Cinco filmes nacionais que desceram algum morro carioca

Ano passado, quando o filme “Tropa de Elite” fez seu barulho dentro e fora dos cinemas – tanto em função dos DVDs piratas que circulavam antes mesmo da estréia quanto por conta dos bordões que se espalharam feito rastilho de pólvora -, a imprensa acordou. Repórteres se infiltraram no BOPE para mostrar ao público a “realidade por trás da ficção”. Troca de tiros entre policiais e traficantes em morros cariocas repercutiram nos programas a la Datena.

Lembro que o diretor José Padilha falou, em inúmeras oportunidades, a respeito do impacto de seu filme na agenda de conversas da população nacional. Em linhas gerais, é mais fácil para as pessoas conversarem sobre objetos descolados da realidade, transformados por profissionais da sétima arte, do que discutir os problemas a seco e engoli-los idem. E ele tinha razão: lembro bem de algumas reportagens envolvendo troca de tiros na Vila Cruzeiro… Aquilo ganhou voz nas ruas especialmente por conta da repercussão de “Tropa”.

Desde sexta-feira passada, outro que mostra os recônditos da Cidade Maravilhosa entrou em cartaz: “Era Uma Vez”. Entre os ecos que pude ouvir por aí, um dos mais repetitivos era: “cacetada, mais uma vez esse tema…”. Não sei se a reclamação vem da saturação ou de uma pretensa falta de criatividade… Ou ainda uma tentativa de reproduzir a fórmula que tornou “Cidade de Deus” uma referência cinematográfica. Não importa: eu penso que, quanto mais filmes trouxerem à pauta discussões relevantes, melhor.

Que venham, pois, mais filmes descendo algum morro do Rio. Como foi o caso de…

#5 “Orfeu” – Preciso confessar algo que me envergonha: ao pensar neste Top 5, pensei um bocado no filme que ocuparia este posto. O primeiro que veio à mente foi “Falcão: Meninos do Tráfico”. Tanto este documentário quanto “Notícias de uma Guerra Particular” mereceriam uma citação honrosa, mas seria melhor escalar uma ficção. Ainda bem que a Luciana assistiu ao filme, baseado na peça do poeta Vinícius de Moraes.

“O Orfeu, que é o cara do Cidade Negra, vive no morro, e o amigo de infancia dele, vivido pelo Murilo Benício, vira traficante. Eles estao voltados pro desfile da escola de samba, e todo mundo é apaixonado pelo Orfeu. Só que ele se apaixona por uma sem graça lá, a Eurídice. Ela morre e ele vai até o inferno buscá-la, mas ele não pode olhar pra trás senão a perde. É tragedia total, tudo no Carnaval”.

Tragédia total é o que permeia esses filmes, inclusive…

#4 “Meu Nome não é Johhny” – O ofício de jornalista-escritor pode render excelentes dividendos, especialmente aos mais talentosos como Guilherme Fiúza. Ele é primo de João Guilherme Estrella, personagem de uma história que retrata o mundo do tráfico mesmo longe dos morros: em uma casa de classe média, nasceu um dos maiores traficantes cariocas da década de 1980. Depois de ser preso e internado, hoje está plenamente recuperado – e dá palestras, ao lado do autor do livro.

Tudo graças ao sucesso estrondoso da película, que levou mais de 1 milhão de espectadores aos cinemas. O exemplo do “Johhny” é mais um sintoma de que a sétima arte precisa mesmo embutir alguma semente nos cérebros dos brasileiros: antes do filme estrear, em 2008, o livro já tinha sido publicado quatro anos antes. E durante os dias que antecederam o lançamento, tudo que perguntavam a Guilherme Fiúza era a respeito da repercussão nas telonas. Sua resposta? “Tudo bem, vai virar filme, mas já é um livro! Que tal lê-lo?”.

Curiosamente, entre os cinco filmes, o único que foi pensado exclusivamente para o cinema foi…

#3 “Era Uma Vez” – Há uma incoerência no título do segundo longa metragem de Breno Silveira, diretor do estrondoso “Dois Filhos de Francisco”. Deveria se chamar “Vai Dar Merda”. Porque é exatamente esta a sensação permanente desde o primeiro encontro do ótimo Thiago Martins (que é aprfesentado ainda criança num trágico flashback) com a lindinha Vitória Frate, quando o vendedor de hot-dog do quiosque da Vieira Souto se apresenta como surfista. Como esperado, os dois se apaixonam… A tendência a dar merda só aumenta, especialmente com o retorno do irmão mais velho ao Morro do Cantagalo.

Antes de ir ao cinema, esteja devidamente preparado para o final, certamente a grande ressalva do filme. Já dá para imaginar o que acontece apenas com a sinopse: “inspirado livremente na história de Romeu e Julieta”. Resumidamente, todos sabem desde o início que vai dar merda. A questão é: precisava ser daquele jeito?

