A arte de escrever bem na Internet

Experimente a seguinte experiência qualquer hora dessas, especialmente se o assunto for relevante para você: faça uma busca no Google por textos que tragam conselhos, fórmulas, regras… Qualquer coisa para tornar seus textos adequados ao ambiente digital.

O resultado? Muitos especialistas (ou ainda os famigerados “consultores”) apresentando listas do gênero “dez dicas infalíveis para ter um blog de sucesso”, entre outras cascatas.

Admito que não enxergava o quanto me enganava com essa conversinha mole de “conselhos para uma nova era da redação”, até o professor Ramón Salaverría apresentar os itens descritos abaixo. Tenho absoluta certeza que você já os viu em algum momento da sua vida.

– Escolha um leiaute adequado para o seu texto.

– Cada parágrafo deve conter apenas uma idéia.

– Prefira a voz ativa.

– Escreva de forma positiva (evite negações).

– Prefira palavras específicas, concretas.

– Omita palavras desnecessárias.

– Evite frases longas, que podem confundir o texto.

– Ao enumerar ou expressar idéias semelhantes, mantenha a mesma forma.

– Em uma frase, mantenha palavras e idéias relacionadas juntas.

– Atenção para não misturar tempos verbais.

– Em relação ao assunto tratado, coloque-se em segundo plano.

– Escreva de uma forma que seja natural para você.

– Prefira verbos e substantivos, não exagere nos adjetivos e advérbios.

– Revise e reescreva seu texto.

– Se não gostou do texto, comece do zero. Não reescreva “por cima”.

– Não exagere no estilo, seus leitores vão suspeitar.

– Evite qualificações (muito, pouco, grande, pequeno).

– Controle sua euforia e espontaneidade, normalmente elas não dizem nada.

– Respeite a ortografia.

– Cuidado com explicações demais (corte os “disse Fulano”, “respondeu Siclano”).

– Atenção a neologismos ou construções erradas, especialmente advérbios.

– Tenha certeza que seu leitor entenda as palavras, sejam elas rebuscadas, abreviadas ou gírias. Na dúvida, seja claro sempre.

– Evite demonstrações de exuberância com palavras estrangeiras. Escreva em português.

– Chavões, frases feitas e figuras de linguagem: use com moderação.

– Cada um tem seu estilo, suas palavras preferidas. Mas em todos os casos, prefira o padrão ao extravagante.

Gostou? Anotou tudo? Pois saiba que as técnicas acima foram pinçadas do mais famoso livro sobre o assunto no mundo: “The Elements of Style”, escrito por William Strunk Jr e atualizado anos depois por E. B. White.

Foi lançado pela primeira vez em 1918. MIL NOVESCENTOS E DEZOITO!!! Toda essa filosofia das palavras simples, frases curtas e compreensíveis, sem ambiguidade e claras para o leitor, sem obstáculos ao entendimento de idéias, já tem NOVENTA ANOS!!! A atualização mais relevante foi feita em 1935. Aaah, então não são noventa, mas sim SETENTA anos. Então tudo bem.

Nesse período, o papel ganhou a companhia do rádio, da TV e da Internet. Claro que são estruturas diferentes, que pedem aproveitamentos distintos de seu potencial. Mas em qualquer dos casos, não existe uma forma certa ou errada de escrever: qualquer método que seja capaz de transmitir exatamente o que desejamos é bom.

Ah, sim, uma das dicas de William Strunk Jr e E. B. White (além daquelas específicas a língua inglesa) é totalmente furada, mesmo naquele tempo: “não use opinião”. Ou você acredita que mesmo aquele textinho despretensioso, usando só alguns dados inofensivos, estão ali por acaso?

Comentários em blogs: ainda existem? (10)

  1. deve ser coisa do catatau, mas até hoje sou inseguro sobre que tipo de procedimento adotar quando se escreve um post. Mas aí talvez dependa muito do assunto, do tipo de referência, se será um comentário ou apenas apresentação com link, etc…

  2. Parabéns por entrar nesse debate. Espero que muitos blogueiros discutam a língua escrita.

    S&W ainda é guru de professores que não se atualizaram. Alguns preceitos são importantes. Ortografia, por exemplo. Só que o português brasileiro teve tantas reformas ortográficas que tenho que estudar ortografia. Portugal, assim como os anglófonos deixou tudo como estava. Mesmo assim, o Guia USA é o Manual of Style da U. de Chicago diz que 70s 1980s é sem apóstrofe. O NY Times usa apóstrofe.

    Tenho um livro chamado Adiós, Strunk & White de Gary e Glynnis Hoffman; o melhor que encontrei até agora postei na nossa camarilha, agora de cinco, de um professor da PUCRS.

    O pior do S&W é isso:
    – Se não gostou do texto, comece do zero. Não reescreva “por cima”.

    A gente guarda tudo, corrige e depois edita. A redação é um processo.

    Parabéns!

  3. Discordo de algumas coisas. Pra mim, quando a pessoa domina BEM o português, ela pode tudo, porque vai preservar a clareza do texto naturalmente. Essa coisa de não usar tanto adjetivo e advérbio, para deixar o texto “mais objetivo”, tira muito da literariedade que o texto pode ter. Aplica-se à linguagem jornalística, sem dúvida. Se o blogueiro dominar bem o vocabulário com que escreve e se valer dos vários sentidos que as palavras têm, se respeitar a gramática e a ortografia e tiver uma pontuação impecável, ele escreve o que quiser. Basta ter idéias interessantes e ser original. Eu já editei livro de dicas para escrever bem, já dei muita aula de redação e reescrevo muitos livros pra muito autor que não sabe escrever o próprio nome. O problema é sempre o mesmo: falta de domínio do próprio idioma. Pra mim, se o blogueiro tiver esse domínio, mas o domínio de verdade mesmo, a fundo, ele não precisa de dicas.

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