Errar é humano. Ao vivo, então…

Vai, confessa: quantas vezes você não chamou o narrador de incompetente durante uma transmissão qualquer dos Jogos Olímpicos? Aproveitou e proferiu ofensas diversas ao comentarista, garantindo que “até eu sou capaz de fazer melhor que esse imbecil”.

Longe de ser um desses torcedores leoninos arrogantes, que acreditam ter o dom da sapiência plena, sei perfeitamente o quanto esse trabalho pode ser desgastante. Não há ser humano, por melhor preparado que esteja, que seja capaz de evitar besteiras em uma transmissão ao vivo. Antes de difamar as gerações do sujeito, prefiro manter meus pés bem firmes no chão, com a certeza de isso pode acontecer com qualquer um.

Até com você, seu antipático, que arrota sabedoria aos quatro cantos e só o que consegue é contribuir para essa imagem negativa dos profissionais da comunicação.

Enfim. Desabafos à parte, preciso admitir: apesar da complexidade da cobertura pela TV (que está muito boa, diga-se de passagem), não dá para não rir de algumas pérolas das transmissões. O “Sporvetê”, pelo simples fato de exibir quase que a totalidade das provas em seus quatro canais exclusivos, é a campeã das gafes. Não há um único dia em que um dos âncoras, que transmitem tudo de seus estúdios no Brasil, não venham com um “parece”.

“Parece que é o fulano que está na raia dois… E é ele mesmo!”. “Parece que beltrano será o campeão… Não, Siclano está na frente! Siclano! Siclano! FULANO! Fulano completa a prova!”.

E não pensem que os “comentaristas pertinentes”, aqueles que aproveitam para torcer pelo Brasil acima de tudo em detrimento a realidade dos fatos, são exclusivos da TV aberta. Na primeira exibição da ginástica artística, uns cento e duzentos “maravilhooooso” escapuliram pelo microfone da comentarista do “canal campeão”. Por conta do deslumbramento, levaram alguns minutos para perceberem que Daniele e Camila estavam na final geral individual.

Quando se deram conta, adivinhem o que o âncora disse? “E olha só: parece que Daniele hypólito e Camila Comin conseguiram vaga para a final…”.

Pegando carona nessa nova onda, PARECE que não é difícil identificar lambanças. Teve o âncora que perguntou para a comentarista “qual será o desempenho do Brasil no pólo aquático” e ouviu como resposta um lacônico “nenhuma, o Brasil não se classificou”. Teve a ex-judoca que chamou o judoca de “camarão”. A ex-atleta que, a cada novo pitaco, começa com “é verdade”. Ou aquela jogadora de vôlei cortada, que emenda uma frase de efeito entre uma gaguejada e outra.

Tem também aquele da trena, que só enxerga “pontaaaaaços” para o Brasil, entre outras coisas emocionantes. Ou o esforçado âncora, diante de cinco ou seis monitores, que vai narrando os eventos sem saber o que de fato está sendo exibido no ar. Sem esquecer das boas e velhas galvanadas: trocas frequentes de nomes e bordões de quem “está nessa coisa há uns trinta anos”…

Pior do que as gafes, no entanto, é o ufanismo exagerado. Não aguento mais ouvir a Margareth Menezes cantando “um por todos e todos por um, sou brasileiro…”. Entre ficar aturando essa enxurrada de dramaticidade forçada e os erros dos narradores e comentaristas, prefiro mil vezes o segundo.

Sabe tudo via web – O desabafo acima vale pro cururu que passa o dia inteiro babando no teclado encontrando erros nos sites de notícia – especialmente os dos grandes portais, que atendem uma demanda incrível trabalhando com uma equipe reduzida… Vão achar o que fazer.

Eh, Brasil! – “Puta merda”. Essa foi a primeira frase de Daiane dos Santos após ter sentido o peso de uma nação inteira nas costas, fazendo-a desequilibrar, fazer chorar até os mais forte dos torcedores e adiar o ouro olímpico para Pequim. “Puta merda” é perfeito, não precisava ter dito mais nada.

