As muitas histórias do Casarão de Brumado

O casarão

Em cada cantinho inóspito desse imenso país, existe pelo menos uma grande história que precisa ser contada, espalhada e registrada para a posteridade. Essa foi a conclusão que cheguei ao ficar por pelo menos 24 horas do meu agitado feriado prolongado quase no meio do nada.

Foram meus pais e meu irmão que descobriram essa rica moradia, parecida com o cenário de uma novela das seis com a Lucélia Santos e o Rubens de Falco. O lugar fica em uma estrada de terra, que liga a rodovia Amparo-Itapira a Serra Negra. Para quem vem nesse sentido, fica logo depois a uma antiga estação de trem, batizada Brumado, um dos poucos indícios de que ali passava uma ferrovia.

Não tive o prazer de conhecer a peculiar figura do “tio João”, sujeito responsável pela venda e aluguel de algumas casas, chácaras e sítios naqueles arredores. Ficou nas mãos desse exímio contador de histórias a responsabilidade de conservar o legado de um lugar que, em pleno século 18, foi o lar de um rico “barão do café” – com direito a uma ampla senzala e confortáveis correntes de ferro para os escravos.

O casarão

Quem desembarca nos dias de hoje esbarra numa porção de referências, como o altíssimo pé direito, o teto forrado por madeira maciça, as portas e janelas enormes, o casarão branco e seus detalhes azul-desbotado, a varanda, os balaústres, as escadas e muros em pedra… Também encontra benfeitorias completamente abandonadas, como uma churrasqueira e um viveiro de pássaros sem a cobertura de sapê. Sem falar em alguns quartos e ambientes tomados por mofo e cupins.

Casarão em BrumadoDe qualquer forma, deve haver em algum lugar registros históricos que preencham essa imensa lacuna entre os tempos da Lei Áurea e o final do século 20, época em que a gigantesca fazenda já estava devidamente retalhada. Alguns vestígios se sobrepõem, como nos arcos de ferro sobre as portas: uma refere-se ao ano de 1895; a outra, 1987. É fácil presumir quais elementos comemoram seus 20 anos de existência: todos os quartos ganharam banheiros em alvenaria. A antiga senzala foi transformada em salão de jogos, com mesas de pôquer e um sofisticado bar (hoje ao relento). Uma piscina bem cuidada (e ainda em ordem) contrasta com os recantos largados. E em pelo menos 11 cômodos, ainda restam algumas caixinhas e fios do que já foi um curioso sistema de interfones.

Minha mãe sempre diz que, se ela pudesse voltar no tempo, teria feito uma faculdade de história. Também poderia ter sido jornalismo, outra profissão movida pela curiosidade em investigar o passado para entender o presente. Foi em uma conversa informal no alambique da família Carra, perto dali, que ela ouviu falar no juiz Alfredo Mendes, talvez o mais conhecido entre os antigos moradores daquele sítio. Foi ele que comprou o casarão e suas benfeitorias em 1985, reformando-o logo em seguida. Além do salão de jogos, da piscina, dos banheiros e do sistema de interfones, espalhou pela casa motivos espanhóis: cartazes e um toureiro de porcelana, comprados em uma viagem à Espanha.

Casarão em BrumadoA história de Alfredo Mendes, segundo a turma do alambique, não é das mais felizes. Anos mais tarde, seu carro foi encontrado incendiado na beira de uma estrada, em circunstâncias jamais explicadas. Seu corpo nunca foi encontrado. As suspeitas, todas sem qualquer evidência, recaem sobre um dos filhos, um tal Marquito. “Ele não se dava bem com eles. E você sabe, né… Pessoas muito inteligentes podem ser perigosas…”, completou um dos guardiões da sabedoria popular.

A lenda não acaba aí. Diziam, na época do crime, que o corpo do juiz havia sido enterrado no estábulo, outro mistério que nunca foi confirmado. O próprio “tio João” garante que isso é bobagem. “Eu mesmo mandei o pessoal cavocar tudo ali, e ninguém achou nada”. Evidentemente, a frase foi dita no fim da estadia, quando meus pais lhe deu algumas dessas “pílulas” em forma de causos.

O casarão

“Mas isso já faz tempo. Depois dele, até o Roberto Carlos já esteve nessa casa, quando o dono era o inventor de um famoso veneno para matar formigas”, emendou o esperto corretor. Mais um recorte que se encaixa com um lindo bilhete, perdido numa das gavetas da sala. Nele, os pais Mirrê e Álvaro dedicam com amor a enciclopédia Barsa aos filhos, porque “de todos os presentes que se pode oferecer, o melhor deles é o saber”. Verdade. E quanto mais sabemos, mais a gente quer saber.

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Comentários em blogs: ainda existem? (4)

  1. Teu texto me lembrou muito minha passagem pela Bocaina nos anos 70 com pitadas do Tronco do Ipê, do José de Alencar, um romance de intrigas de terra e quase sobrenatural.

    Fiquei com vontade de ir lá também tal teu poder de redação.

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