Carta de recomendação

Enquanto você está aí, comemorando ao lado do seu grande amor essa data hipócrita e essencialmente comercial, outros manés lamentam o fato de não terem motivo algum pra isso. Gente que acha todos estes sentimentos ligados a relacionamentos uma massa podre e disforme, que se esfarela nas mãos do pobre incauto que tenta moldá-la.

É num dia como hoje que a Quadrilha, do Drummond, faz todo o sentido: João amava Teresa, que amava Raimundo, que amava Maria, que amava Joaquim, que amava Lili, que não amava ninguém. João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes, que não tinha entrado na história.

Ô mundinho injusto esse. Culpa dessa mania horrenda e injusta chamada “paixão”. Por conta disso, acumulamos tombos e fracassos – isso quando não é a nossa vez de dar rasteiras. Já estive dos dois lados do balcão, e estou cansado disso. Assim como você.

Cheguei a conclusão que sentimentos não deveriam ser desperdiçados em amores infrutíferos, condenados ao fracasso. Seria melhor extirpar esse elemento controverso sempre que começamos um novo relacionamento. Trataríamos a coisa como um… Uma relação trabalhista, por exemplo.

Imagine a sua pretendente como sendo seu futuro emprego. Você se apresenta com sua melhor gravata, pede uma entrevista, se possível deixa pronto um currículo bem elaborado, com todas as suas ocupações anteriores. E não se incomoda em passar por um “período de experiência” antes de assinar o contrato.

Fosse assim tão simples, poderia anexar à papelada uma foto 3 x 4, com cara de “e eu uma pedra”, além de uma carta de recomendação, redigida pelo antigo empregador. No meu caso, é fácil: tenho pouca experiência na área, algumas semanas em três diferentes contextos – isso sem contar uns bicos. E felizmente mantenho contato firme com todas, o que me dá liberdade suficiente para pedir, sem pestanejar, o tal documento.

Veja como ficou a indicação feita pela minha última, hum, gerente supervisora. Depois me diga se teria coragem de pedir uma dessas – ou mesmo se vale a pena fazê-lo.

São Paulo, 12 de junho de 2004

À quem interessar
Ref.: vaga para o cargo "Namorado I"

Prezada contratante,

Venho por meio desta atestar que seu portador, André Marmota, que se apresenta como candidato diante da vaga anunciada, ofereceu seus préstimos entre os meses de junho e setembro de 2003, sendo este um excelente funcionário durante a maior parte do tempo.

Não há nada em seu prontuário que conteste seu esforço, mas é minha obrigação apontar algumas precauções, caso V.S.ª realmente se interesse por seu currículo. Seria interessante dispensar alguns minutos de seu tempo diante de minhas resumidas observações.

Como citado acima, trata-se de um rapaz esforçado e dedicado. Mas leva algum tempo para assimilar a importância das tarefas. Apesar do ritmo lento de aprendizado, possui grande determinação - a ponto de provocar gratas surpresas no dia-a-dia e, ao mesmo tempo, doses homeopáticas de teimosia e ironia.

Além destes pequenos cuidados, vale afirmar que trata-se de um exímio artesão - digo isso por conta dos seus excelentes trabalhos manuais.

Acredito que, a essa altura, V.S.ª deve se perguntar por que o sujeito que está diante de ti possui tantos atributos tangíveis e, ao mesmo tempo, é apenas um "ex-qualquer coisa". Pois explico. Ele chegou aqui demonstrando entusiasmo e força de vontade. Com o passar do tempo, no entanto, seus questionamentos relacionados a nossa metodologia de trabalho aumentaram - o que é perfeitamente normal em qualquer empresa.

Não vem ao caso explicar os motivos. O fato é que, diante do acúmulo de dúvidas e incompreensões, resolvi dispensá-lo, assumindo total responsabilidade por esse ato. Acredito que ele pode encontrar melhores condições de trabalho em outro estabelecimento, quem sabe com um sólido plano de carreira. Ao mesmo tempo, faremos por aqui uma reciclagem em nosso departamento de recursos humanos, sempre no intuito de servir bem e prosperar.

Na esperança de que V.S.ª efetuará a melhor escolha para o seu futuro, queira aceitar os meus melhores cumprimentos e votos de boa sorte.

Atenciosamente,

Ex-namorada

Vamos ver como ela fica em papel timbrado… E depois, quantas cópias será que vou precisar?

André Marmota acredita em um futuro com blogs atualizados, livros impressos, videolocadoras, amores sinceros, entre outros anacronismos. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (12)

  1. É, este dia dos namorados é mesmo uma droga prá quem não tá namorando…como nós heins, dear marms…devemos temer ?
    Venha pra Errejota com a carta da tua ex-gerente e me deixe ser sua headhunter…logo logo voltas a ativa!
    não fique triste por hoje, entra aqui debaixo do edredon e vem comer CHOCOLATE (o que? tão olhando com essa cara o que? estamos solteiros, certo?)

  2. Um tanto deprê, mas coerente. Por sorte já passei da fase de ter namorada ocasional: casei com a última! Sabia que o dia dos namorados na Europa se chama São Valentino e cai no dia 14 de fevereiro? (ou seria janeiro…?)

  3. Oi Marmota…. eu ainda não vi Simplesmente Amor, você gostou? Bem, quanto ao seu post, eu nem quero mais tentar entender toda essa porra de paixão, amor, namoro, relacionamento… deixa pra lá. Beijos

  4. Éééé…um tanto tímida mdiante tanta exuberância da “língua” mãe! Nossa, estou engasgada, não, da língua,não! Seo Blog…parece que estou em Tóquio, foi o que senti! Não consigo comentar mais, na próxima, talvez, melhore minha timidez. Mas, Amei!
    É Blog ***********! Um Beijo(surtado), sutil, fugidio como a madrugada que agora vai…roubado, encantado…Assim vou com os Elfos e Fadas…Ceci

  5. E que me disseram que era um blog que indica outrso blogs.. ou mais ou menso isso. mans ja dei uma olhadinha .. emais ou menos como o meu =p um blog sobre tudo =] .. por isso o nome do meu é Stuffbox Caixinha de coisas. =p …

    espero que etsjas gostando do Stuffbosta como eu estou gostando do seu..pena que não sou da sua cidade para utilizar seus conselhos de lugares =p

    Abraços

    Dudu

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