Boa, Galvão – Narazaki me faz um lembrete: quem narrou a performance da Daiane? E quem narrou os saltos do Jadel? E quem narrou um set inteiro do vôlei de praia masculino? E quem vai narrar a final do vôlei de praia feminino nesta tarde de terça-feira? Curiosamente, não foi Galvão que anunciou o ouro de Robert Scheidt, nem as medalhas do judô…

Mudei meu nome – “Podem me chamar de Roberval se a China vencer a Sérvia no basquete”, sentenciei na manhã desta segunda, bem antes da vitória chinesa. “Querem saber? Podem me botar um sobrenome bem tosco se a Daiane não subir ao pódio logo mais”, acrescentei. Muito prazer. Roberval Crisântemo.

Meu guru – Aliás, chega de fazer apostas por conta própria: vou consultar o Inagaki antes de me arriscar. Reescrevo agora sua profética análise, às vésperas dos Jogos:

“Cravei um palpite de 16 medalhas para o Brasil em Atenas, das quais cinco seriam douradas (Robert Scheidt, os rapazes do Bernardinho, Ricardo e Emanuel no vôlei de praia e mais duas entre Daiane dos Santos, vôlei feminino, o judoca Carlos Honorato e a dupla Torben Grael/Marcelo Ferreira). Deixando de lado apostas razoavelmente seguras como o revezamento 4×100 do atletismo, a dupla Adriana Behar e Shelda ou a equipe da prova de saltos no hipismo, faço ao menos uma previsão mirabolante – uma das medalhas tupiniquins virá de uma destas três opções: a ginasta Daniele Hypólito nas traves, Ricardo “Bimba” Winicki na classe Mistral (vela) ou Leandro Guilheiro na categoria leve do Judô”.

Pois é, meu grande mestre. Destas, só Honorato e as ginastas furaram. Mas já deu Guilheiro – e pasmem, vai dar Bimba…

Cadê o Olimpinho? – Durante o último semestre, o SporTV empesteou sua programação com as aparições do seu mascote de nome infeliz, o Olimpinho. Parece que o figura foi demitido: depois do primeiro dia de competições, nunca mais deu as caras.

Vai dar saudade – Não sei o que será da minha vida depois dos Jogos, quando não vou mais ouvir o “brasileirinho” da propaganda da Telemar. Ou não me emocionar quando ouvir aquela cantora desafinada, que surge inexplicavelmente após aquele outro tocante comercial: “mais uma vez, na festa dos esportes, o sol vai tocar a humanidade e vai dizer: brilhem. Vamos torcer pelos nosso valores de hoje e amanhã”.

Comentários em blogs: ainda existem? (14)

  1. Realmente uma grande análise da cobertura esportiva. Tenho q destacar mesmo as narrações daquele homem da trena. Ele demora meia hora para perceber de quem foi o ponto e sai gritando loucamente. E consegue falar mais besteira que o Silvio Luiz. Agora, o “puta merda” já havia sido falado antes da Daiane nesta Olimpíada. Vanessa Menga, com o microfone aberto, não se conteve numa das amareladas do Guga e mandou um sonoro “Ai! Puta Merda!”. Ah! Olimpinho é o nome de um primo meu. É sério.

  2. Caro Roberval…
    Você está ótimo e, se prometer se comportar, vou mandar a minha 5ª série pesquisar aqui :))))))

    abraço,

    Su

  3. Marmota,

    Mudou o nome, nada impede você de continuar com o apelido. Quanto à cobertura pela TV, passei ilesa. Não vi quase nada. Ufa!! Abração.

