Você ainda acha que vai ver o Inter no Japão?

Vamos imaginar que você, como torcedor do Internacional de Porto Alegre, tenha se dado conta apenas nessa semana que seu time vai disputar um título mundial no Japão, e salvo um bicampeonato da Libertadores, dificilmente uma oportunidade dessas deve acontecer de novo. Então você descobre, tardiamente, que todos os pacotes para os torcedores colorados estão esgotados há muito tempo. E agora?

Pois com ao menos uma semana disponível, um pouco de coragem e os mesmos dez mil contos do pacotão, é possível encarar o desafio de acompanhar o Inter ao lado da torcida. Para que o seu entusiasmo não se vá de uma vez, comecemos pelo mais difícil: os ingressos.

Nem adianta procurar pelas agências de turismo em Porto Alegre: todos esgotados nas mãos de quem vai dar um jeito de ir. Você pode tentar algum contato com torcedores colorados e pedir alguma ajuda – para alguma coisa o Orkut ainda serve. O site oficial da competição, mantido pela Fifa, também comercializa entradas, mas até esta quinta-feira (portanto decida-se logo). Agora, se quiser ir para o tudo ou nada, embarque sem ingresso e arrisque com cambistas ou qualquer coisa do gênero. O máximo que pode acontecer com você é passar frio no lado de fora do estádio. Em compensação, vai estar num país exótico e cheio de possibilidades.

A via sacra do visto – Tudo bem, enganei você. O mais difícil não é entrar no estádio, mas sim entrar no Japão. Ao contrário da União Européia ou do Mercosul, a terra do sol nascente não é a casa da Mãe Katsuko, onde chega quem quer. E ter um carimbinho em seu passaporte autorizando a viagem não é tarefa das mais simples.

As exigências do consulado japonês em São Paulo, por exemplo, são grandes – as razões são puramente econômicas, como podemos comprovar diante das solicitações: além de passagem (especialmente a de volta) e do comprovante de férias ou dispensa do serviço, é preciso declaração de imposto de renda com o recibo de entrega, carteira profissional e holerites dos últimos três meses, além de extratos bancários. Se a sua cara de coitado for ainda maior, outros papéis poderão ser exigidos.

Fui tirar isso a limpo em uma agência de viagens especializada em traslados para o “mundo do já paguei”. Curiosamente, Leo Atogi, gerente da loja, explicou que essa dificuldade não existe na Argentina ou no Peru, por exemplo, onde é mais fácil conseguir o visto. Contou ainda a história de um cliente, nascido na Rússia, que apesar de comprovar suas posses, teve seu visto negado pelo consulado, inexplicavelmente. “Ele preferiu ir apenas para a China”, disse.

Ah sim, essa lenga-lenga do visto só deve ser encarada caso seu passaporte tenha validade superior a seis meses. Caso contrário, sua maratona começa bem antes: no site da Polícia Federal, onde é preciso preencher um formulário online, imprimi-lo (?) e levá-lo com outro monte de papel. A moleza fica ainda menor se por alguma boa razão você deixou de votar nas últimas eleições: sem um comprovante de quitação eleitoral, nada feito. A multa para cada eleição perdida não passa de três reais, mas ainda assim, é preciso pagá-la no banco, junto com a taxa do passaporte.

Pode ser que sua viagem suba no telhado aqui mesmo, vai depender dos prazos da PF e do consulado japonês. Mas se em menos de duas semanas você tiver o visto na mão, ainda dá pra viajar.

Você é a sua agência – Que mané pacote. A Internet pode transformar você em um especialista em turismo com alguns cliques. A passagem aérea pode ser pesquisada com tremenda facilidade em sites como o Decolar ponto com, cujos preços às vezes chegam a ser menores que os das próprias companhias aéreas. Com 1500 doletas é possível viajar entre São Paulo e Japão via American Airlines ou United – mas aí você precisa ainda de um visto para os Estados Unidos. Nesse caso, é mais fácil ir ao Japão de ônibus.

Ou tentar uma passagem via Europa, que é um continente bem mais bacana. A opção mais barata que encontrei é a da Air France, com escala em Paris, que sai por volta de 2500 doletas – e qualquer desculpa é ótima para passar por Paris. Também dá pra viajar na eficiente Lufthansa, com escala em Frankfurt ou Munique, ou a antipática Alitalia, passando por Milão ou Roma – as duas um pouco mais caras. Evidentemente, se meu dinheiro desse em árvore e tivesse tempo de sobra, escolheria a KLM, e ficaria pelo menos um dia, na ida ou na volta, em Amsterdã.

Ainda falta a hospedagem, e nisso a web é uma verdadeira caça-níqueis: é só botar a palavra “hotel” no Google para a tela ficar empesteada de anúncios relacionados. Dá pra se perder um bocado em sites de reservas, mas para garantir um mínimo de conforto, a sugestão é a rede Accor de hotéis, que tem opções em praticamente todo o globo. Usei essa artimanha em Buenos Aires e Montevidéu, com sucesso.

