Crônica de um furo esquecido (ou: entendendo Maurren)

A história que você vai ver a seguir foi publicada originalmente em 6 de agosto de 2003, uma semana após a notícia que culminaria em uma das mais sensacionais reviravoltas que um atleta poderia atravessar. Quatro anos antes, aos 23 de idade, foi apresentada aos brasileiros com duas medalhas no Pan de Winnipeg. Ainda em 1999, atingiu sua melhor marca no salto em distância: 7,26m, atual recorde sul-americano. Foi a Sydney, em 2000, tropeçando por conta de uma contusão na coxa durante a semifinal olímpica.

Em franca ascensão e ostentando o título de “estrela brasileira do atletismo”, Maurren Higa Maggi teve uma péssima notícia às vésperas do Pan de Santo Domingo, em 2003. Depois do episódio, relembrado a seguir, decidiu anunciou sua aposentadoria. Dedicaria sua vida à filha Sofia, que nasceu durante a “geladeira esportiva” e seu casamento com o piloto Antonio Pizzonia. Em janeiro de 2006, já liberada para competir, voltou aos treinos com o técnico e parceiro Nélio Moura. Dedicou-se como nunca e, no Pan do Rio, faturou a medalha de ouro. Diante desta incrível história, uma medalha em Pequim seria consagradora.

Nesta sexta-feira, Maurren saltou 7,04m e torceu pelo tropeço da atual campeã olímpica (a russa Tatyana Lebedeva, que já havia saltado 7,33m). Chegou aos 7,02m. Por um centímetro, a “ex-ex-atleta-desacreditada” tornou-se a primeira mulher campeã olímpica em prova individual, emocionando a si mesma e a muitos brasileiros. Certamente vai ser abalroada pela imprensa assim que chegar a Cumbica, como aconteceu com Cesar Cielo (preparem-se, Carol e Amanda).

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Todos sabem o que é um furo jornalístico. Trata-se de apurar uma notícia e publicá-la em primeira mão, antes de todo mundo. Na faculdade e nas redações, todo repórter aprende: o furo é o grande objetivo, uma constante obsessão. Não é tarefa das mais simples: além de ter bons contatos, é preciso ter faro, além de um golpe de sorte. Estar no lugar certo na hora certa.

A história que você vai ver a seguir é uma “obra de ficção”, baseada em um grande furo obtido na semana passada pelo jornal Folha de S. Paulo. Criado por algum repórter criativo, o causo circulou pelas redações até chegar aos meus ouvidos. O assunto: Maurren Higa Maggi, atleta brasileira que havia conquistado o primeiro ouro brasileiro no Pan de 99, se tornou um dos principais nomes do salto em distância e desistiu de disputar os Jogos Pan-americanos na última sexta-feira, acusada de doping.

Apesar de fictícia, a “crônica do furo” não deixa de ser bastante verossímil.

Numa tarde qualquer no Principado de Mônaco, lugar onde vive a maioria dos pilotos de fórmula 1, o repórter de um dos maiores jornais do país encontra Antônio Pizzônia, piloto demitido da Jaguar e namorado da atleta citada acima.

– E aí, como vão as coisas?
– Tudo indo, né? Na medida do possível…
– Não foi fácil encarar a demissão, né?
– …
– Mas ao menos você está conseguindo superar tudo, conta com apoio das pessoas mais próximas…
– Pois é… E para piorar, agora…
– Como?
– Ah, nada de mais…
– Como assim?
– Er, bem, um probleminha aí…
– Probleminha? Com quem?
– Nada, não. É só uma suspeitazinha de nada.
– Hmmm… Sei.

Mônaco também é a sede da IAAF, Federação Internacional de Atletismo. Algumas checagens nos pedidos de verificação, a constatação: resultado positivo para um esteróide anabólico.

Voilá! O repórter especializado em automobilismo, ao lado do seu companheiro de redação, fizeram a matéria de primeira página, causando rebuliço na mídia e na própria CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo), que desejava esconder a história até o último minuto. Tanto que a entidade só confirmou a suspeita de doping durante a entrevista da atleta.

O tema ainda deve render outras discussões – boa parte delas envolvendo o tal “creme depilatório” usado por Maurren. Cumpadi Inagaki lembrava que, segundo o jornal O Globo, a brasileira teria “bebido o creme”, em função da dosagem de clostebol encontrado em seu organismo.

Sobre a crônica do furo acima, não custa reafirmar: trata-se de uma obra de ficção bem amarrada, apenas. Jornalistas, assim como os grandes mágicos, não costumam contar seus segredos…

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Se minha memória não estiver falha, Paulo Moreira Leite relembra que, tempos depois uma repórter do Diário de S. Paulo repetiu o tratamento feito depilatório feito por Maurren e se submeteu a um exame antidoping. O resultado foi semelhante ao da atleta. Mas enfim, depois desta sexta-feira dourada, o episódio da pomada dificilmente será lembrado.

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Comentários em blogs: ainda existem? (5)

  1. Recuperação espetacular, principalmente depois da palhaçada do suposto “doping” – não consigo dizer que uma atleta que usou um creme para depilação se “dopou”. É absurdo, né?

    E, de fato, a repórter do Diário usou o tal creme e também fez o exame – que deu positivo, é claro.

    Trata-se de um caso raríssimo de superação extrema: da suspensão injusta ao ouro mais que merecido. Emocionante!

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