Eu vô cum vocêis!!!

Entre todas as novidades que percebi em minha mudança de emprego, uma das mais significativas chegou logo nos primeiros dias de dezembro: todos os funcionários foram convidados para um passeio de barco em Angra dos Reis, comemorando os resultados de 2007 e celebrando a união da equipe. Empolgados com a iniciativa, meus comparsas Cassio e Wanderley toparam na hora uma alteração no programa: viajar um dia antes e conhecer Parati.

A cidade, cuja participação histórica como importante entreposto comercial foi fundamental até meados do século 17, quando se viu isolada até praticamente a abertura da Rodovia Rio-Santos, quando seus paralelepípedos, casarios e costumes preservados impulsionaram o turismo local. Uma caminhada rápida pelo centro histórico é suficiente para contemplarmos a arquitetura local e viajarmos no tempo, imaginando embarcações atracando naquele ponto da baía da Ilha Grande.

Mas as histórias de Parati vão além dos livros escolares. O próprio nome da cidade é alvo de uma lenda transmitida por gerações: quando Deus repartiu as terras do mundo para os santos e outras entidades, o diabo voltou-se indignado: “e eu, não ganho nada?”. E Deus separou um cantinho à beira do mar, longe de tudo, e disse: “tudo bem, este é para ti”. Para ti, sacou? Por conta disso, foi o único lugar do planeta onde o coisa-ruim não criou problemas…

Alguns caçadores da região já encontraram o curupira por lá. Outros juram que existe uma serpente, neta do demo, presa aos pés da santa da Igreja Matriz (e que tenta se libertar a todo custo e, por isso, a parte de trás é mais alta que a da frente…). Tem ainda o chafariz do largo e o poço da igreja de Santa Rita, construídos para saciar a sede da noiva morta horas antes de seu casamento.

Parati

Não é fácil acreditar em tantos ditos populares. A não ser quando uma delas acontece conosco.

Caminhávamos tranquilamente pela rua, aproveitando o clima agradável e sem nuvens para digerir o fideuá (macarrão com frutos do mar) degustados sem pressa no famoso Paraty 33. Já passava das duas da manhã quando finalmente chegamos em nossa pousada, em uma sossegada travessa da avenida principal.

Enquanto Cassio e eu aproveitamos um pouco mais para descansar na varanda da entrada, Wanderley seguiu para o quarto, tentando se guiar apenas pelo brilho fraco do luar. Nossos aposentos ficavam do lado oposto do terreno da pousada: a sede principal e os apartamentos eram separadas por uma piscina. Levou poucos segundos para voltar, preocupadíssimo.

– Cara, tem alguém ali na frente da nossa porta.

Parecia mesmo um vulto, mas a escuridão não pude ter certeza. Mas o Cassio viu. Segundo ele, era um afro-descendente, alto, camisa azul e gorro na cabeça. Achou prudente se armar: vai que o sujeito é algum assaltante, tentando arrombar a veneziana. Não fazia sentido acordar ninguém naquela hora da madrugada: fomos ver qual era a do negão na frente do quarto.

Decidi caminhar para o outro lado, em busca do interruptor da área aberta. Cassio e Wanderley seguiam devagar em direção ao sujeito misterioso. Antes mesmo de conseguir acender a luz, pude ouvir um grito assustador:

– EU VÔ CUM VOCÊIS!!!

Assustado, Cassio gritou um “Caraaaaaaio!”, enquanto corria loucamente para a varanda, ao lado de Wanderley. Eu também corri, mesmo com a luz acesa. Se eu tivesse bebido alguma coisa, jamais teria perguntado a eles se também ouviram. Já recompostos, mas ainda assustados, olhamos mais uma vez em direção ao nosso quarto, já com as luzes acesas: o homem já não estava mais lá. Outros hóspedes, que também acordaram, abriram a janela para tentar entender aquela zona no meio da madrugada.

No dia seguinte, já a bordo do saveiro, comentamos o episódio para alguns poucos colegas de trabalho, preocupados com o tal sujeito. “E se o cabra resolve mesmo ir com a gente e ainda bagunça nossa viagem em alto mar?”, perguntava o Wanderley. Felizmente, não houve qualquer contratempo.

Mas o fato é que, desde aquele final de semana em Parati, imaginamos quando é que aquela figura soturna, acompanhando a luz da lua, vai aparecer para, sabe-se lá para onde, ir logo com a gente.

***

Esse post foi uma tentativa malfeita de entrar, ainda que aos 52 do segundo tempo, da blogagem inédita, apesar do teor desta história (ainda que verídica) mereça o rótulo de “bobagem inédita”. De qualquer forma, independente deste texto aqui, pode-se dizer que a convocação foi um sucesso: são quase 200 textos enviados. Alguns tão irrelevantes quanto este aqui), sem contar os múltiplos comentários do gênero “ei, eu também mandei, dê logo o meu link”, mas que não excluem o mérito da iniciativa.

André Marmota dialoga muito com o passado, cria futuros inverossímeis e, atrapalhado, deixa passar algumas sutilezas do presente. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (7)

  1. Eu cresci nessa cidade e estórias semelhantes a essa são comuns por lá, esperimentem ir no Corisco ou Coriscão em noite sem lua, ou memsmo subir o morro do cemintério para chegar na Jabaquara, qualquer lugar de Parati tem sua lenda particular.Agora de longe eu acho graça, mais na infancia lá era uma correria só na hora do vamo vê.

  2. Paraty é meu lugar preferido no mundo – o que não significa muita coisa,porque conheço pouco,sou uma provinciana de pai e mãe – a cidade mais deliciosa que já vi.

    Mas nem me venha com historietas reais ou fantasiosas,porque acredito em tudo e morro de medo.

  3. Ai, que meda! Eu hein?!

    PS: Curti mais sua foto com barba do que a sem barba! (e o que é que eu tenho a ver com isso. Não, ninguém me perguntou! Afe…)

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