Como eu consegui completar meu álbum da Copa

Nessas semanas que antecedem o Mundial da África do Sul, duas são as expectativas mais acentuadas para o torcedor fanático. A primeira é a competição propriamente dita, o apito inicial do jogo de abertura, que teima em demorar graças às notícias relacionadas à preparação das equipes, os últimos retoques no país-sede, os amistosos contra seleções insignificantes, enfim.

A segunda é o álbum de figurinhas da Copa do Mundo.

Confesso que, desde meus primeiros passos associados à festa futebolística, minha espera era pelos tradicionais guias ou revistas alusivas (que, diga-se, merece um texto só para elas). Não era uma criança adepta aos cromos. Não só por considerar caro investir em envelopes, mas pelo fato da maioria dos meus coleguinhas, potenciais trocadores de figurinhas, acharem o mesmo. Minha infância foi marcada por frustrantes álbuns incompletos. Em 2002, já bem crescidinho, pude perceber que o cenário era favorável, graças a combinação de amigos aficionados e orçamento adequado.

Pois vejam que coisa: apesar do entusiasmo, ainda ficou faltando uma figurinha em meu álbum do Mundial da Coréia e do Japão. Uma lacuna que pode ser representada pelos canais de comunicação pessoal aproveitados à época: só usávamos e-mails entre os conhecidos de sempre, sem chance de expansão; o ICQ tinha um excelente localizador, mas não era possível rastrear colecionadores; fóruns não eram exatamente confiáveis; e blogs ainda engatinhavam nas mãos de poucos usuários descolados.

Não é incrível perceber que, se o volume de gente nessas ferramentas de comunicação em rede aumentaram em oito anos, o mesmo se aplica ao interesse em um tipo de coleção 100% analógico, baseado em papel pintado e cola embutida, tecnologias “marcadas para morrer” por qualquer catedrático? Sim, a Fifa e a Panini chegaram a lançar um álbum virtual, que traz a genial sacada de resgatar rostos dos jogadores em figurinhas de álbuns antigos, mas as vendas em banca da boa e velha versão impressa deve ter ultrapassado com sobras os números de 2006, algo como 2,5 milhões de álbuns. Sem contar absurdos como o roubo de uma remessa de cromos em São Paulo!

Como explicar tamanho interesse por essa coleção? Meu palpite: o fato de estarmos, potencialmente, conectados a mais pessoas conhecidas e, consequentemente, aos seus colegas, embutiram no imaginário coletivo a sensação de que “vai ser moleza trocar figurinhas e completar o álbum”. De fato, quem cultivou suas estratégias de “networking” pode conseguir as 640 estampas desta temporada em tempo recorde. Tenho amigos que, em pouco mais de duas semanas, partiram para sua segunda coleção – sim, do mesmo álbum!!! – só para continuar imerso no universo das trocas, pretexto para estreitar laços. É importante lembrar que existem outras variáveis relacionadas ao processo, como investimento em envelopes de R$ 0,75 (com cinco figurinhas cada) e tempo para promover as trocas. Diante destes dois obstáculos, parti para uma estratégia menos agressiva. Enfim, em ritmo de treino, consegui completar em pouco mais de um mês.

Em 11 de abril, quando a Panini encartou álbuns gratuitamente nos grandes jornais do Brasil, estava em Vitória. Dois dias antes, os primeiros membros da rede já anunciavam: “aqui na minha rua já estão vendendo figurinha!”. Estava dada a largada. Meu primeiro contato com o álbum foi no aeroporto da capital capixaba. “Ih, moço, aqui as figurinhas só vão chegar durante a semana…”. Lamentei e disse que conseguiria o álbum de outra forma. “Ah não, moço, pode levar esse aqui. É que o homem que comprou o jornal não quis levá-lo, está sobrando!”. Uia, mas que tremendo golpe de sorte logo na arrancada!

O presságio positivo em trânsito não durou muito tempo. Num esforço em busca de diferentes distribuições, procurei figurinhas durante minhas passagens relâmpago por Brasília e Recife, semanas depois do lançamento. Nada de cromos. Ouvi de uma comerciante pernambucana uma história muito doida, dando conta que a distribuidora estava “segurando remessas porque haviam chegado poucas, não queriam privilegiar nenhum ponto de venda e por isso não existiam figurinhas à venda em lugar nenhum”. Mesmo sem fazer sentido, o Marcelo Bloc chegou a comentar que, em Fortaleza, a situação era parecida. A febre havia definitivamente surpreendido a Panini, que logo tratou de produzir mais remessas e normalizar o caos.

Para compensar a frustração após tantas andanças, fiz o que qualquer fã de álbuns adoraria fazer: entrei na revistaria da rodoviária Tietê e, sem pestanejar, pedi “um pacotão”. Na prática, um pacote fechado com 50 envelopes, ou seja, 250 figurinhas. Um belo começo, além de um passatempo delicioso: não há nada mais divertido do que rasgar pacotinhos, empilhá-los num montinho desordenado, observar uma a uma as novas aquisições (minha primeira foi a do Frei, da Suíça), ficar impressionado com os rostos semelhantes dos africanos e orientais, dar risada ao reparar que aquele esloveno se parece com o Marty McFly, resistir à tentação de colar os argentinos de cabeça para baixo… Enfim, dei sorte: acumulei apenas seis repetidas nessa leva, trocadas imediatamente.

