A vida é muito curta, Rodrigo

Em julho de 2008, recebi um telefonema. Era um dos assistentes da coordenação da área de comunicação da UniSant’Anna, um tradicional centro universitário na zona norte de São Paulo. Era um convite para dar aulas no curso de jornalismo – ideia da Ana Brambilla, uma amiga que, como eu, também enxerga algo mais em uma sala de aula. Faltavam poucos dias para o início das aulas, mal tive tempo de me preparar para experimentar, pela primeira vez, uma disciplina da graduação. Fui apresentado pela então coordenadora ao pessoal do quarto semestre. Depois, comecei a falar qualquer coisa sobre “ser aquela a hora de cometer erros”, antes de explicar meu incompleto plano de voo.

Cada turma tem sua história, dinâmica e reação conjunta, mesmo diante daqueles estereótipos individuais em sua composição. Aquele quarto semestre tinha gente fora do contexto, praticamente fazendo turismo. Outros eram quietos, incógnitos: estariam ou não interessados? Uns dois ou três já se comportavam como profissionais gabaritados. Julgavam saber tudo do ofício, por isso apareciam pouco – o suficiente para assinar a lista. Também tinha a galera do futebol, que ignorava o intervalo para discutir a rodada comigo.

Dentre essas figuras, um sujeito grande – alto e largo – e de fisionomia séria foi um dos primeiros a levantar a mão, logo naquela estreia, para trocar figurinhas sobre o que estava sendo dito. “Boa pergunta. Qual é mesmo seu nome?”. Rodrigo, respondeu. Lembro que, em uma dessas intervenções, fiquei na dúvida: “não estou certo a respeito disso, mas pode me cobrar: semana que vem, eu lhe respondo com mais precisão”.

Com o tempo, já conseguia responder melhor à turma. Mais do que isso, era capaz de distinguir quem estava ali em busca de nota e quem esperava algo mais. Rodrigo Cezzaretti era um dos alunos que transformavam uma aula sobre técnicas de reportagem em longos debates sobre o Palmeiras, o último lançamento para Xbox, o novo filme do Batman, sua paixão por queda de braço (e o fato de já ter competido nessa, mmmhhh, modalidade esportiva), entre outros assuntos muito mais interessantes do que as formas de redigir um lide. Ao final daquele semestre, propus uma divisão da sala em quatro grupos, para a produção de um produto editorial cujo único pré-requisito era: “façam com tesão”. Recebi dois trabalhos bacanas, um muito bom e o Auditivo. Salvo alguns tropeços de revisão, foi um trabalho altamente profissional. Capitaneado pelo Rodrigo.

Aquela galera seguiu comigo no sexto e sétimo semestres, mergulhando no jornalismo digital. Mas a essa altura, minha relação com o Rodrigo ultrapassava as salas de aula. Em uma dessas noites bacanas, pude conhecer a companhia teatral de seus pais, a dos Ícones, e assistir ao espetáculo Inês no Teatro Ruth Escobar. Quem nos acompanhava? Ana Brambilla, numa demonstração da inexistência das coincidências: de certa forma, a culpa daquele encontro foi dela. Quer dizer, daquele e de todos os outros que vieram a seguir.

A paixão do Rodrigo por jornalismo, games e internet culminou com mais uma de nossas experiências: orientação de um TCC, a revista eletrônica Bout, durante 2010. A essa altura, já podemos admitir: dificilmente havia orientação. Eram longos papos sobre música, cinema, o iminente fracasso de Dunga na Copa, o desejo inconstante das mulheres, a vida, o universo e tudo mais. Da sala de aula, voltávamos juntos para a nossa ZL, onde a orientação (ou seja lá como queira chamar) prosseguia. Tive o privilégio de conhecer sua casa, sua esposa Kamila em uma noite de sábado repleta de pizza, WordPress e videogame. A banca final e o inevitável dez contou com a ilustre presença do David Lemes na avaliação. Algo que nós dois queríamos muito.

Sempre tratei o Rodrigo como um admirável colega de trabalho, mesmo nesse período acadêmico. Sua transição, de estagiário num sindicato a responsável pelas mídias sociais em uma agência, transformou nossos papos em verdadeiros encontros profissionais: Rodrigo, Ana e eu fazíamos “mini-barcamps” no Burger King da Hélio Pellegrino. No ano passado, em sua comemoração de aniversário no Pampeana Grill da Anhaia Melo, percebi o quanto era querido. Amigos da infância, companheiros de CastZone, parentes… Além da futura mãe do Arthur. Aos 31 anos, o futuro papai era querido e feliz.