Na capital japonesa, a sugestão que me pareceu mais convidativa foi o Mercure Hotel Ginza Tokyo, localizado em uma das mais conhecidas e interessantes regiões da cidade, e dá pra chegar facilmente a partir do Aeroporto de Narita via trem e metrô. A reserva entre os dias 12 e 18 de dezembro, por exemplo, pode custar 202.300 ienes (cerca de 1800 doletas) na taxa segura, que permite cancelamento até as seis da tarde do dia da chegada, ou 113.050 ienes (umas 1000 doletas), na tarifa “pagou chegou, senão dançou”.

E lá, como se virar? – Até aqui, descobri tudo sozinho. O resto, só indo para saber. Felizmente, nosso intrépido Lello Lopes, que ainda está por lá acompanhando as meninas do vôlei (sim, foi de propósito) e caçando clones dos nossos amigos, me mandou algumas dicas valiosíssimas.

A começar pela grana. “A cotação está na base de um dólar para cada 114 ienes. Isso significa que com cem doletas você compra 11400 ienes, o que é bastante coisa”. Aí vai de cada um, especialmente aqueles que adoram compras perdulárias em viagens, como eu.

Na sequência, comida. “O preço da refeição é muito variável. Você pode fazer um bom jantar por 750 ou 800 ienes, em uns lugares mais pé no chão. Mas se você achar que esse pode ser o último jantar na lua quarto minguante da quadratura 25 de sua vida, a coisa fica um pouco mais cara, por volta de 1500 ienes (pelo menos o preço de Kobe, pode ser que em Tóquio seja mais caro)”, diz Lello, que antes de voltar deve experimentar o famoso Fugu.

Mais dicas, agora deslocamentos. “O transporte público também é relativamente barato. Um trem de Tóquio pro estádio em Yokohama deve sair, no máximo, por uns 400 ienes (é tão pertinho que nem vale pegar o shinkansen, que é o trem bala). Táxi só vale a pena se for pra curta distância, porque o taxímetro fica uns bons minutos sem marcar nada antes de girar quase em progressão geométrica”.

Por fim, a dica que faltava para o maluco de plantão: “Se você resolver mesmo vir, a primeira dica pode ser tirada do Guia do Mochileiro das Galáxias: DON’T PANIC! De resto, o país é muito louco e nunca mais o Inter vai disputar um Mundial”, diz ele. Tomara que não, porque dessa vez, o máximo que vou conseguir será repetir a Libertadores e acompanhar o Inter em Porto Alegre mesmo, num telão na Avenida Padre Cacique.

Comentários em blogs: ainda existem? (10)

  1. Nunca mais é muito tempo. E mesmo que aconteça de fato, ainda assim uma viagem ao Japão deve ser incrível, de verdade.
    Quanto a você ir ver o jogo em Porto Alegre, é uma ótima escolha também, não vai ter lugar mais festivo que lá neste dia. ;)

  2. Desde a infância tenho o sonho de conhecer o Japão, e um dia ainda conseguirei!

    Agora, o mais surpreendente deste (ótimo) texto é a parte do visto, documentação e tudo mais. Ela pode ser encarada como uma ratificação daquela opinião unânime dos brasileiros sobre nosso país: ô lugar burocrático, viu…

    []’s!

  3. Infelizmente terei de acompanhar aqui no Brasil, e esperança de um dia meu inter voltar e eu poder estar lá.
    Mas é complicado e caro demais esse Japão, prefiro Cidade do Leste.
    Abraço

  4. Se não me engano, a TAM tinha (ou tem?) um acordo de code-share(?) com a Japan Airlines, fazendo-se a conexão entre os vôos em Paris. O problema é que você tem que correr, porque o desembarque da TAM é numa ponta do Aeroporto Charles de Gaulle (imenso), e o embarque da JAL é na outra ponta.
    Eu quero ir ao Japão pra dizer que comi sushi no Japão. Mas o Fugu eu dispenso. ;-)

    Abraços

  5. Confesso que nem li o post, mas sim, e por várias vezes isso: “Quero ver… Outra vez… Seus olhinhos na noite serena…” Hmmmmmmm… ;P Tô com saudades, viu? Olha o e-mail. Beijo,

  6. Gostei das dicas, André. Aliás, já vou começar a providenciar tudo isso em janeiro, até porque o meu time, ao contrário do Inter, está meeeeeega acostumado a dar show no Japão…

  7. Exagerado. A história de tirar o visto só assusta na burocras, mas é fácil demais. É só separar a papelada e ser simpático com os tios do Nara que as coisas se resolvem. O hotel você também consegue mais barato. Fiquei sabendo que Guinza é a parte mais cara da cidade. E hoje fui em um lugar que você iria enlouquecer: Akibahara, o bairro dos eletrônicos. Que se não bastasse ser um stand center gigante, tem um monte de gente fazendo magiquinha na rua!

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