Acabou-se o que era doce

Muitos engraçadinhos atribuem aos cidadãos de Pelotas, Rio Grande do Sul, uma fama peculiar, similar a dos nativos de Campinas, aqui em São Paulo. Mas enfim. Além dessa fama infeliz, a cidade gaúcha também se esforça para propagar pelo país o rótulo de “capital nacional do doce”. Seu principal cartão de visitas é a Fenadoce, evento que terminou no último domingo.

Digamos que as duas famas possuem origens parecidas. No Século XVIII, a cidade era uma das mais ricas da região sul do país. Seu desenvolvimento permitiu às famílias mais ricas constrirem casarões ao estilo europeu e financiar os estudos dos filhos no velho continente. Ao retornarem, os pelotenses traziam na bagagem novos hábitos, mais requintados. Diferentes dos da indiada grossa uma barbaridade. Daí a suposta “viadagem” e a arte, esta autêntica, de fazer doces.

Com o passar dos anos, a riqueza deu lugar a uma cidade provinciana e estagnada economicamente. Vive basicamente da agricultura – Pelotas é a sede do arroz Tio João e das compotas Vega, que como qualquer indústria do mundo, adaptou-se aos novos tempos. Ao invés de convocar centenas de pessoas para descascar pêssegos, usam dois ou três para apertar botões. Os pequenos deixam a zona rural em busca de melhores condições. Acabam montando açougues (Pelotas tem um em cada esquina) ou outras lojinhas, formando um perigoso círculo vicioso: pessoas sem emprego, que montam um comércio, que não tem fregueses, que não tem empregos.

Os casarões? Muitos não estão conservados como deveriam. A antiga estação de trem e seus trilhos, que um dia foram cantados por Kleiton e Kledir, representam o exemplo do abandono. Praças tradicionais como a Cel. Pedro Osório ou a Piratinino de Almeida, onde fica a velha caixa d’água, estão longe de chamar a atenção. A Fenadoce é, ao menos, uma tentativa de convocar turistas para algumas horas agradáveis no Centro de Eventos. Onde, aliás, funcionava uma fábrica da Cica, que fechou.

Mas vamos à feira. Muitas novidades marcaram a 11ª edição, pelo que pude comprovar nos relatos de alguns conterrâneos. A Maria Clara gostou da organização, abrindo espaço para os expositores locais. “O que é o certo, pois a feira é pra mostrar a produção local e não para mostrar aquele bando de peruano ou então aqueles chatos que vendem aqueles utensílios de cozinha e ficam com aquele monte de repolho, cenoura e até ovo frito exposto na bancada do stand”. Aliás, essa turma aparece até em feira têxtil no Anhembi. Ela também gostou do visual do Centro de Eventos. “O teto azul da praça de alimentação e o branco da parte dos expositores. Ficou bem melhor, pois não mostra aquele teto horrível daqueles pavilhões”.

Quem também esteve lá foi a Joanninha, que ficou impressionada logo na entrada, ao pagar seu ingresso. “Os preços populares instigaram curiosos e os ‘formigas’ a participar, afinal a entrada custava três reais, com direito a um vale-doce. Os valores dos quindins, brigadeiros, e outros estavam em torno de um real: isso significa que com dez reais você poderia comer dez doces e ficar empanturrado de açúcares”. Bom saber que ela não precisou apelar para a “essência de vida” Olina, tradicional (e muito bom) remédio daquelas bandas.

Também não faltou diversão faltou para quem compareceu à Fenadoce. Como a pista de patinação de gelo, responsável por alguns hematomas na Joanna e seus amigos. “Aliás, chegamos a conclusão de que cair já nem era mais o problema, mas sim levantar porque a pista era muito lisa e os patins não firmavam”. Ali era possível se esborrachar durante uma hora. Com menos tempo (apenas 15 minutos), mas talvez mais entusiasmo, o Otávio experimentou outro brinquedo: o Laser Shots, versão sem sujeira do clássico paintball. Nosso professor explica: “um labirinto, escuro, onde duas equipes devem marcar a maior pontuação, invadindo a base adversária ou simplesmente matando os inimigos, utilizando uma pistola laser”.