Nesse semestre, vi o Rodrigo poucas vezes. Tivemos tempo para um encontro regado a KFC na Moóca – com a Ana, lógico. Semanas depois, nos vimos novamente, no encontro dos autores de Para Entender as Mídias Sociais 2. Não conseguimos marcar outros. Estava tenso, preocupado com o futuro do filho, com as contas a pagar, com os perrengues profissionais… Mas carregava esperança diante de uma pós em mídias sociais. Vislumbrava uma carreira e tanto como professor. Alegrava-se tanto pelas coisas novas que aprendia quanto por ter visto muitos dos conceitos na faculdade. No começo de junho, após sucessivos e-mails remarcando jantares, escrevi:

“Amigos, somos um trio afogado… Não quero aqui apontar o dedo em lugar nenhum – aliás, quero, sim. Afinal, que vida é essa que escolhemos pra gente, hein? Temos a escolha de compartilhar poucas horas regadas a refrigerante barato e frango frito, mas acabamos por tropeçar em consequências das opções que fizemos há alguns dias, semanas, enfim”.


Ana Brambilla e seus guarda-costas

Nosso último encontro foi no dia 19 de junho. O Rodrigo foi convidado por outros orientandos meus para gravar uma entrevista sobre os lançamentos da última E3, entre outras peripécias gamers. Nossa carona de praxe teve uma rápida alegria: “acho que dá tempo de comer um negocinho no Habibs”. Eu pedi umas oito esfihas; ele, preocupado com a dieta, comeu só um beirute. Reclamamos dessa vida louca, da falta de tempo para fazer aquilo que gostamos. Contou (e me deixou estarrecido) que driblou a morte numa tentativa de assalto quando deixava o clube de botonismo – outra de suas paixões esportivas. Compartilhei minha preocupação com o esfarelamento do curso de comunicação da Sant’Anna – que só aumentou dias depois, quando fui dispensado de lá; nem te falei, Rodrigo. Mostrou sua nova aquisição, um tablet xing-ling com Android bastante honesto. Combinamos de nos encontrar, no começo do mês, para irmos juntos a Santa Ifigênia e destravarmos meu novo Nintendo Wii.

Talvez já tenha ficado claro, a essa altura: sabe aquela fisionomia séria que vi em agosto de 2008? Não era nada, comparado ao tamanho de seu coração. Este, inclusive, foi o responsável por pregar uma dessas peças ingratas do destino: na quinta, 28, ele deixou de bater algumas vezes. Passou os últimos dias na UTI, alternando momentos de lucidez com outros de total serenidade. Dias tensos para quem, como eu, chegou a pensar ao menos uma vez em torcer pelo Palmeiras diante do Coritiba, por pura inércia: a torcida era por ele. Difícil acreditar que um sujeito tão forte não tenha conseguido vencer essa luta pela vida. Incompreensível imaginar que, desde as 22 horas desta segunda-feira, o mundo que conhecemos – e alguns que só funcionam em consoles baseados em chips – não contarão com sua marcante presença.

Fica a certeza de que o pequeno Tutu, ao lado da Kamila, vai crescer carregando a memória de um paizão coruja e amoroso. Fica seu prognóstico de que, em 2014, o Brasil não será hexa. Guardamos com carinho a ideia de criar um blog sobre pizzas no Dialetica ou desenvolver a versão para iPad da Bout. Fica a vontade de passar essa noite no Burger King e dizer: “amigos, ainda bem que tivemos a chance de aproveitar e lembrar de episódios como este; afinal, a vida é muito curta”.

Comentários em blogs: ainda existem? (20)

  1. E essa torcida inesperada pelo Palmeiras… Até tentei me justificar pensando que estava torcendo pelo Felipão, mas era pelo Rodrigo. E era pra ele sair daquela UTI. Pra ele passar mais uma, duas, dez, inúmeras noite de mini-barcamps com a gente.
    Ele é demais, André. Mesmo sob o medo que estou de te encontrar agora – medo da dor, da ausência – vai caber a nós dois manter mais viva do que nunca a memória, a história, o talento e a energia tão linda, o brilho inigualável no olhar que esse guri sempre mostrou ao discutir tecnologias, socialices e as elocubrações que costuravam esses mundos tão deliciosos por terem nos aproximado.
    Conto contigo pra suportar essa ausência sempre presente nos nossos coraçõezinhos. E pode ter certeza de que essa foto aí de cima mostra um dos sorrisos mais verdadeiros que já sorri. Adoro muito vocês dois.

  2. Linda homenagem, André. Me emocionou. Eu não o conheci mas, depois desse seu texto, passei a nutrir um grande carinho pela pessoa que o Rodrigo foi. Que sempre será, na lembrança dos que tiveram a oportunidade de conhecê-lo. Um beijo.

