Como fica O Código na telona para quem não leu

Há dois anos, comecei a ler “O Código Da Vinci”, e aqui mesmo escrevi o seguinte: depois de algumas dezenas de páginas, me senti diante de um verdadeiro bloquebuster roliudiano, daqueles que passam no começo do ano na Tela Quente e logo povoam a Temperatura Máxima no domingo. Nem preciso chegar até o final pra concluir: O Código Da Vinci nasceu pra ser um filme. Deixei meu livro vermelho na prateleira, esperei pelo desenrolar da história na tela grande e ganhei meu tempo lendo outra coisa.

O tempo passou e eu resisti ferozmente a toda e qualquer informação relevante sobre o enredo do filme – apesar de todo mundo saber. Sequer vi as orelhas de todos os “desvendando o código”, “massacrando o código”, “viajando com o código”, “cozinhando maravilhosamente com o código”… Não parei para ler críticos especializados, e tentei abstrair as manchetes da semana sobre as piadinhas em Cannes. Minha intenção era encarar o filme com toda a ignorância que pudesse acumular.

Acreditei na minha decisão certeira depois de assistir a versão cinematográfica do Guia do Mochileiro das Galáxias. Tudo porque já tinha lido o livro e estava maravilhado com a forma como Douglas Adams desenvolve seus personagens e suas histórias. Tudo bem, cinema é outra linguagem, recontar a mesma história usando seus elementos também é uma arte… Mas a distorção que fizeram com o mochileiro foi decepcionante.

Mas enfim, finalmente o dia chegou. Como esperado, mesmo a sessão da meia-noite numa das salas mais discretas da cidade estava lotada. E provavelmente era um dos poucos que não passou do capítulo nove – a parte onde a Amelie Poulain avisa o mal-penteado Forrest Gump, pelo celular, que ele corre perigo nas mãos do assistente do Inspetor Clouseau.

Não, não estou só caçoando: é que eu realmente senti uma certa displicência na caracterização dos personagens principais. Robert Langdon e Sofie Neveu, ou Forrest e Amelie, não se parecem sequer com um casal romântico: são meros fios condutores. É como nos filmes de Monty Pyton: esqueça os caras e preste atenção nos diálogos. Para evitar injustiças, a exceção é Sir Ian McKellen (nem Gandalf, nem Magneto).

Uma das coisas que me fizeram esperar pelo filme era o texto conciso e direto (mastigadinho) do escritor Dan Brown. As ações eram encadeadas rapidamente, sem muitas surpresas. Jesus supostamente era um cara como eu e você, supostamente casado com Maria Madalena, supostamente teve filhos, o fato é supostamente criptografado por Da Vinci em suas obras, preservado pelo suposto Priorado de Sião, a Opus Dei supostamente pretende acabar com isso e manter seu poder, etc. Vale pelo efeito no imaginário das pessoas, o mesmo do suposto mensalão e da suposta matrix: será mesmo possível?

Nesse sentido, senti falta da frasezinha-clichê, verdadeiro estopim de tantos sub-produtos: “todos os documentos, rituais, facções, construções e suas descrições correspondem rigorosamente a verdade”. Mas nem foi preciso estampar o bom e velho “baseados em fatos reais”: se tanta gente criticou O Código impresso, não é difícil estender o conceito à sua versão cinematográfica. Isso porque, analisando friamente, o filme não traz nada revolucionário – pelo contrário, repete alguns elementos de Uma Mente Brilhante, do mesmo Ron Howard. O que pode explicar algumas risadas dos críticos.

Não sei como a história se desenrola no livro, mas eu imagino que seja exatamente como no cinema: parece uma cartilha infantil, com direito a belas imagens em flashback – o que também pode causar desconforto aos especialistas. Para quem entrou no cinema como eu, fugindo do hype, acumulando toda a ignorância possível e esperando apenas por diversão, o efeito é muito bom. Eu praticamente não precisei raciocinar durante duas horas e meia de filme, coisa que vez ou outra, é altamente recomendavel.

André Marmota acredita em um futuro com blogs atualizados, livros impressos, videolocadoras, amores sinceros, entre outros anacronismos. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (6)

  1. O grande mal das adaptações de livro para o cinema é que sempre alguém terá lido antes. Foi o que aconteceu comigo. E por já ter em mente como Dan Brown contava a história, de forma concisa, dinâmica, mas detalhista, dando importância a cada mínima informação, acabei me decepcionando com o filme.

  2. eu, particularmente, nunca achei o Código Da Vince um livro muito bom. Comprei o livro e lí rapidinho, mas é o tipo da história que você lê uma vez, acha legalzinho e coloca na estante e nunca mais abre o dito cujo. Acho que o primeiro livro dele, Anjos e Demônios, é muito mais legal. O grande sucesso desse livro se deve ao fato da igreja católica ter batido muito forte, criticando o argumento da história. Se ela tivesse ficado quietinha poucas pessoas teriam se interessado em comprar o calhamaço. Mas,a adaptação cinematográfica consegue ser mais sem sal do que o livro. As críticas são todas negativas pelo mundo a fora e até eu, que não costumo concordar com críticos de cinema, tenho que dar meu braço a torcer.

  3. Como se Dan Brown já não tivesse ganhado dinheiro suficiente com seu best-seller, agora teremos que pagar tributo também para assistir à versão hollywoodianizada da história.

  4. Hum… bom como diversão, mas está loooonge do que eu considero um bom filme. Imagina o quão distante está do que eu considero ótimo…

    Um abraço!

  5. Cara, vi o filme do mochileiro, e gstei. Quando li o livro, ou melhor, os livros, adorei. É claro que o filme, depois de ler o livro, perde muito, mescal muita coisa, deixa a desejar. Com o código de Da Vinci, acho que vai ser por aí… Minha patroa fala do livro o tempo todo, me fez dar de presnte um caríssimo ilustrado e está programando a ida ao cinema depois que passar a boiada…

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