O bagulho da festa do Tales

Por Marília, do blog Alvarenga Sempre

Eram tempos difíceis. Plena ditadura militar. Acho que foi em 1968. Não me recordo com precisão algumas datas. Lembro do lugar, das pessoas, dos cheiros, mas já começo a fazer uma pequena confusão com as datas!

Vamos ao caso: Estudávamos no colégio universitário da UFMG. Era no campus novo, aquela época com poucos prédios, um matagal imenso, paraíso da moçada! Além de ser território quase que impenetrável pelos militares, ninguém do DOPS tinha saco, ou perdia tempo em procurar aluno por lá. Na cabeça deles, só “filhinhos de papai estudavam na federal da Pampulha” , o alvo deles era e sempre foi a FAFICH-BH.

Pois bem, havia um aluno novo, o Tales. Filho de coronel da aeronáutica, recém chegado do Rio de Janeiro, precisava mostrar serviço pra se integrar com a moçada. Primeiros dias, ninguém falava com ele, por que antes de ele chegar, já havia corrido o boato de quem ele era filho.

De repente, o cara fala na cantina:

– Pois é bicho, cheguei de Amsterdã…

Foi a senha… Em menos de uma semana ele era o mais popular do colégio. Curiosas, Tânia e eu fomos chegando perto.

Beleza, o menino tinha de sobra (e tem até hoje), e o resto, haveríamos de descobrir. E descobrimos: – Haxixe, bicho, do bom, sem grilo…

Num era bagulho não, era haxixe bicho, e ninguém jamais havia visto por essas bandas…

Eu, particularmente sempre sofri um grande preconceito por parte da minha turma da UFMG… Naqueles tempos, droga num era coisa pesada… Droga era fumar bagulho (= maconha)… Droga era falar que provou mescalina e tomou LSD… Nunca gostei de fumar, me dava enjôo, vomitava até as tripas! Qualquer uma delas… Nada me dava barato… Só vomitava.

Até hoje, tanto que quando veio a “era do Santo Daime”, de cara eu falei:

– Essa merda dá vômito… E num deu outra!!!

Mas o Tales marcou festinha. Iria distribuir, só para os escolhidos a dedo.

O pai ia viajar com a mãe pro Rio, então estava combinado, na casa dele, sábado, duas da tarde.

(Porra é claro que eu tava no meio dos especiais!)

Ô xente, lá fui eu…. Rua Oliveira, perto lá de casa.

– Oi bicho, e aí? Tudo em cima? Legal?

Aqueles longos abraços que sempre me deram claustrofobia. Sério, você que tem mais de 50, se lembra como eram os abraços? Longos…

E a gente ficava falando assim: – Oiiiiiiiiii bicho…e aí???

Incenso, cachaça (Eca… nunca suportei), cigarro de palha, (outro problema), almofadas, as cortinas fechadas, o ambiente na penumbra.

E aí, que veio o pior…

Não, não era o bendito do haxixe não! Foi a música que colocaram… “In na gadda da vida”, Iron butterfly! Caramba, a música era terrível, repetia a mesma frase, e todos, como fanáticos, de olhos fechados se balançando no ritmo lento da maldita música, e fumando…

O cachimbinho ia passando de mão em mão, e chegou a minha vez…

Dei pra trás! Amarelei geral!

Embirrei e falei: – Gente, sem sacanagem, não fumo esse trem de jeito nenhum… Ou tira a música e abre a janela, ou vou pisar no cachimbinho e acabar com a essa experiência transcendental!

PQP era muita metamorfose pro meu estômago!

A reação:

– Pô, bicho… Sem sujeira…

– O som é massa…

– Calma Idy… Tá pirando sem viajar?

– To – respondi – tô pirando… E vou acabar com a festa, por que sujeira é convidar alguém para uma festa, sem vodka, sem Beatles, com janela fechada e uma música destas!

Claro que “cortei o barato” de todo mundo, Tales ficou dias sem falar comigo, o Regis quase morreu de tanto rir, e eu fui embora…

Gente, conselho de mulher experiente: só deixem seus filhos experimentarem qualquer tipo de barato, se for escutando Iron Butterfly…

È tratamento de choque… Eles nunca mais vão repetir a dose!

By Idy, 1988, Arraial d’Ajuda

Enquanto Marmota está impregnado com a marola de Amsterdã, a série Colônia de Férias apresenta textos gentilmente preparados por seus amigos… Hmmmm… Meu, mó viagem, esqueci do barato que tava escrevendo…

Comentários em blogs: ainda existem? (10)

  1. Post de “viagem”! :)

    Mas eu fiquei sem entender se o texto é da Marília ou da Idy… Ou se a Marília é a Idy…

  2. Caraca, marmota…num é que vc postou meismo…
    cara doido1 nem revisou pra mim…rsss
    “Cintaliga”, meu nome é marilia, meu apelido é idy, e o barato é esse…rsss
    bom feriado!!!

  3. Caraca, marmota…num é que vc postou meismo…
    cara doido1 nem revisou pra mim…rsss
    “Cintaliga”, meu nome é marilia, meu apelido é idy, e o barato é esse…rsss
    bom feriado!!!

  4. CINTALIGA: A MARÍLIA É A IDY!!! :D

    E este texto é muuuuuito engraçado…
    Morri de rir com o: “Aqueles longos abraços que sempre me deram claustrofobia. Sério, você que tem mais de 50, se lembra como eram os abraços? Longos…
    E a gente ficava falando assim: – Oiiiiiiiiii bicho…e aí???

    E a “viagem” por Amsterdã? (Com todos os trocadilhos possíveis!!!)

    Beijos

  5. Marília, morri de rir. Ainda bem que não nos conhecemos naquela época porque eu fumei maconha ao som dessa música e achava o maior barato, rsrsrs. Tadinha de você nessa tribo de estranhos.
    Beijocas

    P.S.: Como foi a comemoração?

  6. A autora meus parabéns! E à dona do blog, que não conhecia meus cumprimentos pela feliz e original idéia de postar os amigos e bons textos no período de férias. òtima iniciativa.

    Abçs

    Respostinha necessaria: o dono do blog agradece. Hehehe!

  7. Então… Só agora que vi que saiu como Cintaliga… Estava logada sem saber, desculpe.
    Marília é um típico nome mineiro. :)

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