Achou exagero meu ter comprado um pacotão? E o que dizer do Adilson Fuzo? “Bem, como estou colecionando o meu e o do meu filho, gastei praticamente todo o meu ordenado em envelopes para começar. Comprei mil figurinhas”.

É isso mesmo. Mil. certamente isso explica a reação de um vendedor, na Avenida Paulista, onde numa compra humilde pude formar meu primeiro “bolinho” de repetidas: “Tenho figurinhas pra vender sim, meu jovem. Quantos pacotes você vai querer? Cem? Duzentos?”. Diga se isso faz algum sentido pra você.

Como era de se esperar, as compras em múltiplos lugares diferentes revelavam surpresas, além de um número cada vez maior do hondurenho Costly, do sul-africano Pieenar e do norte-americano Beasley, entre outras bombas. As figuras duplas dos estádios (que logicamente ficaram coladas igual a cara do infeliz que as projetou assim) saíram em grande parte dos pacotinhos presenteados pela Luciana, em Belo Horizonte. Os mexicanos, que teimavam em permanecer com metade dos espaços vazios, apareceram numa compra que fiz no Rio de Janeiro. Num excelente negócio, ajudei o Rodrigo Cezaretti a abrir seu “pacotão” (essa coisa de comprar de baciada é mais comum do que você pensa) e propus uma troca justa: ele ficou com 250 cromos inéditos, desde que topasse trocar comigo, além das repetidas dele, as que eu ainda não tinha, mesmo se também faltassem pra ele.

Graças a iniciativas vencedoras como esta, digo com alegria que o maior número de cromos inéditos veio na troca com os amigos. Foi num encontro despretensioso de aniversário, por exemplo, onde percebi isso. Metade dos meus convidados levaram seus bolinhos de cromos, resultando em longos minutos de trocas bem sucedidas – só eu consegui quase uma centena. A propósito, aproveito a oportunidade para pedir desculpas aos outros presentes que, em razão dessa euforia, não conseguiram conversar direito comigo… Como no ano que vem não tem Copa, prometo compensá-los. Se serve como explicação, colecionar figurinhas nos deixa idiotas. Vejam que, mesmo na reta final, quando faltavam poucos cromos, ainda cometia a estupidez de comprar uns dez pacotinhos e juntar mais repetidas, só pra passar o tempo…

Finalmente, após múltiplas trocas com crianças de todas as idades, restavam seis figurinhas para o final. Pensei em aproveitar algumas das muitas propostas envolvendo contatos no Twitter. É mais factível do que participar de uma alucinada promoção da Panini, ou comprar os cromos diretamente com a empresa via Correios. Acabei optando por algo bem menos virtual e decidi passar no shopping Eldorado, no sábado à tarde, onde tradicionalmente dezenas de colecionadores se reúnem no espaço montado ao lado de uma réplica gigantesca da Jabulani, a bola do Mundial. Entre adultos e crianças, colecionadores e acompanhantes, encontrei uma dupla surpreendente. O pai tinha em mãos um fichário, com envelopes plásticos, contendo muitas repetidas de todas as figurinhas de zero a trezentos e vinte. O albão do filho continha as demais.

“Trocamos três por uma. É o melhor negócio para quem está prestes a terminar”, disse o jovem, sem mencionar se as prateadas valiam mais. De qualquer forma, aquilo provocou duas sensações. A primeira, desagradável. Ora, essa dupla está abusando da vontade dos colecionadores, exatamente como faz o Narazaki ao propor trocar as poucas que faltam a alguém por todas as repetidas. A segunda, mais amena. Vai, acabe logo com isso. E outra: quando a febre das figurinhas terminar, o que esses dois vão fazer com tantas figurinhas iguais? Juntar tudo num bolão e fazer “aleluia” no alto de um prédio?

Enfim, peguei minhas faltantes pouco antes do paizão selecionar cuidadosamente as dezoito figurinhas que valeriam a troca. Já em casa, após minhas cinco últimas autocoladas, chamei a Luciana e entreguei em suas mãos o cromo de um neozelandês. Então ela grudou a última que faltava para, finalmente, colocar o álbum no rol das conquistas, ao lado dos três anteriores. Ainda que, no de 2002, ainda esteja faltando o Keane, da Irlanda.

Ah sim, antes que o Adilson pergunte nos comentários: durante alguns dias, a turma do projeto experimental Koleções ficou com o meu álbum e, ao lado de outros, foi procurar por alguns campeões mundiais que pudessem, gentilmente, autografá-los. Como eu não havia marcado quais cromos havia colado, passei esse tempo trocando-os sem saber quais realmente tinha – uma verdadeira “roleta russa gigante”, como diria Israel de Jesus.

Em compensação, o meu álbum voltou com a assinatura do Raí, o que considero bem bacana – mesmo sabendo do potencial galhofeiro que isso representa, não apenas pelo fato do então camisa dez de 1994 ter “pipocado” naquela conquista, mas especialmente por seu passado relacionado ao clube mais colorido entre os paulistanos. Há quem suspeite, por exemplo, que esteja grafado alguma maluquice como “um beijo do Raí pra você”. Enfim, entre a verdade e a piada, fique sempre com a piada.

Comentários em blogs: ainda existem? (9)

  1. Sobre o cara que te “ajudou” a completar o álbum: Ô raça do caralho! Quer levar algum até nas figurinhas! Depois, os argentinos é que são ruins…

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