Memórias do meu primeiro emprego

“Oi, aqui é a Edna, do IPT. Estou ligando para informá-lo de que seu nome foi aprovado na seleção de estagiários do laboratório de metrologia elétrica, parabéns”. Lembro desse telefonema como se fosse ontem. Aquele começo de 1995 não era dos melhores: já tinha gasto inúmeros pares de sapato em busca de um lugar ao sol na área de eletrotécnica. A sensação de inaptidão aumentava, pois todos os meus colegas de quarto ano técnico já estavam devidamente empregados. Aquela ligação da Edna, no final de abril, veio como um bálsamo.

Na primeira semana de maio, todos os novos estagiários contratados passaram por um divertido processo de integração. Reuniões com a equipe de recursos humanos, visitas a todos os prédios e divisões do instituto, pequenos conceitos burocráticos… Finalmente, no dia seis de maio, uma sexta-feira, coloquei meus pés no laboratório pela primeira vez. Ganhei uma mesa com gavetas, além de um calhamaço de documentos, normas técnicas, rotinas de calibração… E o mais importante: o manual de qualidade do laboratório – uma das exigências do Inmetro para manter o credenciamento do órgão.

Agora imagine um moleque, prestes a completar dezoito anos, sem um único vínculo empregatício anterior (privilégio para poucos, diga-se), diante de papéis repleto de termos como “componentes intercambiáveis”, “resistor padrão”, “multímetro de sete e meio dígitos”, “incerteza em partes por milhão”, “galvanômetro analógico”, “ponte de Wheatstone”… Ao mesmo tempo, ouvia os técnicos mais experientes questionarem os processos envolvendo as notas fiscais de entrada e saída, registro de equipamento, preparação e assinatura de certificados…

Era um mundo novo, e completamente assustador. Tinha certeza de que estava ao lado de novos amigos, dispostos a contribuírem com a minha formação profissional. Mas aquele excesso de novidades, que certamente deixariam muitos entusiasmados, mantinha meu cérebro ocupado mesmo fora da minha mesa com gavetas. Ao menos comecei meu estágio com tarefas simples, como trocar o papel e a tinta do termohigrômetro, responsável pelos dados de temperatura e umidade controlada. Também fui responsável (parcialmente) pela compra da espuma que seria usada para minimizar o ruído do ar condicionado – se bem que minha falta de habilidade em trabalhos manuais praticamente afundou o projeto.

Como tinha que ser, aqueles nomes e processos deixaram de ser um filme de terror em algumas semanas. Claro que, como qualquer estagiário, cometia gafes imperdoáveis – como dormir em plena bancada durante a calibração de um equipamento no exato instante em que o chefe do laboratório apresentava as instalações para um cliente. Felizmente, posso comemorar o fato de jamais ter explodido ou queimado um único medidor elétrico. Mais do que isso: meus conhecimentos jornalísticos recém adquiridos foram utilíssimos na atualização do manual de qualidade, além da elaboração de novas rotinas de calibração – documentos que explicavam o princípio de funcionamento e descreviam todos os métodos utilizados para a realização do serviço. Não tenho certeza, mas certamente meu nome ainda está perdido naquelas pastas como “autor da primeira versão”…

Vou ser injusto ao lembrar de apenas alguns nomes, mas que até hoje ainda formam as grandes cabeças do laboratório. Foi a Debora, companheira de sala que me indicou (e praticamente garantiu minha presença lá); a Rima esmiuçou todos aqueles nomes técnicos e processos detalhados; a Tomie coordenava a equipe e direcionava todas as “mãos na massa”; o Rigoverto, que chegou depois, abriu meus olhos para um mundo relacionado a tempo, frequência e padrões de vídeo… E, finalmente, o Incomensurável Marcos José. Um adjetivo que fazia todo sentido a caminho do almoço, enquanto ele narrava suas aventuras fora do IPT – como carregador de melancias no Ceasa ou vendedor de botijão durante a greve da Petrobrás.

Já estava devidamente familiarizado com troços de outro planeta, como as equações que relacionam milivolts e graus celsius nos vários tipos de termopar, quando o Incomensurável Marcos José me chamou para conversar. Já estávamos em 1998, tempos em que eu já exercia o cargo de técnico nível 1.

“André, meu filho. Desde o seu primeiro dia aqui, você vem conquistando a oportunidade de permanecer ao nosso lado, e até bem pouco tempo isso era bem evidente. Mas todos sabemos do seu curso de jornalismo, esse caminho que nada tem a ver com o que fazemos aqui”, sentenciou, enquanto rabiscava uma folha sulfite. Desenhava algo como um Y, apontando para a interseção. “Está chegando o dia em que você terá que escolher uma das duas trilhas. Não dá para ficar nesse meio aqui, sendo um eletrotécnico-jornalista. É importante que você decida logo, até para que possamos nos preparar aqui, com ou sem você. Independente da sua escolha, eu tenho a convicção que você terá uma carreira próspera e feliz”.

Na época, pouco antes de saltar para a Gazeta, imaginava que, se eu imaginasse um encontro desse tipo na primeira semana de estágio, talvez achasse aquele monte de papéis a coisa mais divertida. Que nada. Esses dias, o Adilson lembrou de um comentário meu, no final daquele ano. “Nesses últimos meses, nossa unidade passou por muitas mudanças. É como se todo dia fosse o meu primeiro, e isso me assusta um bocado…”. Pois é. Foi assim no meu primeiro emprego, no segundo… E depois de nove anos, em tese mais experiente, é engraçado sentir tudo isso outra vez.

A propósito, relembrei uma porção dessas coisas com o Marcelo, que começou nesse ramo junto comigo, mas ainda permanece nele. Soube que a concorrência aumentou, graças ao volume de laboratórios “fundo de quintal” credenciados pelo Inmetro; que a Fluke comprou a Wavetek; e que a “calibração-moleque” e o “certificado-arte” daqueles tempos áureos deram lugar a processos automatizados para registro de dados, graças ao binômio “porta serial GPIB” e “cartão de memória”. Do jeito que o mercado anda competitivo, é bom dar uma atualizada no mercado – ainda que dificilmente eu caia nele outra vez.

Ah, sim, a Ju Guarany preparou um excelente guia do novo emprego. Obrigado, Ju! Já anotei aquilo que me interessa!

Comentários em blogs: ainda existem? (8)

  1. Faço minhas as palavras do Incomensurável Marcos José: “eu tenho a convicção que você terá uma carreira próspera e feliz”. ;)

    Beijo.

  2. Acho que sentir isso é bom pra nos lembrarmos que estamos vivos e sempre aprendendo!
    Ainda não tive meu primeiro emprego, mas espero tê-lo em breve!

  3. Muito bacana suas lembranças do primeiro emprego. Todos temos a sensação de estar num ”mundo novo e desconhecido”. Eu me divertia horrores no meu primeiro emprego porque, assim como meus colegas de trabalho levava tudo na brincadeira e bom humor. É um sausosismo estranho pq apesar de sentir saudades eu era uma pessoa bem diferente do q sou hj.
    Bjos

  4. Fazia tempo que não passava por aqui, mas pelo jeito continua ótimo! Saudades!
    Acho que você não vai se lembrar de mim, mas tudo bem! Comecei outro blog hoje e espero voltar a ativa, quem sabe reativamos nosso contato!

    Beijocas!

  5. Marmota, vc é um cara sortudo…
    e eu gostei de saber um pouco mais de vc.
    Primeiro emprego …
    sabe que nunca tive patrão, e hoje, qdo fico cansada, sonho com 13º, carteira assinada e férias…
    bjos

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