Noite alta, céu risonho

Pois é, eu também pensava que a série de férias do blog tinha acabado… Até receber o texto abaixo, do Doni, precedido de um pedido de desculpas – junto com a promessa de abrirmos definitivamente o Clube dos Procrastinadores Anônimos. Pois eu fiquei bem feliz. Primeiro, por ser fã das ondas curtas em dias chuvosos. Segundo, ainda penso que bons hábitos com cara de “ultrapassados”, como ouvir rádio AM e dialogar despretensiosamente, jamais deveriam se perder no passado.

As chuvas que caem quase todos os dias deste verão na cidade de São Paulo causam muitos estragos. As águas levam nossos móveis, carros e dignidade; e mesmo quem mora em lugares altos acaba sofrendo. Sim, a infraestrutura montada de serviços como energia elétrica, telefonia (fixa e celular) e TV por assinatura não resiste ao primeiro ventinho seguido de alguns pingos; e no caso de quem mora na periferia a urina de um cachorro no poste já é capaz de botar tudo a perder, imaginem então uma tempestade.

Não foi diferente naquela noite. A única iluminação possível, a dos raios que acendiam a janela durante alguns segundos, me ajudou a achar a antiga cômoda onde pensei que encontraria algumas velas e fósforos. Não encontrei, mas estava escondido ali um velho rádio de pilhas, parceiro inseparável das noites de infância em que eu tentava enganar o medo de escuro com a voz dos locutores durante a madrugada. Do lado da cama, o controle da TV, que forneceu suas baterias para dar voz ao velho rádio. Uma da madrugada, ondas médias, rádio AM. Difícil sintonizar uma estação em meio a tanto chiado causado pela interferência dos raios; difícil ouvir algo com tantos trovões, mas encontrei um programa um pouco mais audível, e ali deixei.

O locutor, carioca, conversava com ouvintes ao vivo, gente já de certa idade. Falavam da juventude distante, dos primeiros namoros, de pessoas queridas que já não estavam entre eles, depois pediam uma música. Naquele momento eu era novamente o garoto de 12 anos fascinado com o número de pessoas que se mantinham acordadas durante a madrugada, conversando sobre os mais diversos assuntos, ao vivo, para tantos ouvirem. Para um menino quase sempre bem comportado, de horários regrados, aquilo era o máximo da transgressão.

Eu me peguei sorrindo com este pensamento enquanto o locutor recebia a ligação de Alfredo. Morador da baixada fluminense, solteiro, 53 anos, ele lamentava não ter se casado com sua grande paixão, Luiza. "Na última vez que soube dela", dizia Alfredo, "ela estava de mudança para Volta Redonda com o marido". Alguns lamentos mais e ele pediu "Abre Coração", inusitada parceria de um intérprete chamado Marcelo com o baterista Jim Capaldi, da banda inglesa Traffic: "Meu amor…/ Estou tão sozinho/ Não consigo encontrar/ Nada que me faça sentir melhor. Só o sonho/ Vive na memória/ Daquele tempo feliz,/ Tempo em que você me quis… E me amou". Senti por Alfredo, mas gostei de ter ouvido uma música de que sempre gostei.

A ligação seguinte foi de uma senhora chamada Roberta, de Embu das Artes. Tive vontade de chacoalhar os braços diante do rádio, na esperança de que ela prestasse atenção em mim e visse que éramos da mesma cidade, que estávamos muito mais próximos do que se poderia imaginar. Era delicioso. Eu que sou tão afeito às novas tecnologias e tão viciado em novas formas de comunicação estava ali, bobo porque ouvia um programa de rádio na madrugada, com ao menos mais uma pessoa de minha cidade. Dona Roberta, já viúva, lembrava seu começo de namoro com Antônio, homem que foi seu esposo durante 50 anos. A música pedida foi "Noite Cheia de Estrelas", composição de Cândido das Neves gravada nos anos 30 pelo grande Vicente Celestino.

Meu coração disparou. O radialista pediu desculpas por não ter esta gravação, mas botou para tocar a versão do cantor Jessé. "Noite alta, céu risonho…", e se eu pudesse iria até a casa da Dona Roberta naquele momento, tomar um chá e contar a ela que conheci os versos de "Noite Cheia de Estrelas" numa antiga história em quadrinhos, onde um personagem atrapalhado tentava fazer uma serenata para uma mocinha por quem estava apaixonado. A cada vez que começava a dizer "noite alta, céu risonho" algo de errado acontecia. Eu ria, mas sonhava tocar um instrumento e encontrar amigos legais que topassem sair pela noite comigo, até a janela da menina que eu gostava, para que eu pudesse fazer para ela uma bela serenata também. Pedi para meu pai um violão, que nunca aprendi a tocar direito. Ele ainda está aqui e sei alguns acordes, mas serenatas já não estão na moda.

A energia elétrica voltou e acabou a nostalgia. Voltei para o computador e para meus textos, mas deixei o rádio ligado ainda por mais alguns minutos. Lembrei-me então de um momento. Um apartamento, muita bebida, risos e pessoas queridas. Uma amiga estava deslumbrante, vestia preto e tinha os cabelos soltos, do jeito que gosto e que sempre pedia a ela para deixar. Ajoelhada em meio a discos e cds sensacionais, ela batalhava com o dial do aparelho de som, procurando por uma estação, e eu perguntei a ela porque não colocava um disco e vinha dançar. Ela respondeu que de vez em quando preferia o rádio, porque sentia que enquanto o ouvia nunca estava sozinha. Daquele dia eu guardei mais a lembrança de sua beleza ali do que o significado de sua resposta. Mas na noite em que fiquei sozinho com meu rádio no escuro, entendi perfeitamente o que ela queria dizer.

Comentários em blogs: ainda existem? (4)

  1. Olha só, que legal, dia de reencontro. rssss
    Pelo menos uma coisa boa nessa tarde nubulosa. Grande prazer, amigo.
    Eu ouço rádio AM, ouvia aí em sampa, eldorado AM, entre outras. Agora aqui no interior, também ouço as locais AM, adoro. Também transmito em AM, tenho meu radinho e meu prefixo anatel. rss
    Grande abraço amigão

  2. Como te disse antes, concordo plenamente que o rádio faz companhia. Em casa não tenho (mais) o hábito de ouvir, mas no carro sim. ;)

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