Desvendando o Internauta-padrão, parte 4: o justiceiro

Frequentemente nos reencontramos com as definições clássicas de um modelo ideal da sociedade interconectada, formada essencialmente por gente disposta a colaborar e compartilhar informações. Nossa geração está aprendendo a dar um passo à frente: não querem apenas consumir, mas participar de todo o processo. Comunidades se estabelecem na grande rede e evocam paradigmas referentes ao propagado “conteúdo gerado pelo usuário”.

Só que também encontramos, com frequência ainda maior, histórias envolvendo pessoas pouco interessadas em trilhar este caminho complexo e tortuoso. Por um lado, nem todo canal de comunicação deste novíssimo mundo virtual conseguem aparar as arestas desse diálogo: alguns fóruns ou listas de discussão consagrados já possuem uma identidade própria, inclusive com regras elementares de boa convivência constituídas. Na maioria dos casos, seus participantes evoluem diante de um maravilhoso rol de novas relações interpessoais.

Para extrair o melhor dos outros e de si mesmo, é preciso pensar antes de interagir com pessoas. Mas como sabemos, a premissa do Internauta-padrão é a mais fácil, e infelizmente contagiante: não pensar.

Quem é o Internauta-padrão justiceiro?

Dias atrás, um jovem adepto às novas tecnologias escreveu em seu popularíssimo blog um artigo sobre a Feira Internacional da Muamba em Tilambuco. Sem ridicularizar as condições locais, o rapaz publicou suas impressões sobre a tal feira. Eis que Justiceiro 1, que é tilambucano, encontrou o texto através de buscadores e ficou nitidamente enfurecido. O que fez? Espalhou a URL do texto em todos os fóruns e listas ligados à Tilambuco, acionando uma horda de usuários malcriados. Em poucas horas, centenas de comentários (mal escritos, diga-se) ricamente elaborados por toda a escória tilambucana. Mandaram-no calar a boca (em seu próprio espaço!), fizeram ameaças de processo, de morte, de estupro, de cliques inválidos nos anúncios… Rapidamente, tirou o conteúdo (que era ótimo) do ar.

Em outro canto da rede, numa comunidade explosiva do Orkut denominada “clássico é clássico e vice-versa”, uma ingênua mocinha decidiu registrar um comentário infeliz, semelhante ao das torcidas rivais nas arquibancadas, chamando os adversários de “macacos”. Certamente ela não imaginava tamanha repercussão: milhares de aficcionados ficaram indignados; responderam verborragicamente à ofensa, não apenas na comunidade mas no perfil da mocinha. Vieram as ameaças de processo, de morte, de estupro, de invasão domiciliar… Uma porção de crimes só para justificar outro. Rapidamente, a pobre coitada sumiu da rede social.

Recentemente, Justiceiro 2 enviou uma mensagem polêmica para a lista de e-mails dedicada ao game “Duke Nukem vs Super Mario: Aniquilation”, prontamente respondida por Justiceiro 3. Sem sequer interpretar os pontos de discórdia, Justiceiro 2 rebateu com uma ofensa muito feia, resultando em um desaforo ainda pior de Justiceiro 3. Mensagens cada vez mais quentes e desnecessárias continuavam a chegar, inclusive ameaças de processo, de morte, de estupro, de hackeagem… Até que o moderador da lista finalmente “mandou todas as crianças acabarem com os flames”. Rapidamente, dezenas de usuários pediram para sair da lista.

Características do Internauta-padrão justiceiro

– Em linhas gerais, está predisposto a reagir violentamente a tudo aquilo que considera ofensivo, ultrajante ou simplesmente contrário a sua opinião.

– Tal reação só acontece em função da comodidade e impessoalidade da rede (traduzindo: jamais teria coragem de repeti-la na sua frente).

– Em todos os casos, as reações são extremamente mal escritas e sem qualquer fundamento: “AEEEEE!!! CÊ Ñ TEM O Q FAZER E FICA CRITICANDUUUU!!!”.

– Em listas de discussão e fóruns, ao ver suas mensagens rebatidas pela maioria dos usuários, reclama “dessa maldita panelinha”.

– Na maioria das situações, utiliza-se de ameaças de processo, de morte, de atentado violento ao pudor… (Nesse estágio, também é conhecido por “troll”).

– Em situações extremas, não se contenta em perseguir sua vítima uma única vez (nesse estágio, também é conhecido por “stalker”).

– Apesar de tamanha coragem e inteligência, costuma ser incapaz de se identificar ou registrar uma única forma válida de contato.

