Escrever é cortar palavras

Porto Alegre (RS) – A frase acima é atribuída a Carlos Drummond de Andrade. Também já ouvi de editores-chefe de telejornais, preocupados com o tempo das matérias. A verdade é que o mundo parece não ter mais pique para engolir grandes quantidades de texto diárias. Também pode servir como desculpa daquele povo que diz não ter tempo pra nada, nem mesmo ler placa de rua.

Versão UOL Tablóide
A idéia de que qualquer um pode fazer um microconto já foi defendida pelo meu grande amigo Editor do UOL Tablóide, há cerca de um ano, assim que Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século foram lançados:

Nós, pessoas mortais, também podemos criar, mesmo que nossas fantásticas e humildes criações não figurem no livro supracitado. E acabei produzindo meus próprios minicontos – seis, na verdade. E eles são independentes uns dos outros, mas podem ser lidos em seqüência. Em qualquer seqüência, aliás.

A surpresa diante da surpresa
– Meu Deus!
– Meu Deus?!

A indignação diante da surpresa
– Meu Deus?!
– Ah vá!!!

O insulto diante da indignação
– Ah vá!!!
– Vai você!!

A ojeriza diante do insulto
– Vai você!!
– Você, hein?

A surpresa diante da ojeriza
– Você, hein?
– Meu Deus…

A surpresa diante da surpresa
– Meu Deus…
– Meu Deus?!

Talvez tenha sido esse o mote para o sucesso dos microcontos, que ficaram conhecidos do público tupiniquim com o livro Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, organizados pelo Marcelino Freire. Ele mesmo cita o microconto mais famoso do mundo, do escritor guatemalteco Augusto Monterroso. Tem começo, meio, fim e 37 letras:

“Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”.

Ele praticamente “estipulou” a regra básica para um microconto ao lançar seu livro: basta contar uma história usando no máximo 50 letras, sem contar pontos e espaços. Trata-se não apenas de um exercício de síntese a favor dos tempos modernos, mas um belo desafio literário.

Marcelino Freire conseguiu reunir cem escritores no livro. Nesta semana, os microcontos ganharam outro espaço nobre: A Casa das Mil Portas, projeto do pai da blogosfera tupiniquim Nemo Nox. A idéia é exibir aleatoriamente uma coleção de microcontos escritos por blogueiros.

“Ninguém vai ganhar dinheiro com isto e dificilmente alguém ficará famoso por causa disto, a idéia é nos divertirmos e divertir os leitores”, adiantou Nemo ao convidar a trupe para compor as portas. Os primeiros microcontos da casa foram feitos por Affonso Guerrero, Alexandre Inagaki, Alex Castro, Crib Tanaka, Daniel Q., Daniela Bertocchi, Dauro Veras, Elton Pinheiro, Fer Guimaraes Rosa, Fernando Serboncini, Fred Leal, Herbert Farias, Leandro Oliveira, O. Roman, Rafael Lima, Renata Crispim, Smart Shade of Blue e Su. E vem muito mais por aí.

Claro que a brincadeira não é restrita a escritores ou blogueiros escolhidos a dedo: você também pode experimentar e, quem sabe, revelar seu microtalento – no bom sentido, claro. Se serve como sugestão, comece de uma forma bem simples: pegue um texto seu ou escreva uma história usando um parágrafo ou dois. E corte palavras, resuma idéias, guarde conceitos nas entrelinhas.

Vejam só o que fiz, sem pensar muito, pensando na idéia da “correria” – feita por aqui esses dias:

“Foi só sair da cama e… Uia, de repente já cheguei!”

Escrever é fácil. Difícil é ficar bom… Mas aí é questão de prática: o importante é começar.

André Marmota tem uma incrível habilidade: transforma-se de “homem de todas as vidas” a “uma lembrancinha aí” em poucas semanas. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (3)

  1. Final do Fuzo para o microconto do Augusto Monterroso:
    “Quando acordou, o dinossauro estava todo mijado”

  2. Ahh… O quarto e o quinto parágrafos estão muito parecidos.
    Acho que vc comeu bola na edição. (Ou está sofrendo de uma estranha gagueira)

  3. ola, adorei o blog, ainda mais pq tem a cara do jornalismo e eu sou estudante desse curso.
    Meu blog eh sobre cronicas, qdo puder me visite, ok?
    bjus!

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