A feira já acabou, mas a cidade, apesar das tentativas, ainda não. É possível babar em uma lojinha convidativa de doces, montada estrategicamente no calçadão da XV, bem no centro. Apareça lá se tiver tempo, antes que o último pelotense sobrevivente lhe diga, logo na entrada da cidade: “acabou-se o que era doce”.

Comentários em blogs: ainda existem? (9)

  1. Falando em doces, acabei de comer um pedaço de torta (ou seria pavê) de limão… tava bão!!!e eu faria a festa nessa fenadoce… afe!!v–v

  2. Bom, considerando Pelotas terra dos afeminados e do doce, constatamos que esta cidade acabou se transformando na capital nacional do cú doce!

  3. Por falar em doces, já comeu um tal de Noggi?Eita chocolatinho bão…Já que está falando de eventos, não se esqueça de falar da JEDICON…

  4. Já que citaram a doceria da XV eu vou fazer o meu marketing familiar também. A minha irmã também tem uma doceria (por sinal muito boa) aqui em Pelotas e que leva o nome dela “Doceria Márcia Aquino”. Pra quem quiser conhecer e engordar um pouquinho é na Av. Bneto Gonçalves entre Sta. Cruz e Gonçalves Chaves e ainda tem uma filial na Andrade Neves dentro da Galeria de Arte Mural.

  5. Ah, e por falar no descaso com o patrimônio público de Pelotas, eu fico muito triste cada vez que eu vejo aquela caixa d’água maravilhosa abandonada e descuidada daquele jeito. Sem contar nos outros inúmeros prédios e monumentos históricos que sofrem a ação do tempo e não são nem um pouco cuidados, até mesmo pelos próprios cidadãos que depredam sem a mínima vergonha.

  6. O bom e velho Laser Shots! Fizemos campeonatos disso :) Não cheguei a contar dos campeonatos no blog, mas reunimos os Blogueiros de Pelotas (alguns que não blogam mais tb.. e outros que não moram mais em Pelotas) e fizemos três equipes :) Fantástico :) Diversão garantida. Depois ainda patinamos no gelo. Claro!Marmota, sabe o doi mais?É olhar para a estação e lembrar (bem, lembrar eu posso porque ainda não tinha nascido) que meus pais casaram lá :)Minha mãe (com toda a família dela) morava na estação. Meu avô era agente ferroviário. Eu acho que eles foram os últimos a morar lá. Depois disso a estação ficou abandonada. Como está até hoje.Logo depois que casaram, meu avô morreu e minha avó alugou uma casa mais no centro (hoje ela mora no Larajal e não sai de lá nem morta).O Larajal poderia ser mais explorado tb. É uma praia bonita, com o calçadão, a avenida dupla aquela e muitas mulheres bonitas. Principalmente num domingo de sol :)Um ótimo lugar para passar a tarde tomando chimarrão :)A minha outra avó, tinha uma casa num ponto muito bom de pelotas, na esquina da Deodoro com Neto (de cara com o Curi Hotel). A fachada da casa havia sido tombada como patrimônio. Como a vó já não estava morando lá, resolvemos vender. Foi comprada pelo Sicred. Ficou fantástica a casa depois da reforma (a fachada é a mesma, claro).Mas claro, ainda tem muita coisa à arrumar na cidade. Só acho uma pena as empresas nao investirem mais nisso.Não dá para deixar tudo com a prefeitura ou com o governo do estado. As empresas deveriam ajudar mais. As Pessoas deveriam ajudar mais!Agora o Gilberto Gil veio a Pelotas e participou da entrega da fonta das Nereidas a população. Quanto tempo ainda vai durar sem vandalismos?O que é esse prédio? Tudo bem que não seja um prédio histórico, no sentido de arquitetura da época, mas é um p* prédio. Que está lá. Atirado.Vou achar umas fotos dos prédios de Pelotas e te mando :)t++

  7. Ano que vem você vem e patina comigo!! Vou treinar um pouco mais e os hematomas serão coisa do passado…Aí é a sua vez de cair um pouquinho..rs..Beijos!

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