Não, não estive no Beira-Rio

Porto Alegre (RS) – Terça-feira, pouco depois das dez da manhã. Apesar do bom número de vendedores nas ruas oferecendo camisas, fitas e bandeiras, a cidade ainda não respirava completamente a finalíssima da Libertadores. A verdade é que, desde que São Paulo e Internacional conquistaram o direito de fazer a festa, Porto Alegre manteve sua rotineira bipolaridade. “Sou paulista desde criancinha”, disse um taxista, surpreso quando eu disse que torceria para o Inter. “Mas bah, tu vem de São Paulo e vai torcer pro Colorado?”. Pois é.

Além da fila de sócios do clube gaúcho, que tinham ingresso garantido para a partida, uns cinco ou seis cambistas davam o ar de sua graça nos arredores da Avenida Padre Cacique. Meu sotaque paulistanês não ajuda em nada nessas horas: mesmo que eu force, nunca vou dizer “pilas” (sinônimo de “reais”) do mesmo jeito. O primeiro ofereceu quinhentos pilas por um ingresso. Outro fez um preço melhor: trezentos pilas.

“Eu vendi dois ingressos por dois mil”, comemorou um simpático vendedor de bandeiras. “Fiquei o dia todo na fila e paguei cento e cinqüenta pilas. Agora estou sem, mas o cara era rico, tinha que vender”, concluiu, enquanto tentava me oferecer seu produto, a partir de oitenta pilas. A maioria delas já profetizava: Campeão da América de 2006. “Obrigado, mas isso dá azar”, respondi.

Vontade de assistir ao jogo in loco, no estádio, era realmente um sonho. Mas eu não era o único. Quarenta mil sócios tinham os seus passes para a grande noite garantidos. Membros das torcidas organizadas também tinham – mas ao contrário das partidas anteriores, desta vez a diretoria colorada cedeu a quantidade exata de entradas. Os outros dois mil e poucos seriam vendidos nas bilheterias, que viram as filas começarem na quinta-feira. Tamanha ansiedade obrigou a venda antecipada no sábado, quando os ingressos já estavam esgotados.

A bem da verdade, quando desembarquei na cidade, as chances de entrar no estádio como um torcedor comum era muito pequena. Poderia ter aproveitado um momento de oração na Igreja de Nossa Senhora das Dores para, quem sabe, pedir uma força aos céus. Preferi o de sempre: agradecer a Deus por essas coisas todas. A Libertadores, no entanto, continuava na minha cabeça.

Terça-feira à tarde, por volta das dezoito horas. Os cambistas ainda estavam lá, mas diante do treino aberto à imprensa, muitos torcedores e as tradicionais marias-chuteira – que nem precisavam entrar no jogo, bastava enxergar um dos “liiindos” jogadores do Inter. O clima de decisão estava se instalando definitivamente, e não sairia mais da cidade.

A quarta-feira amanheceu chuvosa, e o dia permaneceu com a temperatura sempre em torno dos dez graus. Logo nas primeiras horas do dia, os primeiros colorados foram para a fila dos portões. Eu só decidi circular pelos arredores por volta das quatro da tarde. A partir do shopping Praia de Belas, tradicional ponto de encontro da torcida, infestado de gente vestindo a camisa vermelha.

No caminho para o Beira-Rio, garoa, barro, trânsito, muitos torcedores… Policiais (aqui chamados “brigadianos”), fiscais da prefeitura, vendedores de bebidas, rádios, faixas, mais fitas, mais bandeiras… E mais ingressos, alguns chegando aos mil reais. “Nunca vi esse lugar tão cheio”, conclui, por volta das seis e meia da tarde. A essa altura, os portões, que abririam às seis, permaneciam fechados. Com o coração partido e a roupa molhada de chuva, desisti oficialmente do estádio.

Só me restava algum bar bacana, com a torcida reunida. A sugestão foi o bar Cavanhas, na Lima e Silva, cidade baixa, tradicional reduto da torcida colorada. E o bar estava lotado de gente bonita, alegre e vibrante. Guardadas as devidas proporções, era como se estivéssemos nas arquibancadas. Destaque especial para os gritos de “fumaça, fumaça”. Realmente, a fumaceira provocada pelos sinalizadores foi decisiva: graças a ela, Clemer arrumou uma boa desculpa diante do seu primeiro erro no jogo.

O segundo erro veio no final do jogo, bem depois de Fernandão ter aproveitado a sobra no primeiro tempo, Fabão (Fabão!!!) ter empatado já na etapa complementar e Tinga, de cabeça, ter feito 2 a 1 para o Internacional. O camisa um colorado, que fez uma boa Libertadores, voltou a sua velha forma quase no momento errado: Lenilson fez o gol de empate por 2 a 2 num momento em que o São Paulo, praticamente com quatro atacantes, chegou para o tudo ou nada.

Felizmente deu em nada para o ainda tricampeão, e depois de alegrias e sofrimentos, quem estava no Beira-Rio, na Lima e Silva ou em qualquer lugar do Brasil torcendo pelo título inédito, finalmente comemora. A essa hora, quem está em casa em Porto Alegre ouve o som dos rojões, das buzinas e dos gritos campeões da América. Essa noite ninguém vai dormir.

Comentários em blogs: ainda existem? (11)

  1. Parabéns, cara.

    Vocês ainda não são tão grandes quanto nós, mas hoje são os maiores da América.

    Título indiscutível.

  2. Cara, tentei falar com vc lá pelas 2h, 3h da manhã, mas não deu. Portanto vai aki o meu sincero abraço, parabéns e comemore muito com carne de ovelha, chimarrão e ouvindo o Colorado de ases celeiros até cansar. Poucos sabem o quanto vc ouviu por causa deste time e graças a Deus te peço desculpas. Enfim eu queimei a língua. Não pipocou e o Abel foi campeão. E olha que tinha um Márcio Rezende em campo. Parabéns, CAMPEÃO DA AMÉRICA…Quem sabe em algum século eu possa dizer isso….
    Abraços
    Narazaki

  3. Que título sofrido, mas colorado é sempre assim nunca as coisas são faceis pra nós. Q pena que tu não conseguiu ingresso, eu por pouco na fiquei de fora, fiquei o jogo inteiro de pé no murinho que antecedia a coréia, mas valeu a pena

    VIva o colorado e agora podemos gritar

    Inter, Inter nós somos campeões da América!!

  4. Ah, eu ia te ligar pra te dar parabéns.
    Eu quero o Rafael Sóbis pra mim.
    Bjo, aproveita POA por mim.

  5. Caraca Velho que merda vc não poder ter comparecido no jogo lá no estadio, mas mesmo assim parabens mesmo: 1º por estar em POA, 2º Por ter assistido o jogo num buteco na cidade Baixa, 3º Ter tido o prazer de ter gritado(pelo menos eu gritaria) “CHUPA CAMBADA DE BAMBY”
    Ai André que ferias hein hahahahhaa.
    ABRAÇÃO

  6. A verdade é que no fim do jogo o Clemer tava doidinho pra entregar a pamonha. Reconheço, entretanto, a derrota para um time merecedor e muito digno. Agora, a respeito da peregrinação pelos ingressos… uma carteirinha da Abrace não resolvia a questão (aí você dava uma mãozinha pro Celinho, né…)? Beijos!

Vai comentar ou ficar apenas olhando?

Campos com * são obrigatórios. Relaxe: não vou montar um mailing com seus dados para vender na Praça da República.


*