”.

Talvez essa seja a única explicação. “Somos profissionais e temos de continuar”. Mas até quando? Será que todos são tão insensatos assim? Parece que somos, né, Mr. Bush!

Narazaki, ainda horrorizado com a cena, escreve no MMM toda semana.

Comentários em blogs: ainda existem? (9)

  1. Essa história de que o show tem que continuar pode ser devido ao alto grau de competição em que todos vivemos dentro do captalismo. Se pararmos, outros passam a frente. Essa mentalidade acaba tornando as pessoas de certa forma, insensíveis demais. Não custava nada parar o jogo. Seria o mínimo de respeito com o jogador que faleceu. Até parece que foi “tá ele morreu, e aí, não dá nada, vamos continuar”. Só um pouquinho! Não é bem por aí, vamos com calma. Coisas assim estão se tornando banais e o mundo passa por cima de tudo que acontece de ruim pra não perder tempo, pois tempo é dinheiro, é fama, é poder. Infelizmente é assim.

  2. Pois é, companheiro, aqui na Redação do JB não foi diferente… no máximo um “aumenta o volume aí, vê se o cara morreu mesmo…”. Confirmada a morte pelas agências de notícias, a nota foi ao ar. E já estávamos cobrindo, atentos, a próxima partida…

  3. Maria Clara disse algo que estava discutindo esses dias: são tantas barbaridades que estamos aos poucos nos acostumando com elas, banalizando a vida e sem ficarmos tão indignados. Uma pena.

  4. Bem…Pelo menos existem pessoas como vcs (Nara e André) que têm a sensibilidade de perceber que essas “hecatombes” esportivas deveriam ser respeitadas com o devido pesar aos parentes daquele que se foi… Quem sabe em algum futuro nao muito distante algum organizador decente pense em família e afins…Um abraço…

  5. É da Marina Colassanti aquele texto chamado “Eu sei, mas não devia”?Sempre me lembro dele… A gente se acostuma, mas não devia!

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