E ainda vou ter que pagar imposto de renda?

Normalmente, minha maior frustração ao recuperar minha papelada antes de declarar meu imposto de renda é: “esse informe de rendimentos deve estar errado, não ganhei tudo isso ano passado”. A sensação de pobreza por incompetência aumenta logo depois: não-sei-o-que-contribuição-previdenciária, não-sei-o-que-imposto-retido, não-sei-o-que-rendimentos-com-tributação exclusiva… Nunca me preocupei com esses detalhes semânticos. Talvez por isso continue sem grana.

De qualquer forma, sempre fui solidário aos contribuintes que são obrigados a preencher os mais loucos campos de uma declaração detalhada. Dependentes, despesas, doações, direitos, ônus, espólio, dívidas… Em alguns anos na função de “chapa do leão”, o máximo que fiz foi dizer quem me pagou salário, quanto vale meu carrinho e quanto ainda tem na conta poupança que meu avô fez pra mim quando nasci. Simples assim.

Confesso que nunca me preocupei com outros detalhinhos, mas esse ano tive uma surpresinha. Ao finalizar, cliquei todo pimpão no resumo da declaração, diante da expectativa recorrente ano a ano: quanto será a restituiçãozinha, que vai garantir alguma compra perdulária no Natal? Sim, pois em toda minha experiência acumulada na Receita Federal, meus parcos dividendos nunca geraram distorções capazes de me tornar um devedor.

Isso foi até agora. “Como assim pagar duzentos reais???”!!!

Então é assim: além de conseguir transformar ganhos na casa das poucas dezenas de reais anuais em quase nada, o mago das contas malfeitas aqui ainda atingiu a capacidade magnânima de recolher imposto referente a essa mixaria!!! Mas por que é que esses caras não rapelaram esses duzentos reais antes? Ou um pouco mais, sei lá, apenas pra que eu tenha aquela sensação idiota de que é o Governo que me deve, e não o contrário?

Mostrei minha papelada ao meu irmão, que entende um pouco mais de numerologia e algoritmos maliciosos. “Imagino qual tenha sido seu problema. Sua fonte pagadora A recolhe em uma faixa, já que o valor do seu salário é X. Já a fonte pagadora B, que te paga a metade de X, recolhe menos imposto, por estar em uma faixa abaixo. A distorção acontece ao somar ambas, já que sua renda aumenta”. Mas que pilantras!

Enfim, indignado mesmo ficou meu pai, que recebeu uma graninha extra de um plano de previdência privada mas que, ao ser estampada na declaração, gera uma sensível cobrança. “Sempre achei que salário não devia ser considerado renda. Agora, preciso considerar que aposentadoria também é renda! Francamente”, resignou-se.

Ao menos me resta um consolo: com duzentos reais não é possível comprar passagem aérea para lugar nenhum.

Atualizado: Estou com Alexandre Inagaki e Luiz Carlos Prates, que nos lembram como somos trouxas ao pagar imposto de renda “para gente que não tem vergonha na cara mandar amigos sirigaitear em Miami, Paris, Roma, aonde quer que seja. E não vai lhes acontecer nada, porque este é um povo estúpido que não reage”.

André Marmota tem uma incrível habilidade: transforma-se de “homem de todas as vidas” a “uma lembrancinha aí” em poucas semanas. Quer saber mais?

Leia outros posts em E eu, uma pedra. Permalink

Vai comentar ou ficar apenas olhando?

Campos com * são obrigatórios. Relaxe: não vou montar um mailing com seus dados para vender na Praça da República.


*