Eu sou um Internauta-padrão justiceiro!!! E agora???

Bom, talvez seja o caso de não ir muito longe, ao menos neste caso específico. Apesar de ter ao menos o primeiro grau completo, esse tipo de gente não costuma sequer ler, quanto mais interpretar e perceber que são assim mesmo… Bom, não custa tentar, lançando mão de um chavão: respeite os outros, ainda que num ambiente virtual, da forma como você gostaria de ser respeitado.

Óbvio que as chances disso acontecer, infelizmente, são pequenas. Mas enfim, fica a pergunta: qual o verdadeiro sentido em mostrar valentia ou rebater opiniões a qualquer custo na Internet? Sim, porque uma discussão dessas é igual a briga de bêbado: você pode até acreditar que vai se dar bem, mas vai continuar sendo um bêbado. Quer conversar melhor ou discordar? Seja elegante e argumente como qualquer pessoa civilizada.

Em tempo: se você está do outro lado do balcão, e vez ou outra esbarra com essas aberrações virtuais, lamento informar que essa raça dificilmente será exterminada. Tenho inveja de quem consegue passar um bom tempo respondendo a provocações e brincando com eles. Mas a solução mais comum costuma ser: não alimente os animais.

Na parte 5: o reacionário.

Quer mais formas de ser mal-educado, preguiçoso, egocêntrico e desleixado na rede? Então não deixe de ver ainda…

Parte 1: o Internauta-padrão crente
Parte 2: o Internauta-padrão plagiador
Parte 3: o Internauta-padrão estrela

André Marmota acredita em um futuro com blogs atualizados, livros impressos, videolocadoras, amores sinceros, entre outros anacronismos. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (11)

  1. Ah essa série é das minhas favoritas, não vejo a hora de chegar a vez da internauta – padrão miguxa, que tenho certeza que é a que eu mais me encaixo.

    E é incrível como o justiceiro sempre protesta por meio de um péssimo português, seriam eles os neo punk emos?

  2. hehehe, acho que todos nós já encontramos esse tipo de internauta em nossos blogs. Eu tive um problema gravíssimo em um post da Iris Stefanelli, e olha que nem falei mal da garota. Mas, parece que toda a horda de fãs da menina resolveu baixar naquele post e dizer que sou ignorante, hehehehehehehe. No final tive que usar minha onipresente e onipotente condição de dono da bagaça e não publicar mais os comentários. Não é um lance muito democrático, mas um blog não é um país e quem manda lá sou eu, hehehehehe.

  3. Que absurdo! Esse texto mostra um grande preconceito para com as pessoas que possuem apenas o primeiro grau completo!

    Se vc não tirar esse post do ar, vou tacar processo, vai morrê, vô esTRUPÁ, e invadir seu domicílio, tá sabendo!

    (ah vai, vc sabia que eu ia comentar isso) ^_^

  4. primeiro comentário e primeira vez que senti que devia também.

    isso se encaixa em tantas pessoas que no começo até era divertido alimentar ..mas foi picando pior… simplesmente perdeu a graça. lembro que o último comentário de um era que não devia existir isso de moderação porque vivemos num país democrático,regras e leis são coisas de ditadura..(claro,depois vieram os xingamentos,os “eu vo iztrupa voce”..) e o pior que isso da ditadura eu ainda melhorei o grande conceito da criatura. (era beeem mais confuso)

    agora só tem que fazer uma plaquinha de não alimente os animais

  5. Essa história do justiceiro1…

    Alguém de Cangaiba (provavelmente o pai da miss) veio atrás de você??? foi dai que você tirou a inspiração para esse texto? :p

    Jonny

  6. O primeiro exemplo, da Feira Internacional de Muamba de Tilambuco, foi baseada em fatos reais, hahaha! Santa sugestão a sua, de apagar os textos e colocar uma pedra no assunto. Vez ou outra algum idiota publica um comentário num post qualquer contendo ameaças grosseiras para ao meu orifício traseiro. Mas tudo bem: apago, e já era.

    Ótimo texto, ótima série, Marmota. Aguardo ansiosamente a próxima parte.

    []’s!

  7. Droga, o Trotta roubou a minha piada.

    Mas eu, mesmo em escala beeeem menor, também já fui vítima deste tipo de gente (o internauta-padrão justiceiro, não o Trotta).

  8. Muito bom! Essa série é muito legal :D

    E se o internauta padrão deixa um comentário em miguxês, te xingando por causa de um post em que na verdade foi incapaz de perceber a carga de sarcasmo/ironia, dá para dizer que se trata de uma juXtixXeiRA? :P

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