Se bem que… Não é justo limitar a sensação de “vai dar merda” apenas aqui. O mesmo percebe-se claramente em…

#2 “Tropa de Elite” – Capitão Nascimento está doido para curtir sua paternidade, mas precisa treinar seu substituto antes de pendurar o fuzil. Descobre dois novatos numa ação sangrenta, provocada pela frágil PM no Morro da Babilônia. Até que finalmente passa o bastão para o novato sobrevivente, no instante em que este vinga a morte do amigo. Mas a história é o que menos interessa na trama dirigida brilhantemente por José Padilha (o mesmo do Ônibus 174).

“Tropa de Elite” conquistou as massas por várias razões. Primeiro por circular entre os espectadores antes mesmo da estréia: um vazamento fez com que milhões de cópias do filme circulassem em DVDs piratas, redes P2P e pen drives do país. O impacto foi percebido com clareza em qualquer diálogo durante semanas: “pede pra sair”, “nunca serão”, “traz a sementinha do mal”, “o conceito de estratégia”, “bota na conta do Papa”, “cadê o Baiano”… Entre outras expressões que já se tornaram clichês.

Apesar do Urso de Ouro em Berlim, “Tropa” ainda ficou atrás do mentor de todos os “filmes de morro”…

#1 “Cidade de Deus” – Não confundir com “Cidade dos Homens”, apesar dos artistas, do enredo, da produtora, enfim, de uma porção de coisas bem parecidas. Cidade de Deus foi o primeiro a chocar a nação. O primeiro a fazer com que os cariocas dissessem “é, tem alguns estereótipos, mas nem tanto assim”. O primeiro a concorrer ao Oscar fora da categoria “melhor filme estrangeiro”. O primeiro a catapultar a carreira do diretor Fernando Meirelles e da atriz Alice Braga a outros trabalhos em Hollywood.

Enfim, o filme que nos trouxe Dadinhoeocaráleomeunomeagoraézépequenoporra.

Ah, sim: antes que venham questionar, eu sei que Cidade de Deus não é exatamente um morro, mas sim um bairro construído para alojar ex-moradores de favelas, desabrigados de enchentes. Mas sejamos francos: há possibilidade de outro filme ocupar o topo dessa lista?

André Marmota tem uma incrível habilidade: transforma-se de “homem de todas as vidas” a “uma lembrancinha aí” em poucas semanas. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (9)

  1. É incrível como o cinema paulista não consegue dialogar com a sua violência sem ser pedante. Talvez pelo fato da elite daqui ter pouco contato direto com esse universo, quando alguem cineasta se propõe a falar de pobreza e violência em São Paulo, fica pedante como em “Os 12 trabalhos”, ou sem vida, como em “Antonia”.

    O máximo que chegamos perto disso foi em 9MM, polícia para classe média de TV a cabo assistir e se sentir em NY.

  2. Puxa… esse foi o peeeeeeeeor resumo pra Orfeu que eu poderia ter feito na vida! hahahahahahahahahahaha!

    Eu vi a entrevista da Frate e do Thiago no Jô e fiquei com vontade de ver o filme – também por causa do diretor, que é o mesmo do Dois filhos de Francisco, que eu já vi uma galera de vezes. Mas quando você disse que era uma adaptação de Romeu & Julieta, eu pensei de maneira bem clichê: Já vi esse filme, já li esse livro, etc. etc.

    Vale lembrar que o Thiago Martins também fez o Cidade de Deus, bem criança… É o grupo dele que assume a liderança da bandidagem da CDD quando a bandidagem velha guarda morre toda.

  3. Putz, não tenho nada contra cine-favela, mas fazer uma adaptação de Romeu e Julieta já é demais… Orfeu pelo menos foi buscar um mito grego quase obscuro.

    Mas CDD realmente abriu as portas pro gênero. Pro gênero e pras polêmicas de sempre, se isso causa uma mistificação da figura do traficante, que a realidade é escondida por trás da ficção, e parari, e parará…

    No fim, cinema é cinema. Assiste, aproveita e absorve, e pronto.

  4. “Como Nascem os Anjos”, de 1996, embora não se prendesse tanto à temática social (era mais “entretainment”), também merecia estar nessa lista. Falava de duas crianças de favela carioca que mantinham um americano e sua filha como reféns. Filmaço, um dos melhores nacionais que já vi.

  5. Opa André!

    A sua lista é ótima, pena não ter assistido aos dois mais recentes…(como o filme nacional é mal distribuído, tem que ficar caçando as salas de exibição!)…

    Um filme de 2006, que embora o tema central não seja favela, mas se passa ba parte por lá é: O Maior amor do mundo!

    Muuuuito bom. Por acaso é do Caca Diegues!

    abraços

  6. Gostei muito do Cidade de Deus, um filme bem completo com vários personagens, bom roteiro, fotografia e direção.
    Outro filme da favela que achei muito simpático, não me sai da cabeça é o “Assim nascem os anjos”, o final é surpreendente.

  7. Concordo com o Alexandre Sena, quando fala sobre o “Como Nascem os Anjos”, mas acho que ele não entra aqui por ser um curta. Aqui foram retratados apenas os longa favoritos do publico.
    boa lista.

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