Vamos aproveitar a onda dos 91%

O que mais eu posso acrescentar aos belos votos de boas festas concedidos aos nossos parlamentares, que para garantir um feliz ano novo, estão lutando por um aumento de 91% em seus vencimentos – ou, se não der, já que todo mundo ficou chateadinho, um reajustezinho de acordo com a inflação já ajuda.

Só a Folha Online, que registrou algumas das mensagens recebidas, contabilizou mais de mil e-mails em 15 horas. Posso estar errado, mas nem mesmo durante os escândalos do mensalão, dos sanguessugas ou mesmo com o dossiê mequetrefe da eleição, esse sentimento de indignação não era tão forte. Ao menos em nenhuma dessas ocasiões eu soube de algum popular tentando esfaquear um deputado, por exemplo.

Infelizmente os nossos pobres parlamentares contam com uma boa arma a seu favor: a não-politização do povo. Traduzindo: nessa semana, todo mundo fala sobre os 91% nas mesas de bar. Semana que vem, já vão falar no Natal, no ano novo… Então vem janeiro, aí já viu. É só Big Brother e Carnaval. Provavelmente nesse meio tempo, o tal aumentinho saia. Tanto por falta de vergonha desses cidadãos quanto pela inércia viciante do silêncio e da alienação, sustentado pelo problema crônico da nossa educação, como desabafou o Júnior.

E aqui, assumo minha parcela de culpa: eu sei que não devia, mas muitas vezes a minha indignação é substituida por uma sensação horrível de conformismo, simplesmente porque, na maioria dos casos, nem mesmo o grito dos muitos indignados faz efeito diante dessa inércia histórica e estabelecida. Mas tirando meu pessimismo de lado, ainda acredito num jeitinho de, digamos assim, amplificar um pouco mais o barulho do povo. Estou falando dos blogs e seus dois ou três leitores, mas que juntos, podem engrossar o caldo.

A discussão tomou corpo essa semana, na agitada panelinha formada pela lista Blogosfera, onde praticamente todos os membros se dispuseram a proliferar o tema pelos cantos virtuais. Claro que vale a pena todo mundo se manifestar sim, mas talvez os resultados (sejam eles quais forem) sejam mais significativos se todos apontassem ações comuns.

Uma delas é a petição online, criada pela Claudia Schuch e divulgada pelo site Congresso em Foco – que sugere ainda o acompanhamento do tema a partir do Jornal de Debates.

Existem outras sugestões, como bem ilustra o Bruno Alves. Dá, por exemplo, para entupir os e-mails dos parlamentares (se é que eles lêem algum), como já fizeram o Fábio Matos (procure pelo dia 15 de dezembro) ou o meu xará, criador do oportuno noventavírgulaseteporcento.

Claro que, mesmo diante de tamanha mobilização, é difícil acreditar em um resultado concreto. Mas a verdade é que, diante dos meios que dispomos, não tem outro jeito. Quer dizer, tem. Podemos esperar pelo Juízo Final, até todos nós, inclusive quem escolhemos democraticamente nas urnas, pagarmos nossos pecados.

Em tempo: sim, a mídia poderia nos dar uma força e fiscalizar nossos governantes, não fossem tão parciais e movidos a interesse. E ainda que você não acredite, esse desabafo do repórter Rodrigo Vianna sobre a cobertura eleitoral da Globo só reforça a desconfiança – aliás, se a blogosfera repercutiu os 91% com força, imagine o barulho que essa mensagem vai fazer. Feliz Natal, hein.

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