  3. André, lindo o seu ‘testemunho’ (não ouso chamar apenas de ‘texto’). O Rodrigo merece esse carinho. Acho que nós, ex-professores, acabamos ficando um pouco paternalistas inicialmente e terminamos nos tornando meio cúmplices dos ex-alunos, sei lá. O fato é que criamos vínculos. Alguns mais fortes, outros nem tanto, mas criamos. Meu coração ficou apertado ao saber da notícia, mas prefiro pensar que sua semente ficou aqui entre nós, na figura do pequeno Artur (cópia do pai) e que ele, como diria Lennon, simplesmente “acordou do sonho da vida”. RIP, Rodrigo. Beijos, André…

  4. André, meus pêsames!
    Justamente por concordar que é curta sempre que chamar vou fazer de tudo para atender e comparecer!!!
    Gosto muito da sua amizade!!!

  5. Perfeito, uma bela declaração de amizade. E, ao mesmo tempo, um aviso para nós, que ficamos por aqui, que já é hora de ir em busca de nossa felicidade. Estagnar na vida não nos levará a nada que não o fracasso e o conformismo.

    Lutar, para que quando se chegue a nossa hora, possam dizer que vivemos muito, mas que ainda nos faltavam tantos outros momentos…

  6. Fui e sempre serei uma das melhores amigas de Rodrigo, irma de Raffaele que produzia com ele o °castzonne°, es muito dificil mesmo perder uma pessoa tao ilustre como ELE, mas agora o CEU vai ter uma FASCINANTE anjo que contagiara a Todos que estao por la com seu imenso talento, compaixao, emocao e carinho, essa PESSOA so podia ser: RODRIGO, o nosso AMIGAO. Abracos FERNANDA P.

  7. Poxa André que triste o que aconteceu ao Rodrigo! Ao mesmo tempo seu texto me anima a ser uma pessoa mais corajosa e assumir as minhas escolhas. Obrigada pela sua participação em clarear minhas escolhas com suas aulas

  8. Muito emocionada com o seu texto, André!
    Comecei o curso de Jornalismo no período da manhã e apenas no 2º semestre passei para a noite. Lembro do Rodrigo sempre alegre. Aos poucos fui conhecendo a turma e depois o Rodrigo, que me convidou para fazer parte do grupo DELE. Isso era uma honra na época.

    Os anos se passaram e eu, Rodrigo e Charles nos tornamos amigos inseparáveis. Lembro que em todos os trabalhos ele queria fazer sobre games e eu sempre falava: “guarde este tema para o seu trabalho final”.
    O ano de 2010 chegou e com ele todo o peso do TCC. Não fizemos juntos, mas ficamos na mesma turma e nos ajudamos.

    Hoje, fui dar um último tchau, com muita tristeza, mas com a certeza de que ainda compartilharei muitos momentos com ele.
    Um grande abraço, meu querido amigo.

  9. Nossa ainda me custa acreditar q ele se foi…mesmo com a triste cena dele na despedida…ainda não acredito em sua morte

  10. André, tenho certeza que as pessoas que como eu conheceram e amam o Rodrigo, estão emocionadas como eu com seu lindo texto, que nos mostrou um pouco mais do Rodrigo. Obrigado e um grande abraço.

  11. A vida é mesmo muito curta!
    Tenho como verdadeira a frase “os bons morrem jovens”, pois eles estão bem melhores do que nós, que ficamos com a saudade…
    Um forte abraço!

  12. André querido,
    Belíssima a sua homenagem.
    Acabo de chegar de viagem e deparo com essa inesperada e triste notícia! Que dor imensa perder alguém tão querido como o Rodrigo! E tão jovem, talentoso e cheio de vida…
    Para mim, muito mais que um aluno: um amigo e um filho que sempre me tratou com carinho e respeito.
    Sentiremos muito a sua falta no tempo que ainda nos resta nessa caminhada terrestre.
    Força, meu amigo.
    Beijo carinhoso.

  13. Eu só topei com o Rodrigo (e contigo também, lembra?)uma vez nessa vida, mas achei vocês um trio tão querido que quando soube que o danado tinha se mandado desse puto mundo, me deu vontade de chorar.

    Fico torcendo para que tu e minha mana protejam sempre os bons arquivos que o Rodrigo deixou lá gravadinho nos HDs de vocês.

    Um beijo com carinho, Angel Brambilla

  14. Caro André,
    Sou a mãe do Rodrigo. Seu texto me emocionou muitíssimo. Obrigada. Ainda estamos em estado de choque. A tristeza pela perda de meu bebê grandão é grande demais. É reconfortante saber que soube fazer grandes amizades.
    Abraço a você e a todos que se manifestaram.

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