  4. Parabéns pelo blog.
    O ‘post’ está perfeito. A Daiane foi perfeita, sim. O ‘puta merda’ disse tudo e mais um pouco.
    Já o Galvão está definhando…

  5. Marmota, então vc precisa conhecer o comentarista de Hipismo do Sportv. O cara literalmente “chutava o pau da barraca” ao comentar os infelizes que cometiam falta (comentários do tipo: “Até no Mirim, eles fazem um salto melhor que esse!” ou “Porque esse coreano não desiste de uma vez? Dá até vergonha de ir numa olimpiada com esse nível”). Teve uma hora, que até cortaram ele, mudando para os Saltos Ornamentais, porque ele ficou possesso ao comentar o brasileiro…

  6. Roberval Crisântemo? Puta merda…
    Bonita, a sua defesa para os redatores meia-sola…embora seja tendenciosa, corporativista e, levemente, patética.
    Erros ortográficos, são aceitos e justificados pela pressa exigida nestes canais. Mas, o que dizer, quando estamos acompanhando o placar do jogo amistoso da seleção brasileira de futebol com a gloriosa esquadra do Haiti e a atualização mostra: “Brasil abre o placar contra Honduras”?

  7. Gosto do jeito bonachão e irreverente do Datena.
    Ele pode até estar mal acostumado com a liberdade com que costuma comentar os casos (ou causos) de seu programa jornalistico…mas é muito melhor que o pateta Galvão.
    Falando em patetas, estava a assistir o jornaleco esportivo da rede Gazeta quando me deparo com um colérico Chico Lang, esbravejando que não queria ouvir ninguém “falando mal da Daiane dos Santos”.
    Imaginei que ele faria uma defesa exacerbada da pequerrucha, ressaltando seu esforço e a dignidade com que admitira o próprio o erro…
    Aí, a criatura completa: “Porque ela é corintiana!”

  8. hahahah
    Muito boa análise Marmota!!! Tenho escutado mais do que assistido (deixo a Tv ligada na outra sala para ouvir o que se passa nas Olimpíadas) e sou obrigada a concordar com a tua análise dos comentaristas. Tem horas que não dá pra entender o que está se passando, de tanto que gritam.

    Quanto à performance brasileira, sou bem pessimista. Acho que será sofrível. Os atletas até que tentam, mas convenhamos… Como dissestes em alguns posts abaixo, quem é que fala do vôlei de praia durante o ano? E da ginástica? O que dizer do futebol feminino? Esquecidos durante quatro anos, depois são cobrados pela mídia para trazer medalhas para o Brasil. Com patrocínio mínimo durante os quatro ano, claro. Meu irmão que disse tudo: Assistindo a um jogo de handebol, perguntou… “Mas onde que existe handebol no Brasil? Nunca ouvi falar de jogos oficiais ou não oficiais disso por aqui… Aliás, não sei nem onde tem quadra!”

  9. …e não deu Bimba. Eh, Brasil!

    Mas eu ainda acho que vamos faturar mais 4 ouros… Futebol Feminino, Volei Masculino, Iatismo (Grael e Ferreira) e Volei de Praia… Mais 2 pratas (Volei Feminino e Basquete Feminino) e 2 bronzes (Revezamento 4×100 e Handball Fem.)

    Pode escrever…

    Um abraço!

  10. Ô Marmota Olímpico, tu não vai comentar a avacalhação do hino do Brasil? É impressão minha ou esses gregos estão colocando o hino versão remix??? Os tempos estão todos errados!

  11. Uma das melhores foi da Jacqueline, na Globo, no Brasil x EUA feminino. Após um belo bloqueio de uma atleta brasileira, ela disparou: “Essa é aquela jogada em que você enche o peito e grita pra adversária: Chupa!”
    Foram, pelo menos, uns 3 segundos de silêncio no ar até que o locutor se recuperasse e voltasse a narrar. Sensacional!!
    Abração!!

  12. Sensacional seu texto!
    Estava procurando no Google a música da Margareth Menezes, que eu insisto em imitar, principalmente o “gaaaaah” e achei seu blog.
    Está de parabéns!

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