O fenômeno JK

O ano de 2006 traz duas efemérides redondas relacionadas a Juscelino Kubitschek de Oliveira. Em 31 de janeiro de 1956, exatos 50 anos, o ex-prefeito de BH e ex-governador de MG assumiu a Presidência da República. E em 22 de agosto de 1976, exatos trinta anos, morreu em um acidente na Via Dutra, próximo a Resende, em um episódio que até hoje rende discussões conspiratórias sobre possibilidades de um assassinato premeditado.

Mas enfim. Só isso não explica essa nova onda, que resgatou a imagem de um dos nomes mais prestigiados e idolatrados da história do Brasil – isso se não for o maior. Movimento que, evidentemente, começa pela minissérie da TV Globo, exibida até semana passada.

Aliás, uma pergunta que os mesmos conspiradores do acidente poderia fazer: será que a rede que sempre viu JK com maus olhos aceitou contar sua trajetória como um pedido de desculpas? Como sou um cidadão ingênuo, prefiro acreditar que foi uma sugestão da autora, Maria Adelaide Amaral, que é uma apaixonada por história e, nas últimas vezes que a trouxe para a telinha, fez sucesso: Um Só Coração, A Casa das Sete Mulheres e A Muralha.

Aqui, um adendo: você sabia que a Maria Adelaide Amaral fez jornalismo na Cásper nos anos 50?

Mas enfim. Nosso personagem central é lembrado pelo salto de desenvolvimento da nação em seus anos dourados – resumidos em 30 metas, estradas novas, indústrias novas, usinas novas… E, sem querer, com seleção campeã, televisão crescendo, Maria Esther Bueno, bossa nova, cinema novo, Marta Rocha… Era o gigante adormecido crescendo 50 anos em cinco. Isso traz putra razão que indiretamente (???) revitalizou a imagem de Juscelino Kubitschek: as eleições presidenciais. Afinal de contas, todo candidato quer ser JK. Ou ao menos fazer o povo se sentir eufórico.

Ok, sejamos mais específicos: Juscelino remete primordialmente à transferência da capital federal para o Planalto Central. Idéia que saiu de um comício em Jataí, interior de Goiás, e começou a se transformar em 1956, quando reuniu o arquiteto Oscar Niemeyer, o urbanista Lúcio Costa, o “prefeito” Israel Pinheiro e um bocado de candangos. Do meio do nada, surgia o Plano Piloto e obras monumentais, além de ruas casas, estradas, viadutos… Processo irreversível, graças à obstinação do presidente em entregar a faixa ao seu sucessor já instalado naquele fim de mundo. Ou melhor, em Brasília, uma cidade de verdade.

Como tudo no país só funciona se for feito na última hora, JK foi esperto e marcou a data de inauguração: 21 de abril de 1960. As obras duraram três anos e seis meses, mas evidentemente tudo foi acelerado nos minutos finais. O milagre deu certo: a cidade cresceu e virou patrimônio cultural da humanidade. Tudo bem, não tem indústria nem agricultura. As favelas, que não estavam no projeto, cresceram nas cidades-satélite. Mas o que importa é que não adiantaram as pressões da época, nem mesmo a torcida para que aquilo fosse o cemitério da biografia de JK: a Capital da Esperança vingou.

Seu carisma, sua grandiosidade, sua habilidade política e seu legado estão representados na cidade não apenas em seu Memorial, erguido no início dos anos 80 pela esposa Sarah (e jamais tão visitado quanto nos meses de exibição da minissérie), mas por todo canto onde tem um edifício JK, uma ponte JK, um aeroporto JK… Não fossem as W3, L2, eixos, quadras e superquadras, teríamos, como em qualquer cidade brasileira, uma avenida JK.

Claro que ainda se discute suas ações econômicas: investiu horrores no transporte rodoviário, deixando o país morrendo de inveja da malha ferroviária de qualquer outra grande porção de terra do planeta, sem falar na emissão de mais papel-moeda para endividar o Brasil e pagar as obras superfaturadas da nova capital, que já nasceu sabendo o que é corrupção. Nem isso, no entanto, o tira o título de presidente mais idolatrado de todos os tempos. Ou você ainda acha que, daqui a algumas dezenas de anos, vai existir alguma minissérie “Lula”?

Últimos capítulos – Quando cheguei à cidade para meu passeio rápido, em 12 de março, a cidade convivia com a equipe da Globo, que preparava a gravação dos últimos episódios. Aliás, a tarde daquele domingo movimentou a Praça dos Três Poderes: um cordão de isolamento cercado por seguranças interditava a área que ia do Espaço Lúcio Costa até o Palácio do Planalto. A área próxima ao Panteão da Liberdade virou camarim de figurantes. Bem perto dali, carros antigos estavam preparados para a gravação, marcada para o fim da tarde.

Diferente de todos os transeuntes, não fiquei para ver o “felomenal” José Wilker: decidi ignorar aquilo e seguir minha caminhada pela Esplanada dos Ministérios.

Aconteceu, virou Manchete – Entre tantos livros e publicações que pegaram carona no fenômeno JK, destaque para a edição especial da Revista Manchete, que traz uma série de textos e fotos imperdíveis sobre a vida do ex-presidente. Aliás, a revista de Adolpho Bloch, criada em 1952, foi aos poucos tomando o lugar de O Cruzeiro como a mais lida revista semanal baseada em fotojornalismo. Mais do que isso: Manchete e Brasília cresceram juntas – não à toa, Adolpho Bloch era personagem representativo na minissérie.

Foram muitas edições dedicadas à JK e a cidade – a edição histórica de 21 de abril de 1960 teve tiragem de 760 mil exemplares, se esgotou em dois dias e hoje é um objeto dos mais procurados. O tempo passou, Adolpho morreu em 1995, a sua festejada emissora de TV virou RedeTV em 1999 e a editora Block faliu em 2000. Em 2002, o gaúcho Marcos Dvoskin arrematou os títulos da editora – Manchete, Manchete Rural, Pais e Filhos, Ele & Ela, Desfile, Fatos e Fotos, Amiga e Geográfica Universal.

Alguns destes nomes já estão de volta ao mercado. Outros, como é o caso da Manchete, ainda estão sustentados no Carnaval (ao lado da boa e velha Fatos e Fotos) e em seu rico material de arquivo, que já rendeu edições especiais como Ayrton Senna em 2004 e JK agora. Um trabalho muito bacana.

André Marmota tem uma incrível habilidade: transforma-se de “homem de todas as vidas” a “uma lembrancinha aí” em poucas semanas. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (3)

  1. Apenas as marmotas da vida.

    esse cara era um tarado e individou o Brasil.

    Não q eu num ache Brasilia linda, valeu muito a pena tudo isso …

    bjos e muito obrigada por essas informações ^^ ^

    Ainda existe vida inteligente na net ^^

  2. Eu vi uma das edições da Manchete sobre a nova capital federal, se não me engano falava de Brasília aos 5 anos de idade (em 1965, portanto). Tinha fotos espetaculares, as mais lindas da fase inicial de Brasília. Nenhuma revista privilegiou tanto o fotojornalismo como a Manchete.

  3. É marmota mesmo viu!!! O cara endivida o país, com sua vaidade
    e ainda fica como herói. Certíssimo quando se diz Brasília é linda
    e também sobre as favelas que cresceram ao redor. Que contradição, que feio!!!!!

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